Este post começou por ser um comentário ao «Música de Filmes (II)», do Jorge Assunção, alocado mais abaixo. Tornou-se relativamente longo e pensei em deixar-vos antes o texto aqui. A quem possa interessar.
Cultivo uma loucura nostálgica por duas cidades que me perdem e onde me deixo perder e que estou sempre pronto a revisitar, as duas por igual: Xangai e Praga.
Por qualquer razão, associo sempre o filme E Tudo o Vento Levou à ocupação da China pelos japoneses, que invadiram Xangai e provocaram a debandada desesperada dos elegantes bairros de ocidentais. Era onde pontuavam as famílias americanas e europeias, que aí tinham introduzido uma indústria e comércio de pujança sem paralelo, a par de um insólito modo de vida ocidentalizado de que os xangainenses ainda hoje conservam alguma herança.
À chegada dos japoneses, Gone With The Wind estava num imenso cartaz no frontispício de um dos cinemas mais bem frequentados de Xangai (aparece em alguns trabalhos publicados e é visível no filme O Império do Sol).
Por esses dias, o Tema de Tara era a grande moda e tocava-se no melhor salão da cidade, no mais conhecido hotel em pleno "Bund" (a área histórica dos belos edifícios de arquitectura ocidental, junto ao rio), onde ficou famosa a banda de jazz que aí enchia as noites.
Já agora, para terminar e a talhe de foice: hoje em dia, vários edifícios do "Bund" voltaram a ser hotéis e bancos; alguns deles estão ocupados por estabelecimentos McDonald’s, Kentucky Fried Chicken, Pizza Hut, etc., onde fervilham milhões de chineses, numa espécie mais do que suspeita de regresso aos tempos áureos, uma forma de glorificação desse passado pujante que os americanos, como sempre, puxam a si.
Ainda isto: quando referi milhões de chineses nas lojas não foi a brincar. A longa, enorme, Avenida de Nanquim, na Baixa de Xangai, é indescritível e costuma ser considerada a artéria urbana mais movimentada do mundo…


Haha… eu ainda li este comentário no meu post, pensei logo que pelo conteúdo merecia honra de post. 🙂
Quanto a Praga e Xangai não tenho o privilégio de as conhecer. Mas se quanto à primeira não tardarei em colmatar a falha, a segunda terá de esperar mais algum tempo – tenhos outros lugares a visitar por aqueles lados antes de meter os pés em Xangai.
“À chegada dos japoneses, Gone With The Wind estava num imenso cartaz no frontispício de um dos cinemas mais bem frequentados de Xangai (aparece em alguns trabalhos publicados e é visível no filme O Império do Sol).”
É o que aparece logo no ínicio deste video?
http://www.youtube.com/watch?v=kmf8gdQQ z8c
É este mesmo, Jorge. Grande achado. A título de curiosidade, a bela zona histórica ribeirinha de Xangai parou de tal modo no tempo que, para a rodagem do filme, pouco mais foi preciso de que pintar por cima a sinalização a branco nas faixas de rodagem. Daí ser uma cidade tão nostálgica.
Boa digressão nostálgica, compadre. A Bund de Xangai é um dos locais mais charmosos do planeta. Quando entrávamos no bar do Peace Hotel e escutávamos aquela velha orquestra de jazz sentíamo-nos como viajantes no tempo, recuando àquela década anterior à guerra imortalizada em tantos filmes.
O hotel de que falo, como sabes, é esse mesmo. Ao tempo, tinha outro nome que não recordo e as minhas fontes, como calculas, estão agora empacotadas. Tenho de escrever de memória e a idade não perdoa…
João, que post poético! Vou ter mesmo de o guardar.
E agora falta o post sobre Praga, com a “música de filme” correspondente!
Praga ficará à espera do pretexto, Ana.
Obrigado pelas suas palavras.