Ninguém fala com ninguém


Patrícia Reis,

 

 

A escritora Alice Vieira, que vejo entrevistada pela TVI, põe o dedo na ferida: “Os jovens, hoje, falam pouco e mal por culpa dos adultos. Chegam a casa e ninguém conversa com eles. Uns adultos estão a ver televisão, outros estão a olhar para o computador.” De facto, é assim. Com isto empobrece o vocabulário de todos os dias, reduzido cada vez mais à abreviatura em voga na escrita de telemóvel. Empobrece a capacidade argumentativa, desaparece a arte do diálogo, esmorece a circulação de ideias. As gerações mais jovens, por culpa exclusiva das gerações mais velhas, arriscam-se a tornar-se seres passivos, socialmente amorfos, enclausurados em quotidianos muito solitários e nada solidários. Pior que tudo o resto: com a falta de diálogo empobrece o imaginário de cada um, confinado a um ecrã que dispara imagens e sons em doses imoderadas.

Vale a pena reflectir nas palavras sábias de Alice Vieira. Que – não por acaso – é uma das autoras portuguesas mais amadas pelos leitores infantis e juvenis. Por saber conversar com os jovens, na admirável expressão da sua escrita que continua a não passar de moda.

8 comentários em “Ninguém fala com ninguém”

  1. Foi a mentora da turma da minha filha este ano lectivo Pedro (de acordo com as escolhas da criançada era ela ou .. Luís de Camões, imagina!) prova provada que o mal .. não é geral.

    Pessoa encantadora, escritora de “mão-cheia” e cheia também de razão sim. Mas há excepções .. felizmente!

    Votos de bom fim-de-semana

  2. Sem qualquer dúvida. Porém, a realidade tem sido ainda agravada pelas deficiências e falta de exigências razoáveis dos programas de ensino e pelo excesso de tempos de antena de políticos e dirigentes desportivos muito impreparados para falar em público.

    Esta realidade é ainda mais lamentável porquanto já estamos perante a segunda geração mal apoiada e, como é óbvio, temos já a primeira a ensinar (?) a segunda. Refiro-me, está claro, àqueles que não querem ou não sabem aprender por si.

  3. Isto é nem mais nem menos que o conceito económico do Race to the bottom…

    A geração que nos precede é sempre mais medíocre, mais rasca, menos informada e menos atenta do que a nossa…

    O que vale e que este fenómeno corre faz 2000 anos, desde a antiguidade grega até aos dias de hoje.

    Mas, também relevante, é que as populações mundiais têm evoluído de forma positiva com o passar dos séculos, ao invés dos fenómenos apocalípticos previstos por textos como estes.

    O que tipicamente e já agora curiosamente se ignora é que as falhas das gerações em formação são as falhas das gerações detentoras, no presente, da moral e bons costumes, ou seja da métrica das coisas…

    1. Nada há de apocalíptico no que escrevi. Há apenas uma homenagem a uma escritora e jornalista que muito aprecio, subscrevendo o que afirmou por me parecer muito acertado. Quando V. fala do progresso, com essa fé inquebrantável, esquece que Auschwitz, Hiroxima e o Gulag não aconteceram na Idade Média mas no século XX. Há poucas décadas. Não há ‘progresso’ em linha recta na humanidade. E menos progresso haveria se abdicássemos do juízo crítico.

      1. A minha “fé” centra-se na análise do percurso da espécie humana.
        Constato que a nível material, a humanidade está definitivamente melhor do que à 50 anos atrás e acredito que daqui a 50 anos estará ainda melhor!

        A nível moral, é certo que tivemos esses horrores na nossa história bem recente e que o progresso não se faz num continuo, sem quebras ou retrocessos.
        Mas na antiguidade clássica também existiram barbáries indescritíveis , executadas numa escala obviamente mais reduzida, devido a um conhecimento técnico menor. Mas a face má do homem estava presente nessa altura como está agora…

        O que quero demonstrar, é que já na altura se falava em quebra na moral das juventudes, como se falou em Portugal na geração “rasca”.

        Se os postulados da amoralidade das novas gerações estivessem correctos, a espiral descendente em 2000 anos de história, teria sido de tal ordem que o processo de evolução seria invertido. Consequentemente voltaríamos para as árvores e perderíamos qualquer vestígio de humanidade passando a funcionar apenas por instinto. Tal não aconteceu.
        Daí a minha “crença” que as novas gerações poderão fazer melhor e elevar-se ainda mais do que aquilo que os seus predecessores conseguiram!

        O juízo crítico é sempre bem vindo, seja de que geração for, e é no exercício do mesmo que escrevo este comentário.

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