Nem Sassá Mutema quer salvar a pátria


Pedro Correia,

sassa.webp

António José Seguro fez um nó cego àqueles socialistas que andam há meses a implorar por um candidato com imaculado pedigree “de esquerda”, seja lá o que isso for. Enquanto o inefável comité de proprietários do PS se desdobrava em ingentes esforços para travar o passo ao antigo secretário-geral na corrida a Belém, este fazia calmamente o seu caminho. Fiel à sua imagem de marca: sem insultar ninguém, sem lançar desqualificativos a outros, indiferente ao chorrilho de provocações que o visavam nas redes digitais.

Os arautos da “verdadeira esquerda” – agora congregados na frente eleitoral autárquica em Lisboa – foram disparando nomes no carrossel mediático, em desespero crescente. Sem sucesso algum.

 

A 26 de Junho, António Vitorino deu-lhes nega alegando “não reunir condições”. A 2 de Julho, Augusto Santos Silva seguiu-lhe o exemplo. Mário Centeno tinha sido o primeiro a desistir por antecipação, logo a 16 de Janeiro.

Faltava Sampaio da Nóvoa – o nosso Sassá Mutema, “o salvador da pátria”, que havia motivado romarias idolátricas amplificadas pelos jornais do costume. Também ele disse não, já a 13 de Agosto. Evita assim correr o risco de se enganar redondamente – como quando afirmou, em Dezembro de 2015, que se sentia “praticamente seguro” de uma segunda volta na corrida a Belém. No mês seguinte, não chegou a 23% dos votos, com Marcelo a vencer em toda a linha.

 

Cada nome lançado na praça pública revelou-se um tiro de pólvora seca. Esta vaga de deserções não augura nada de bom para os apóstolos da “esquerda unida”.

Segue-se agora quem? Talvez o Tino de Rans. Mas é duvidoso que aceite.

Enquanto Seguro assiste, de cadeirinha.

44 comentários em “Nem Sassá Mutema quer salvar a pátria”

  1. Cada eleição presidencial a que assisto reforça a minha convicção monárquica mas esta abusa. Não vou sair de casa na primeira volta mas, muito contrariado, já me estou a ver a votar na segunda. No almirante contra Marques Mendes ou em António José Seguro contra o almirante.

  2. António José Seguro (AJS) é uma espécie de “patinho feio” do PS, sempre pronto a ser descartado, e até zombado, pelos pretensos “notáveis” do seu próprio Partido.

    De resto, em 2014, isso ficou muito claro quando o próprio António Costa não teve qualquer pudor em “trair” AJS, acabando por “saneá-lo” da liderança do PS. E, já agora, veja-se o “lindo trabalho” que António Costa acabou por fazer no país, a partir dessa deslealdade…

    O PS estará neste momento com um dilema difícil de resolver, dadas as “deserções” já conhecidas, aludidas pelo Pedro Correia: Ou apoia AJS ou rapidamente tem que encontrar um(a) candidato(a) capaz de agremiar os ditos notáveis do Partido.

    Depois de tanta zombaria em relação a AJS, quando se percebeu que o mesmo se perfilava como candidato à PR, proveniente de muitos companheiros do próprio Partido, apoiá-lo agora será mais ou menos o mesmo que “cuspir na sopa” ou ter que “engolir um sapo” de proporções bíblicas…

    Confesso que me irritam solenemente todas as manifestações de superioridade intelectual e de arrogância, em particular as que costumam acometer as pretensas “elites” do PS, pelo que aguardo com imensa expectativa para ver o que decidirá a actual Direcção Socialista…

    Que engraçado seria se a actual Direcção acabasse por ter que declarar o seu apoio a AJS…

    Se isso acontecer, sempre quero ouvir os discursos laudatórios a AJS, provindos daqueles que anteriormente zombaram de si… Vai ser giro de se ver… Só me falta um balde de pipocas…

    1. Por falar em “lindo trabalho”, pode continuar a sua análise com o atual executivo, nem precisa de sair de cena com “resultados” brilhantes … ainda por descobrir.
      Quanto a AJS, arrisca-se a ver uma luta de cães danados do outro lado da barricada, enquanto ele continua calmo e sereno relativamente ao “fogo amigo” e inimigo.

      1. É bem verdade o que diz sobre a continuidade dos “lindos trabalhos”. Só com uma diferença, que me parece de grande monta na atribuição dos prémios aos artistas: socialistas eram os outros, ou diziam que eram; estes são da social-democracia chegana, aliás herdeira do passismo além-tróiko, e nunca esconderam ao que vinham.

        1. Se estes tipos que se têm fartado de dar bonos a pensionistas apesar da situação periclitante da SS, que têm dado significativos aumentos/atualizações a várias classes profissionais apesar da despesa pública já ser gigantesca, que deram consideráveis benesses a jovens na aquisição de imóveis, etc, etc são tipos “além-toikos” então eu já não sei o que são políticos eleitoralistas e populistas já que inclui os “cheganos” nessa equação.
          Aliás é, no meu entender, exatamente porque a AD ficou colada à austeridade e à troika, chamada devido às asneiradas do PS, que agora tenta desfazer essa imagem ao dar este tipo de benesses que, ou muito me engano, ou serão pagas com língua de palmo – Aliás o aumento de despesa pública já você e eu pagamos diariamente com os impostos cuja receita não pára de subir (nem nunca irá parar enquanto a despesa continuar a subir porque o dinheiro não cai do céu – o português teima em não querer perceber que uma benesse a uns significa um imposto a outros). Mas o pior virá com estas “brincadeiras” que andam a fazer com a SS quando você e eu levarmos cortes monumentais nas pensões que serão tanto maiores quanto maiores forem agora as benesses atribuídas em troca de votos imediatos.
          Aí realmente são todos iguais, não temos o raio dum líder político com uma visão nem estratégia a prazo para o país, o que interessa é satisfazer o máximo de lobbies e clientelas possíveis para ganhar as próximas eleições, é lamentável e é e continuará a ser a nossa desgraça.

          1. O caro Lopes expõe com grande clareza algo que surdamente me vem a incomodar: onde é que estes dadivosos senhores irão buscar tanto dinheiro? Para mais baixando impostos repetidamente… De facto, estando a prensa da Casa da Moeda no museu, e sendo as burlas das amamentadoras relapsas tão poucas, uma das possibilidades mais suspeitas são realmente as “brincadeiras” com a SS, como refere, e que nos poderão a vir custar bem caro.

            Desde o Marquês de Pombal que estamos órfãos de uma liderança digna desse nome.
            Sá Carneiro foi talvez a nossa última oportunidade de endireitarmos a espinha, mas não teve quem continuasse o que ele tão bravamente começou.
            Pessoalmente, creio que apenas resta a esperança da federalização europeia para nos deixarmos governar em democracia, já que se vai cimentando a certeza de sermos incompetentes para o fazer. E eu prefiro essa relativa perda de soberania a continuarmos nesta vil mediocridade, ou pior!, a cairmos nas gadanhas de um Messias Venturoso qualquer.

            Porque, se formos a ver bem, já pouca soberania de facto temos, não é? Nem nenhum país tem, aliás.

            1. Eles não baixaram impostos. Tal como Costa, baixaram num lado mas subiram no outro pela calada de tal forma que a receita fiscal voltou a subir. É como lhe disse, por cada benesse atribuída a um grupo, outros terão de pagar mais pois o Estado tem nos impostos a sua grande fonte de receita e, se aumenta a despesa com as tais benesses, tem forçosamente de aumentar a receita para não entrar novamente em défice pois a dívida pública já é demasiado grande. Isto é básico e deveria ser entendido facilmente pelos portugueses, o dinheiro não cai do céu e o Estado para gastar mais tem de cobrar mais em impostos. Portanto, a baixa de impostos é um logro se não for acompanhada pela diminuição da despesa pública e isso não tem acontecido.

