Metamorfose


Maria Dulce Fernandes,

22274472_1684V.jpeg

Tu sabes mariposa que uma borboleta não nasce com a dádiva de Ícaro, o dom de poder voar, voar até sentir que tem as asas que deveriam ser as suas desde que veio ao mundo. Pode sentir-se borboleta, mas começa por ser um pequeno ovo que se desenvolve até ser lagarta, aquela que tece a crisálida que a abrigará até a metamorfose estar completa e poder finalmente ter asas, alongar o seu esplendor e fazê-las voar. É um processo moroso que requer paciência, resignação, grande autoestima e capacidade de perdoar a quem não entende a tua necessidade de ser alado.

Conheci-te eras pouco mais do que um ovo, um lagartote que só queria comer e jogar à bola. Passeavas os teus sobrinhos bebés, todo janota conduzias o teu táxi. Mostravas vaidoso as tuas conquistas. Prumo de elegância saías com a rapaziada, sempre com uma alegre palavra de despedida. Depois casaste e com que orgulho e ternura enlaçavas os teus filhos! Naquela altura ninguém entendeu porque é que o teu casamento chegou ao fim, mas tinhas o apoio do teu irmão. Estavas bem. Até não estares. Ninguém esperava que ele fenecesse assim, foi repentino e surreal, que não, que não acreditavas que fosse antes de ti, dizias a soluçar. Foi dos desígnios de Deus.

Ficaste estranha, mariposa. O luto nem sempre é fácil de fazer. A dor encapota-se na banalidade dos dias e o desgosto e a tristeza fazem pesar uma longa noite que por vezes leva anos a passar.

Mas contigo não. Abraçaste de imediato a radicalidade do amanhã, deixando a de ontem mal resolvida. 

Seguiste-te, aos teus sonhos e aos impulsos da carne. Passou um ano, passaram dois e a metamorfose ficou completa. Gritaste-a aos quatro ventos, mostraste-te ao mundo como és, quem és, os teus sonhos e ambições. É aqui, é agora, é real, é igual. O espelho, esse caprichoso, não te devolve quem tu querias ser, devolve-te quem tu eras. Não é preconceito,  só realidade.

E tu não entendes. Tanta luta, tanto sofrimento, mas a magia não aconteceu. Aínda não. Será que demora a chegar?

E eles? Os outros? Todos. Porque demoram a ver-te a ti? Não pode haver engano! Tu não és mais quem foste durante tantos anos! Queres bradar ao mundo, clamar que te vejam mas não entendes que não se apaga toda uma vida com uma assinatura num papel, no fumo de um fósforo gasto, no sopro do ar de um suspiro. Dá tempo ao tempo, mariposa, deixa-os ver que a amizade é igual, a diferença são apenas as asas, aquelas que escondias e agora abres para voar. 

Sabes, mariposa, a aceitação tem que começar por ti. Primeiro e sempre, tens que ser tu, sempre tu, a nova tu,  liberta de preconceitos, intolerâncias e hostilidades a dar o primeiro passo. 

A felicidade também pode fazer voar.

10 comentários em “Metamorfose”

  1. Boa tarde!
    Lindíssimo! Estou sem palavras. Muito obrigada por este texto soberbo! Das coisas mais bonitas e comoventes que li ultimamente.

  2. Tenho alguma dificuldade em compreender este texto da Senhora Maria Dulce. Acho que é um ataque cerrado a masculinidade que, enfim, já está nas ruas da amargura, cada vez vejo mais a natureza das coisas perdida no abismo infinito em que o homem é humilhado, enxovalhado por esta nova ordem sem dó nem piedade. Há dias que tenho medo de sair a rua e perder a virtude do meu ser com a intolerância das mulheres cada vez mais autoritárias e permissivas a alternância de novos rumos metamorfósicos. É um horror!! E só peço a Deus que os faça ver o pecado e os perigos da anti-natura imposta pelo marketing a marcha dos oprimidos. Estou orgulhosamente só e não me rendo e assim um dia vou partir como um homem que sou.

    António Branco

    1. António Branco, se pensa que é um ataque cerrado à masculinidade, sugiro que leia de novo. E outra vez. Talvez mais uma ainda.
      Não creio que tenha entendido coisa alguma, mas obrigada pelo comentário. O mundo só se torna feio se não deixarmos a beleza entrar.

  3. Belo, belíssimo texto.
    Claramente, um hino a aceitação da Pessoa. Não um ataque a coisa alguma!!!
    Todas as Pessoas, com as suas complexidades, as suas identidades, as suas dúvidas e as suas certeza, trazem em si uma Alma, a Imagem e Semelhança de Deus.
    E Pecado será negar-lhes essa dignidade, em nome de uma suposta defesa do “natural”.
    Quem sabe o que vai no íntimo e no coração de cada Ser Humano?
    Como deve ser duro viver na permanente divisão interior, na cisão entre o que se vê no espelho e o que se sente por dentro!!
    Quantas dores morais, quantas angústias?
    Tudo isso basta..
    Não e preciso por sal nessas feridas, com indignações, censuras e julgamentos morais.
    A verdadeira e autêntica moral será aceitar todas as diferenças, acolher todas as borboletas, amar todos os Seres Humanos como irmãos, filhos do mesmo Pai.
    Masculinidade.
    Femininalidade.
    Identidades belas e cheias de sentido.
    Mas na dúvida… HUMANIDADE!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *