Meio século sem Camus


Pedro Correia,

 

Às vezes, basta um parágrafo – um simples parágrafo de abertura. Albert Camus, naquele que seria o seu romance de estreia, em 1942, conseguiu escrever esse parágrafo que fica a perdurar na memória de qualquer leitor: “Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’ Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

É assim o começo d’ O Estrangeiro, um dos livros de ficção do século XX que melhor reflectem o desamparo do homem perante as encruzilhadas da existência: Camus, com apenas 29 anos, revelava-se desde logo como um dos grandes nomes da literatura universal, que a Academia de Estocolmo confirmaria em 1957, ao atribuir-lhe o Prémio Nobel. O Estrangeiro, traduzido para mais de 40 idiomas, é hoje o recordista absoluto de vendas em formato de bolso em França. E a actualidade do pensamento de Camus – tão ou mais notável como ensaísta do que como romancista – é indiscutível. Na sua recusa intransigente do compromisso dos intelectuais com sistemas totalitários, na sua obstinada luta contra a violência como instrumento de acção política e na sua afirmação de que “todo o despotismo, mesmo provisório”, deve ser rejeitado. Na sua denúncia simultânea dos campos de extermínio nazis e dos gulags soviéticos. E também no modo inequívoco como se pronunciou, logo em Agosto de 1945, contra o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui: “Marx não recuou em 1870 perante o elogio da guerra, que ele pensava que deveria fazer progredir, pelas suas consequências, os movimentos de emancipação. Mas tratava-se de uma guerra relativamente económica e Marx raciocinava em função de uma espingarda com baioneta, que é uma arma de crianças. Hoje em dia, vocês e eu sabemos que as consequências de uma guerra atómica são inimagináveis e que falar da emancipação humana num mundo devastado por uma III Guerra Mundial é algo que se parece com uma provocação.”

Ao princípio da tarde de 4 de Janeiro, faz amanhã 50 anos, o Facel-Véga em que Camus seguia, conduzido pelo seu editor e amigo Michel Gallimard, embatia inexplicavelmente contra um plátano situado na berma da estrada perto de Sens, quando fazia o trajecto entre a Provença e Paris. Numa recta, à luz do dia, com plena visibilidade. O escritor, cuspido do carro, teve morte instantânea. No interior do veículo estava o manuscrito do seu romance autobiográfico O Primeiro Homem, deixado inacabado mas publicado em 1994.

Mersault, o anti-herói d’ O Estrangeiro – que mata “por causa do sol” e sobe ao cadafalso afirmando que “fora feliz e que o era ainda” -, não se importaria decerto de terminar assim os seus dias. De forma tanto mais absurda por ser tão trágica e tanto mais trágica por ser tão absurda.

26 comentários em “Meio século sem Camus”

  1. É um dos meus autores preferidos e uma das minhas principais referências filosóficas, pois sou essencialmente existencialista.
    Camus humanizou o existencialismo, ao passo que Sartre o intelectualizou demasiado, tornando-o quase esotérico.
    Parabéns pela referência à efeméride.

  2. “um dos grandes nomes da literatura universal, que a Academia de Estocolmo confirmaria em 1957, ao atribuir-lhe o Prémio Nobel”

    Não deixa de ser curioso ver isto escrito pelo mesmo autor que, há poucas semanas atrás, escreveu sobre o ridículo de muitos dos prémios Nobel da Literatura até hoje atribuídos, e sobre muitos outros desses prémios que deveriam ter sido atribuídos e não o foram.

    1. Caramba, consigo é mesmo anonovo-vidavelha. Mantém-se fiel a si próprio e à tradição de resmungar a propósito de tudo e de nada nas caixas de comentários. Dou-lhe os meus parabéns pela coerência.
      Quanto ao resto: mantenho tudo quanto escrevi sobre os critérios da Academia Nobel, que deixou de fora muitos dos maiores talentos literários do século XX – Tolstoi, Proust, Ibsen, Conrad, Kafka, Borges, Greene, Pound, Nabokov, Mishima, Yourcenar, Hardy, etc, etc, etc.
      Mas algumas vezes acertou. Quando premiou Camus em 1957, por exemplo. Ou T. S. Eliot, ou García Márquez, ou Hemingway, ou Faulkner. Podia e devia ter acertado muito mais. O meu ponto era este. E é. Nada a alterar também da minha parte. Capice?

      1. Se bem me lembro, no seu post sobre os prémios Nobel da literatura Você também dizia que houve muitos desses prémios que foram atribuídos a escritores que hoje em dia são desconsiderados. É por isso que eu considero contraditório Você agora vir afirmar que a concessão do prémio Nobel a Camus confirmou o talento deste.