              Sobre os nossos líderes, se no passado eles não eram escolhidos por nós, agora são e, a verdade é que os resultados são tão maus ou piores ainda. Basta ver que o país praticamente teve sempre défices em democracia e só não foi sempre porque a dado ponto fomos obrigados pela Troika e depois BCE e UE a ganhar juízo com as contas públicas. Se no princípio a política de endividamento se justificou para se atenuar o atraso relativo do país (até porque a nossa dívida era baixa e permitia mais despesismo) nas últimas 2 décadas sobretudo foi um chorrilho de disparates de má gestão e governação que agora estão a ser pagos pela via de cargas fiscais record e que levam a que tenhamos também serviços públicos sofriveis pois o dinheiro não estica nem cai do céu e, uma coisa é eu ter um bolo de 100 em que tenho de dar uma fatia de 5 para abater dívida e outra muito diferente é ter de dar uma de 20. Como é bom de ver, alguém vai ter de comer fatias menores – honestamente acho que naquela disciplina de cidadania seria muito melhor darem bases a sério sobre literacia financeira, poupança e investimento do que andarem a pôr os miúdos a aprender os 50.000 novos géneros e aquela parvoice da novilingua neutra. Mas se calhar o objetivo é mesmo manter o foco em porcarias para a iliteracia financeira se manter bem ativa e as gentes não verem como são comidas de cebolada sistematicamente.

              Por fim, sobre a federalização sim, concordo em absoluto. Nós já provámos várias vezes que não temos a mínima noção de gestão nem de governação, por isso, talvez não fosse mau termos aqui uns nórdicos, germânicos ou tipos ao velho estilo inglês a pôr ordem na casa. Preferia viver melhor sendo um português que cedeu soberania aos europeus do que pior e praticamente destinado a ter de fugir do país (é exatamente isto que vemos hoje com os jovens) para ter a oportunidade de ter alguma coisa decente a não ser que venda a alma a certos interesses ou que seja um afilhado do sistema.

  3. Com tanta apologia até poderia pensar que irá no votar no homem. Céptico, diria que mais facilmente a Senhora de Fátima volta à capelinha para revelar um quarto milagre. Mas sim, a esquerda está em cacos.

      1. Não é com o seu voto virtual em Seguro que vou ter cefaleias. Mas não deixa de ser engraçado de ver o apoio entusiástico que o homem levanta em quem, juraria, jamais lhe passou pela cabeça votar nele.

        1. Mas qual apoio entusiástico? É mais fazer o que aconselhou em 86, e muito bem, o Cunhal: tapar a cara do candidato “menor dos males” no boletim de voto com uma mão, e votar com a outra…

          1. Bom, se se lembra de 1986 é caso para dizer que a zebra anda há muitos anos na pastagem. Já vai sendo tempo de levantar a tenda pois as finanças públicas não aguentam.

            1. Na pastagem, diz muito bem, era só o que faltava gostarmos todos de comer do mesmo.

              Não sei porquê, mas sabe que não é raro acabarem a falar-me em zebras, equídeos, quadrúpedes, cascos? Deve ser o apelo da selva quando falta o argumento civilizado.

              Mas, e já que trouxe as zebras da pastagem, sabe que tenho um primo que também se chama Albino? A sério. Nasceu só com riscas brancas, confundem-no muito, tem que estar sempre a dizer que não, não é um burrinho branco com a crina cortada à escovinha.

              Para lá de uma certa veia eclesiástica, com abundância de claras referências a padres, párocos, papas, paróquias, paroquianas, leituras, Senhora de Fátima, o Albino Manuel por vezes é bastante críptico.
              Eu nem pergunto o que seja isso de levantar a tenda e mais as finanças públicas, algo me diz que muito provavelmente a zebra voltava para fazer um brilharete explicativo.
              Se assim for, por favor não se incomode, está bem?

            2. É natural o discernimento ter falhas, a segunda infância tem dessas coisas. Mas há medicação.

            3. Já a si, claramente dão-lhe para a depressão. Pelo que não arriscarei piorar o seu caso dizendo-lhe que vai sendo tempo de levantar a tenda pois as finanças públicas não aguentam, eheheh.

              Nem sei se por cá anda há tempo suficiente para merecer a sua própria piada, ao que entendo em 86 ainda nem teria montado a tenda sequer, daí não se lembrar…?

              Mas enfim, eu além do Cunhal em 86 também me lembro do D. Afonso Henriques ali por volta de 1143, e garanto-lhe que nunca o conheci pessoalmente.

            4. Não precisa de garantir. Garantir tem implícita a dúvida e no caso só pode ser alucinação.

            5. Qual caso é que só pode ser alucinação, o não ter conhecido o D. Afonso Henriques pessoalmente…? Insisto em garantir-lhe que não, apesar de a si não restarem dúvidas, nem implícitas, do contrário. Perante tamanha certeza, retiro-me, antes que tente vender-me uma mesa de pé-de-galo.

