Natal


Pedro Correia,

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Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absolve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre de Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

 

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que eu Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,

 

É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura.
Bendita a minha também.

11 comentários em “Natal”

  1. É um dos “meus” poemas de Natal…

    E outro, também do Reinaldo Ferreira, que me toca profundamente:

    “Visitação

    Que é do anjo das asas rutilantes
    Com que lutou Jacob, na madrugada?
    Que é desse outro, de falas sussurrantes,
    Que surgiu a Maria, a fecundada,

    Tão casta e sem pecado como dantes?
    Que é da estrela, pela mão de Deus lançada
    A guiar os incertos caminhantes
    Ao colmo da cabana consagrada?

    Onde estão os sinais que Deus envia?
    Onde estão, que os procuro noite e dia
    Sem nunca ver cumprido o meu desejo?

    Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,
    Os não encontro porque sou impuro,
    Ou sou impuro porque os não vejo.”

      1. Muito lhe agradeço tão simpáticas e generosas palavras, Zebra.
        Já vi que partilhamos (também) o gosto pela poesia, nomeadamente a de Reinaldo Ferreira, que anda tão esquecida.
        Feliz Natal.

  2. Grato por se ter lembrado de um dos maiores poetas da língua portuguesa.
    Reinaldo Ferreira (nascido em Barcelona em 1922, filho do celebérrimo Repórter X, pseudónimo do conhecido jornalista Reinaldo Ferreira, de quem herdou o nome, chegou a Lourenço Marques em 1941, onde morreu de cancro em 1959) foi um poeta que realizou toda a sua obra em Moçambique.
    Fez parte de um meio cultural dinâmico, de gente notável não comprometida com o regime colonial, como Rui Knopfli, Eugénio Lisboa, Glória de Sant’Anna, Hélder Macedo, Alberto de Lacerda, os irmãos Fernando e José Gil, Hermínio Martins, Tiago Oliveira, etc.) que pontificavam em jornais e revistas (“Diário de Notícias”, “A Voz de Moçambique, O “Itinerário”, com excelentes cadernos culturais e página literárias.
    Autor de letras de canções ligeiras como as célebres “Casa Portuguesa”, “Kanimambo”, “Piripiri”, os seus poemas foram cantados por vários nomes da música portuguesa, entre eles: Amália, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Afonso e Manuel Freire.
    António José Saraiva e Óscar Lopes compararam Reinaldo Ferreira a Fernando Pessoa realçando «o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afectos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico».
    No aniversário do nascimento de “Reinaldo Ferreira -100 Anos” o escritor moçambicano Nelson Saúte escreveu um notável artigo ( https://cartamz.com/index.php/component/k2/item/10241-reinaldo-ferreira-100-anos) que termina assim: «A sua campa é rasa e nela estão inscritos a bronze estes versos: “Mínimo sou, / Mas quando ao Nada empresto/ A minha elementar realidade, / O Nada é só o resto.” Descobri-a no acaso de uma romaria familiar ao Cemitério de Lhanguene e me deixei surpreender pela singela tumba. Não me sobressaltou o abandono. Os poetas costumam ter essa fortuna: o desabrigo, a solidão e a negligência do futuro.
    Reinaldo Ferreira é, não obstante, um grande Poeta. Não entro na discussão da sua nacionalidade literária.
    Maputo tem, felizmente, uma rua com seu nome, uma pequena rua cul-de-sac, que entronca na Emília Daússe, muito perto da Salvador Allende. Fui ontem procurá-la e lá estava recolhida na sua pacata obscuridade. O Poeta não está degredado da nossa toponímia. Ainda alimentei a esperança de o ver celebrado hoje nos lustros que perfazem, por estes dias, a relação entre Moçambique e Portugal. Debalde.
    Leio-o esta noite e sempre com assombro e não deixo de vituperar esta cultura de esquecimento que é o apanágio dos nossos dias.»
    Concluo, e a propósito da ideia reducionista de um colonialismo exclusivamente violento e repressivo, as palavras do historiador e professor jubilado da UC, Luís Reis Torgal: «O que implica que devemos, obviamente, estudar a colonização e o colonialismo com todo o rigor, mas sem preconceitos negativos ou positivos, como por aí se vê nesta febre de opinião ou de ideologia radical anticolonialista ou neo-imperialista, que vai deformando a interpretação da realidade.»

    1. Caro Carlos Antunes…

      Uma excelente súmula biográfica do poeta português Reinaldo Ferreira,
      filho do célebre jornalista Reinaldo Ferreira (1897-1935), o célebre “Repórter X”.

      Recomendo o filme “O TÁXI N.° 9297”, Reinaldo Ferreira, Lisboa, 1927.
      O DVD, edição da CINEMATECA PORTUGUESA – MUSEU DO CINEMA de 2018,
      também tem a curta-metragem cómica “RITA OU RITO?”, Reinaldo Ferreira,
      Lisboa, 1927. Tem, ainda, o “ensaio audiovisual” “OS MOTIVOS DE REINALDO”,
      Ricardo Vieira Lisboa, Lisboa, 2018. Acompanha o DVD, uma brochura ilustrada,
      com sessenta e quatro páginas, com excelentes textos do Tiago Baptista (2017), do Luís de Pina (1989), do Luís Trindade (2017), do Ricardo Vieira Lisboa (2017).

      Cumprimentos.

      João Barros da Costa

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