Nós, pigmeus


Ana Vidal,

 

Todos os dias passo por ele. Todos os dias o apanho de frente, segurando um euro entre dois dedos, ao estilo do Luís de Matos, como se fosse  fazer um truque de magia. "Respeitável público, nada na manga!". E não há nada mesmo, nós sabemos. Nós, europeus. Ou melhor: nós, pigmeus, reduzida como está a fortuna nacional a pouco mais do que aquela preciosa moedinha que serviu de modelo à fotografia. Olha para mim com aquele ar satisfeito de quem já quase aprendeu a "fazer as contas", mas, no sorrisinho malandro e bonacheirão, leio-lhe o alívio de quem há muito se safou de perguntas embaraçosas sobre dinheiros e as trocou por refugiados do mundo inteiro, menos ingratos e, seguramente, menos exigentes. Num segundo olhar – todos os dias o olho mais do que uma vez, quer queira quer não – adivinho-lhe a surpresa de ter sido convidado a posar para esta campanha, como se tivesse consciência do erro de casting que representa a associação da sua imagem a questões financeiras. Afinal, ele sabe melhor do que ninguém que fugiu do pântano para terrenos mais seguros, desistente e derrotado. Perco-o finalmente de vista, mas não antes de reparar na expressão entre divertida e benevolente de Manuela Ferreira Leite que, abancada do outro lado da rotunda com a sua linha telefónica, parece dizer-lhe: "Mi liga, vai… de contas percebo eu, aproveita a borla."

 

15 comentários em “Nós, pigmeus”

  1. Mas o discurso da MFL não acabou logo. Continuou e disse:
    -Vem cá que eu te ensino como se escondem deficits europeus usando negócios ruinosos com o Citibank que os governos depois de mim estão a pagar com língua de palmo.
    Posto isto, MFL mais não disse, e desapareceu-lhe o sorrido do outdoor .
    Do outro lado da rua o Eng.º Guterres sorriu ainda mais…

      1. Tem toda a razão, Ana.
        Mas não foi nessa singularidade que o assunto foi posto pelo primeiro interveniente .
        A minha resposta teve, apenas, o intuito de tentar desmontar, dentro do possível, a teoria apresentada.
        O António Guterres, que pode ter muitos defeitos, mormente de afirmação enquanto poder, é contudo um politico, hoje em dia, de afirmação internacional .
        Deve lembrar-se que ele recusou deixar de ser primeiro ministro para ir para a presidência da Comissão. Foi importante na defesa dos pequenos países nas negociações do tratado europeu discutido à época.
        Com todos os seus conhecidos defeitos não é, contudo, um político paroquial como a outra pessoa que aqui se tentava majorar.
        Portanto foi, tão pouco, quanto isto.
        Saudações.

  2. Cada cartaz pior que o outro. Se o de MFL é de fugir, só mesmo este PS sem norte é que se lembraria de exibir Guterres numa campanha que precisa mesmo de ganhar. Por um lado atrevem-se já a pedir maioria absoluta nas legislativas, pela voz do cabeça de lista às europeias (o mesmo que dizia que uma eleição não devia confundir-se com outra), por outro lado mostram Guterres – o rosto de duas vitórias sem maioria absoluta. Já não há ‘marqueteiros’ competentes neste país?

    1. Parece que não…
      Nem me tinha lembrado dessa questão da maioria absoluta. Mas a associação Guterres/dinheiro lembra-me logo a fatídica frase: “É… é fazer as contas”. Parece-me uma má ideia para um cartaz eleitoral.

  3. Já eu, que faço leituras mais lineares, entendo este cartaz como um capítulo da história que tenta contar a ligação de Portugal à UE indelevelmente relacionada com o PS, partido do princípio que isso é positivo para o país. Se com Mário Soares foi assinada a adesão, no tempo de Guterres aconteceu a adesão à moeda única. Tudo bem! Leio pela rama e faço uma leitura benevolente! Leitura estética não faço! Raramente gosto de cartazes sejam eles quais forem! Não gosto de propaganda e isso obnubila-me! rsrr
    : )))

    1. Claro que é essa a ideia, MdSol, mas a mim sugere-me logo outras leituras menos lisongeiras para Guterres. Tenho-o na conta de homem afável, honesto e bem formado, mas muito mais adequado ao trabalho que faz agora do que à política, para a qual lhe falta combatividade e genica. Ele próprio o admitiu, desistindo e abandonando um mandato em tempos difíceis. Escolher uma figura destas para um cartaz de campanha eleitoral que se pretende (e se precisa) ganhar, é uma coisa que me ultrapassa.

  4. Tenho as maiores reservas em relação ao Guterres, Ana (até do ponto de vista pessoal). Parece-me um fraco e um sonso. Pelas circunstâncias da sua saída, devia evitar deixar-se associar a campanhas políticas. Mas, como se adivinha, não terá sabido dizer «não». E os portugueses têm, infelizmente, uma memória curta e uma visão crescentemente distorcida da essência das coisas. Infelizmente, em Portugal, a manipulação funciona (sempre funcionou).

    1. Talvez tenha razão, Luísa, e ele seja pior do que o imagino. Mas também acho que não devia ter aceite, embora ache mais ainda que não o deviam ter convidado!
      Quanto à memória curta dos portugueses, concordo inteiramente consigo. E é, muitas vezes, o nosso mal.

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