            6. Parece-me bem que insista no não, incluindo com mesas de pé-de-galo; empenadas ou não, porque a precisar de cunhas já deve estar o cerebelo.

  4. Até Ventura já ultrapassa Seguro nas intençôes de voto… e sem anunciar candidatura (fonte: Correio da Manhã / Intercampus).

      1. Está a ver no que dão as intenções de voto… e se encontra quem finja substituí-lo, não vá dar-se o caso de ganhar. Tem um pé em cada sítio, ainda acaba a fazer a espargata e a fazer doi-dói no falo.

  5. Porque é que Ferro Rodrigues ou Carlos César não se “chegam à frente”? Um ou outro teriam o apoio da ala mais à esquerda do PS

    Pedro Cunha

  6. Imaginemos então…
    O Conselho de Ministros já não é reunião, é seita. António José Seguro está no centro, iluminado por uma lâmpada que parece um halo de supermercado. Ele fala e o eco não volta, porque até o eco desistiu do país.
    Seguro começa a discursar como se fosse profeta de uma Bíblia apócrifa:
    — Meus irmãos, trago-vos a Boa Nova: o défice foi crucificado, mas ao terceiro trimestre ressuscitará.
    Atrás dele, o Ministro das Finanças aparece vestido de Moisés, mas em vez de tábuas da lei tem duas faturas de restauração sem NIF. Divide as águas do Orçamento… mas só abre um charco em Alcochete.
    A Ministra da Justiça levita numa cadeira de escritório, rodando devagarinho, como se fosse a vingança espiritual da prescrição.
    O Ministro da Agricultura chora lágrimas de azeite virgem extra e grita:
    — Multiplicai as cabras!
    De repente o hemiciclo fica cheio delas. Algumas tomam notas. Outras cheiram microfones.
    Seguro abre os braços como quem vai realizar o milagre da multiplicação das soluções. Mas só consegue multiplicar powerpoints.
    Nesse instante, descem do teto drones que largam dossiês em latim.
    Ninguém entende. Mas todos abanam a cabeça, como fiéis batidos pela rave do além.
    O Ministro da Cultura entra em transe e recita um poema apocalíptico:
    — “Portugal será salvo por um reality show transmitido diretamente do Mosteiro da Batalha.”
    Aplausos em glossolália.
    No auge, Seguro põe-se de joelhos diante da mesa redonda e proclama:
    — O país é eterno! Somos um esquiador sem neve, mas sempre com forfait válido!
    As luzes apagam-se. Soa um cântico gregoriano misturado com Quim Barreiros em remix.
    E é nesse momento que António José Seguro ascende — não para os céus, mas para um nível intermédio, tipo mezzanine cósmico, onde santos falhados e primeiros-ministros esquecidos dançam slow motion, enquanto Portugal continua cá em baixo, a tropeçar em buracos da estrada como quem cai em metáforas sem fim.
    E é isto o que podemos esperar.

    1. Também quero do que o Carlos anda a beber e/ou a fumar… Isso é que é imaginação e criatividade… Gostei francamente, fez-me sorrir.

  7. Diz o povo que existe sempre uma primeira vez para tudo e, se Seguro for mesmo o candidato do PS, talvez eu vote neles pela primeira vez.

  8. O PS arrisca-se a seguir o percurso do seu émulo Partido Democrata nos EUA

    Mesmo o jornal da claque, o NYT que é muito responsável por onde se encontram faz soar o alarme:
    The Democratic Party is hemorrhaging voters long before they even go to the polls.
    Of the 30 states that track voter registration by political party, Democrats lost ground to Republicans in every single one between the 2020 and 2024 elections — and often by a lot.
    That four-year swing toward the Republicans adds up to 4.5 million voters, a deep political hole that could take years for Democrats to climb out from.
    The stampede away from the Democratic Party is occurring in battleground states, the bluest states and the reddest states, too, according to a new analysis of voter registration data by The New York Times. The analysis used voter registration data compiled by L2, a nonpartisan data firm.

  9. Sampaio da Nóvoa confirmou recentemente estar fora da corrida presidencial. O curioso é que mesmo quando foi candidato presidencial, não se pode dizer que Sampaio da Nóvoa tenha estado alguma vez na corrida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *