Este artigo, de facto, é delicioso. Bem sei que já o disse, mas não posso deixar de o reafirmar. É delicioso ver José Pacheco Pereira a tecer considerações sobre o “direito natural a ser deputado apenas porque se é membro, conhecido ou não, de um partido político”. Naturalmente…
Pacheco Pereira, de facto, é a pessoa indicada para vir dar lições de ética. Logo ele que não abdicou do “direito natural” numa das suas piores perversões. Corrijam-me, por favor, se estiver errado: estamos a falar do mesmo Pacheco Pereira que foi eurodeputado entre 1999 e 2004 e que, sabendo que não podia estar em dois locais ao mesmo tempo, ainda assim liderou a lista do PSD no Porto nas legislativas de 2002? Estamos a falar do mesmo Pacheco Pereira que foi eleito deputado em 2002 mas que nunca ocupou o lugar, como não poderia deixar de ser? É deste “direito natural” que estamos a falar?
Adoro igualmente a parte do “desapego face ao poder”. Entre 1987 e 2004, Pacheco Pereira foi deputado e eurodeputado. Dezassete anos consecutivos que terminaram, como se sabe, fruto de um percalço. O “desapego face ao poder”, aliás, é tão grande que Pacheco Pereira este ano manifestou a sua vontade de regressar ao Parlamento Europeu. Ou seja, feitas as contas, o “desapego face ao poder” durou, para já, cinco anos. Alguém que apenas há cinco anos é que não ocupa o cargo de deputado ou eurodeputado — e que já manifestou a sua vontade de regressar — falar de “desapego face ao poder” para o atirar à cara de Passos Coelho que não é deputado desde 1999 — ou seja, o dobro do tempo de Pacheco Pereira — é simplesmente delicioso.
P.S. — Um dia também poderemos falar do desapego face às reformas pelos anos de deputado. Quando saiu do Parlamento em 1999 Pedro Passos Coelho renunciou a esse “direito natural”. Quantos mais poderão dizer a mesma coisa?

Suspeito que este nervosismo de Paulo Gorjão tem a ver com o enorme tiro no pé que é a entrevista que Pedro Passos Coelho dá hoje ao Diário de Noticias.
Mas o tiro está dado. E uma vez disparado, não há quem o faça voltar para trás.
E, já agora: quando fala em “precalço” fala do facto de JPP ter renunciado a assumir funções em representação de um governo liderado por Santana Lopes quando acabou o seu mandato de eurodeputado? A esse “precalço” eu chamo coerência.
Eu também adoro vê-lo a si a lutar tão abnegadamente pelo lugar de deputado para Pedro Passos Coelho.
Só que me parece que se Pedro Passos Coelho fosse coerente não quereria ser deputado do PSD tendo como lider do seu partido uma pessoa de quem discorda tanto. Mas esse “precalço” Passos Coelho não se arrisca a cometer.
Rafael Marques
Qual é o motivo do seu nervosismo, Rafael Marques? Quer ser candidato a deputado e está com medo que outros lhe façam sombra, procurando afastá-los do caminho? Parece-lhe mal que a próxima bancada do PSD seja plural? Acha que PPC deu um tiro no pé porquê? Eu li a entrevista com atenção e entendo que o que PPC lá diz só revela bom senso. Você discorda de quê, concretamente?
Não sendo o anterior comentador, ainda assim gostaria de responder à questão do Pedro Correia. Do que é que não gostei na entrevista de Passos Coelho? Basicamente a mesma atitude que lhe vi nas Europeias: eis alguém que nunca ganhou uma eleição importante na vida, nunca desempenhou um cargo relevante com reconhecido mérito, basicamente, nunca deu provas de qualquer capacidade política, fazer exigências à líder do partido como se fosse um senador carregando uma extensa folha de méritos. O que é que se chama a isso? Um exercício patético. Particularmente ridículo é ver que Passos Coelho não aprendeu nada com as Europeias, já para não falar na derrota nas eleições internas. A única coisa que me aborrece sinceramente é que Passos Coelho dê um mau nome ao liberalismo; espero que já tenha mudado de canção ideológica – e parece-me que sim – para que, ao menos, na sua queda não leve o nome da doutrina.
O quinto deputado mais faltoso da Assembleia da República vai ser cabeça de lista do PSD no Porto. Não acha preocupante, Sr. José Barros?
Dizer que o partido deve ganhar as legislativas, e ganhá-las de modo claro – ou seja, que desse escrutínio resulte uma maioria operacional na Assembleia da República, é fazer uma “exigência” à líder do partido, José Barros?
E, se for, qual é o problema?
Os militantes dos partidos não devem exigir vitórias aos líderes? Preferia que exigissem derrotas?
Ou você acha que os 31,7% obtidos nas europeias bastariam para governar um país onde a esquerda à esquerda do PS tem 20%?
O PSD tem de crescer eleitoralmente. Como o faz: ampliando ou restringindo a representação de correntes internas nas listas de deputados?
A invejinha é uma coisa terrível. Tão portuguesa…
Quando nem se pode chegar aos calcanhares do invejado, acontece disto.
E, se for, qual é o problema?
Os militantes dos partidos não devem exigir vitórias aos líderes? Preferia que exigissem derrotas? – Pedro Correia
Exigir vitórias no preciso momento em que as sondagens indicam a derrota do partido nas europeias significa tão só marcar espaço para uma recandidatura de alguém que perdeu as eleições internas. Exigir maioria absoluta nas legislativas, quando esse é um cenário afastado por todas as sondagens e comentadores políticos, é mais do mesmo e a confirmação de tudo o que se disse da posição assumida por PPC nas europeias. Com um aspecto adicional: já que o PSD, contra todas as expectativas venceu as europeias, agora exige-se-lhe o impossível para que tudo o que seja menos do que o impossível possa ser visto como uma derrota da actual liderança. Dando-se sempre o sinal de que se está disponível para o cenário de derrota que nenhum militante de momento admite contemplar.
Isto tudo para dizer que a PPC esta estratégia pode parecer um daqueles golpes de génio táctico que orgulhariam o Sócrates. Quem faz política com este tipo de truques fica orgulhoso destas coisas. Há, porém, um pequeno problema: no presente, os militantes não gostam deste tipo de atitudes de boicote, assim como, no futuro, poderão responsabilizar PPC por uma eventual derrota do PSD, especialmente se a derrota for curta. PPC sai sempre a perder com este tipo de discurso. O que o orgulha certamente como manifestação de um genial golpe táctico, pode ser mais um prego no seu caixão.
O seu raciocínio é uma autêntica Quadratura do Círculo.
Aponte-lhe os defeitos e deixe-se de merdas.