

O nosso olhar pode prender-se a uma imagem e ela funcionar como chamariz irresistível: ficamos conquistados. Por exemplo, aquela fascinante casa dos avós de Paula Rego, à entrada da Ericeira, onde a pintora viveu os seus anos mais felizes e surgiria transfigurada em diversos quadros que pintou. Ou os retratos dela enquanto jovem, de uma beleza fulgurante, embora sem aparente noção disso. Uma das filhas alude ao tema no documentário: «Era lindíssima, parecia uma estrela de cinema.»

Produzido pela BBC, o documentário foi realizado pelo filho de Paula, Nick Willing, que durante dois anos manteve um diálogo filmado com a mãe, já octogenária. Num fluxo de confidências, ela fala pela primeira vez da sua vida, desde a mais remota infância, e da sua arte, que viria a dar-lhe fama tardia mas merecida, no final da década de 80.
Paula era pessoa reservada e tímida, confessa ter sido sempre marcada pela depressão, à semelhança do que sucedia com o pai, prematuramente desaparecido, enquanto mantinha relação tensa com a mãe, artista frustrada.
“Paula Rego, Histórias e Segredos” desvenda-nos Maria Paula Figueiroa Rego, nascida em Lisboa a 26 de Janeiro de 1935 e falecida a 8 de Junho de 2022 em Londres, onde estava radicada há quase meio século. Fala em inglês com o filho, mas a primeira frase que pronuncia é na língua materna. E o filme encerra com a voz de Amália cantando “Gaivota”, o mais belo fado de sempre.

O documentário é de 2017 e teve até estreia em sala. Fez bem a RTP3 ao exibi-lo agora, a pretexto da morte da nossa mais célebre artista contemporânea. Muitos de nós só agora ficámos a conhecê-la em discurso directo, com depoimentos dos filhos – além de Nick, falam as filhas, Caroline e Victoria. Também surge Jorge Sampaio, que convidou Paula a pintar oito imagens da Virgem Maria para a capela do Palácio de Belém. «A religião tinha um papel importante na vida dela», revela o falecido Presidente. Questionada pelo filho, a pintora confirma: «Acredito em Deus, claro que acredito.»
No pós-25 de Abril, viu-se forçada a vender a quinta Figueiroa Rego para liquidar dívidas familiares. Em Portugal, naqueles anos, era impossível viver da produção artística. Paula e o marido britânico, Victor Willing, rumaram a Londres. Ele, também pintor, tinha sérios problemas de saúde, vindo a morrer em 1988. Ela afundou-se na depressão, o que se reflectiu nas telas.


«Nos meus quadros podia fazer tudo», segreda ao filho. Reabilitou a pintura figurativa, na linha de um Francis Bacon ou de um Lucian Freud. E manteve uma saudade amarga e doce pela casa dos avós na Ribeira da Baleia: a perda foi tão devastadora que não regressou à Ericeira. A quinta de 11 hectares desapareceu, o bosque deixou de existir: resta a magnífica mansão de portas encerradas, sem memórias nem préstimo, à portuguesa. Disto o filme nos fala também.
Assim vale a pena haver serviço público. Para alargar horizontes, combater a mediocridade e subir de nível. Enquanto outros canais, à mesma hora, desperdiçam horas de emissão com broncos aos gritos sobre tricas do futebol.
Texto publicado no semanário Novo.

no último séc os pintores e outros artistas plásticos são fabricados pelos ‘marchand d’art’
“no último séc os pintores e outros artistas plásticos são fabricados pelos ‘marchand d’art’ “
Quer dizer que os ‘marchand d’art’ eram os proprietários Estabelecimentos de Ensino de Belas Artes, e ensinaram Picasso, Dali, Sousa-Cardoso, Vieira da Silva e outros a pintar/fazer em conformidade com o que muito bem lhes apetecia? E os seus quadros nada têm de obras d’arte ou corrente estética ?
hoje já me ri o suficiente.
nunca assaltei o Louvre como Picasso
nem recebi dinheiro por Guernica.
conheço bem os assuntos de que falo
Paula é um dos nomes grandes da pintura portuguesa dos séculos XX e XXI. Digam os ‘marchands’ o que disserem.
Not really true. Eu faria uma distinção entre os galeristas e os marchands (que são os tipos das feiras e das bienais). Durante o final do modernismo (dos anos 40 até 80) apenas uma pequeníssima minoria era sustentada por alguns galeristas, quer nos States, quer na Europa.
Num post intitulado “Memórias amargas e doces de Paula Rego” talvez valesse a pena mencionar o curioso marido (e pai dos seus filhos) que ela teve, o qual lhe deve ter deixado alguns sentimentos amargos. Forçou-a a fazer vários abortos. Era alcoólico. Levou à falência o negócio que herdou do sogro.
Faça isso você no seu blogue, se ainda tiver algum.
O marido dela era também um infiel relapso. E Paula Rego até conhecia as amantes dele, tanto que pintou algumas delas nos seus quadros.
Difícil de aturar deve ele ter sido. Não deve ter amargado pouco, ela.
Devia ter sido um santo, comparado consigo.
A Paula Rego em rapariga e, depois, durante alguns anos era duma beleza cinematográfica anos 70, que faria inveja a muitas estrelas de Hollywood.
Porquê quando somos velhos ficamos feios?
Fala por ti, pá.
“Porquê quando somos velhos ficamos feios?”
Ó pá, tás tão lindo que nem te lembras do autor da frase.
Azar o meu: tentei ver na RTP3 e não o encontrei. Deve ter passado há mais de uma semana…
Sim, já não está disponível. Pode ser que repitam um dia destes, no mesmo canal. Ou fique acessível na RTP Play.
Muito obrigado. Ficarei atento.