        Mas prontos, admitamos que Você mudou de ponto de vista devido à entrada em 2010. Ano novo, vida nova e opiniões novas!

  3. “embatia inexplicavelmente contra um plátano situado na berma da estrada perto de Sens, quando fazia o trajecto entre a Provença e Paris.”

    Cansaço do condutor. Há imensos desastres rodoviários similares. Por exemplo, aquele em que morreu o jornalista José Guilherme Arroz. Aliás, só um maluco se decidiria a fazer um percurso entre a Provença e Paris (mais de 700 quilómetros) de carro.

    “O escritor, cuspido do carro, teve morte instantânea.”

    Não levava cinto de segurança. Não os havia nesse tempo. Hoje em dia há, mas ainda há quem não os use.

    1. Pois, não havia cinto de segurança. Se houvesse, talvez Camus sobrevivesse.
      A distância é enorme, de facto. Mas eles tinham parado ao fim da manhã, para almoçar. O acidente ocorreu pouco depois de terem retomado a viagem.
      O mais irónico é que Camus devia ter regressado de comboio a Paris, na companhia do poeta René Char, um dos seus maiores amigos, e chegou mesmo a comprar o bilhete. A ida de carro resultou de uma mudança de planos, por insistência de Gallimard. Char manteve o projecto inicial – e escapou assim de morrer naquele mesmo dia.

  4. Perto de Sens não sei se ainda era a mítica n7, a estrada das férias. Sem ela não haveria alguns dos grandes restaurantes franceses, onde por vezes aterro.
    E quanto à loucura dos 700km, ontem fizemos 1.000, por auto-estrada e com cintos de segurança, é certo, para regressar à pátria.
    Quanto ao Camus, afinal é dele que o post fala, estou a 200% de acordo com o Pedro. Volta meia volta relei-o e descubro sempre algo de novo.

    1. O acidente ocorreu na estrada nacional 5, entre Sens e Fontainebleau, Maloud. O relógio do carro marcava 14.15. Houve várias teses sobre a origem do acidente – do excesso de velocidade, pois o carro circularia a 130km, ao rebentamento de um pneu traseiro, passando pelo eventual desmaio do condutor – mas nenhuma foi definitivamente apurada.

  5. Li pela primeira vez O Estrangeiro ainda na adolescência e tudo na obra me prendeu: “o grau zero da escrita”, expressão de que só ouviria falar anos depois, o papel do hábito, a recusa da hipocrisia, a problematização do amor, do casamento, a amizade, mesmo quando socialmente inconveniente, a aceitação da culpa e do castigo, que culmina no desejo de Meursault de que haja muita gente a assistir à sua execução e “qu’ils m’accueillent avec des cris de haîne”. Obra perturbadora, inquietante, continua a ser das minhas preferidas e a ela voltei depois daquela primeira leitura muitas, muitas vezes. Temos, assim, pelo menos uma coisa em comum: a paixão por este livro.
    Um bom ano, com mais livros.

  6. Obrigada pela explicação. Ainda este ano ao vir de Itália para Paris, fizemos essa estrada, mas francamente não reparei no nr. E para sossego do Luís Lavoura, só fomos de Lucca até a um hotelzinho perto de Sens. O resto do percurso, com paragem em Fontainebleau, para rever o château “napoleónico”, foi feito no dia seguinte.

  7. Li o livro muito jovem (12 anos?) Voltei a ler anos mais tarde. Foi dos livros que mais me impressionou na vida. Já o procurei várias vezes para reler e em todas elas descubro que não o tenho. Vou comprar amanhã.

  8. Ontem, numa livraria, estive a ler algumas frases do livro de Italo Calvino, “Porquê ler os clássicos?”. Não pude deixar de lembrar-me de algumas a propósito deste texto e sobretudo d’ O Estrangeiro”. Logo na capa se diz que “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”. Camus é desses escritores que nos diz sempre mais a cada leitura. Foi bom lembrá-lo.

  9. …….é talvez o livro da vida de muita gente, aquele, o tal que nunca mais se esquece! Tenho-o em várias línguas, para não o perder de vista :-))

  10. Também li O Estrangeiro há muitos anos, muito provavelmente quando não tinha ainda capacidade para compreendê-lo e apreciá-lo na totalidade. Fiquei com uma impressão forte do livro, mas não me lembro de pormenores. Com este post lembraste-me de que devia tê-lo relido mais tarde, e é o que vou fazer em breve. A blogosfera serve também para esta troca de experiências e sensibilidades.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *