Se já tinha esta rotina desde há tempos, agora ainda me empenho mais em mantê-la. Jornais na TV, só os vejo com 30 a 40 minutos de atraso. Margem segura para escapar aos intervalos de pub e que me permite ver quais foram as notícias do dia em dez, vá lá 15 minutos, caso alguma me tenha feito parar o botão do fast forward.
Este exercício revela com evidência até que ponto – não sei se por preguiça, se por falta de recursos humanos – nos servem despudoradamente quatro ou cinco temas ao jantar, sempre os mesmos, como se mais nada houvesse para noticiar. A abrir, os fogos e fenómenos climáticos extremos noutras paragens. Depois, as urgências hospitalares que fecharam. A seguir, Gaza e Ucrânia. E para rematar, futebol, que a época já começou, o que é um alívio – com os programas de comentário político em férias, há que preencher o vácuo com bola.
Sobretudo na abertura dos jornais faço questão de não abrandar. Mesmo aceleradas, aquelas reportagens com bombeiros e gente do campo em aflição despertam-me uma sensação de impotência indizível. Podiam pescar aleatoriamente reportagens de verões anteriores que não se notaria a diferença. Tudo igual. Como se de um rito macabro se tratasse.

> uma sensação de impotência indizível
A comunicação social destina-se a acabrunhar a audiência. Se aumentar o diferido para umas décadas, em vez de minutos, vai sentir-se melhor e descobrir que não perde nada.
A comunicação social, hoje mais que nunca tem a responsabilidade de nos informar bem, fazendo o contraponto com as redes sociais, onde reina o caos. Mas assim como está, a afunilar cada vez mais as temáticas, não serve o interesse comum. Muito preocupante isto…
Convirá ressalvar aqui Teresa, que para além dos condicionalismos das directivas editoriais dos jornais televisivos não nos podemos esquecer que o nível cultural dos novos jornalistas (haverá excepções mas são poucas) reflecte o nível de cultura geral da população nacional que anda pelas ruas da amargura. O que leva a que por vezes sejamos brindados com a notícia da morte de um actor ou escritor cujos filmes ou séries nem sequer passaram em Portugal ou cujos livros não tenham sido publicados na Europa. O jornalista consome as notícias que chegam de uma agência noticiosa que também não fez qualquer triagem e lança-as sem saber se dizem alguma coisa ao público nacional – espanta-me como ainda não começamos a receber notícias de baseball ou crickett nas secções de desporto…
Mocambique, Angola e Brasil sairam do espaco noticioso português. Agora é so ucrania, gaza….é caso para dizer que agora que a nossa media é pacovia europeia
Ninguém põe em causa de que a Ucrânia e Gaza são dois temas incontornáveis, mais há muito mais mundo e não o vemos na tv
Bem te percebo, Teresa. Faço o mesmo, penso o mesmo, sinto o mesmo.
Quem não vê não peca.
Não é uma questão de não querer ver, WW, pelo menos pela parte que me toca: pelo contrário, é uma questão de querer ver mais do que o que já foi visto e repetido n de vezes.
A Zebra já lhe respondeu.
Abençoados aqueles que vivem na bolha !
Obrigada, obrigada. Gostamos tanto que fazemos o possível para a tornar cada vez maior…
É, já por aqui tive a oportunidade de declarar a tecla de avanço e as gravações diferidas como “invenções do século”. Não só por causa dos telejornais, mas muito por causa dos telejornais.
Cara Teresa Ribeiro…
Exceptuando uma ou outra reportagem e uma ou outra entrevista,
os noticiários da R. T. P., desde o primeiro até ao último são todos iguais.
As notícias são as mesmas, os textos são os mesmos, as imagens são
as mesmas. Entediante. Depois há os mais de cem comentadores.
Uns comentam ocasionalmente, outros de vez em quando, alguns uma
vez por semana e uma ínfima parte duas ou três vezes por semana.
E são todos “especialistas”. A coisa funciona assim: “Somos todos muito
bons e nós é que sabemos.”. Os “especialistas” tanto podem ser militares
na reserva ou na reforma, como políticos mais ou menos reformados,
normalmente ex-ministros, professores catedráticos, jornalistas e mais
uma ou outra profissão. Por sexo (“género”, como alguns dizem e escrevem),
há mais comentadores do que comentadoras. A proporção é de 60% de homens
para 40% de mulheres. Mais ou menos. Quando vão em grupo, há debate (às
vezes) e tem mais interesse. Quando é só uma pessoa a responder a perguntas,
o (meu) interesse diminui. Alguns e algumas são pessoas conhecidas, pelo menos
das pessoas mais atentas, outros e outras nem por isso. E há de tudo. Pessoas
a promoverem-se, outras a promoverem os seus livros. Umas a mostrarem os
seus conhecimentos, outras “a meterem os pés pelas mãos”. “E isso interessa?”,
perguntarão. Interessa. A R. T. P. é pública. Somos nós que a financiamos. Como?
Através da “Contribuição Audiovisual (CAV)”, no valor total de 3,02 € (2,85 € + 0,17 €
de I. V. A. a 6%) (Nota – Cobrança feita através da factura da electricidade. Consumos inferiores a 400 kWh por ano, dão isenção do pagamento da CAV.). Com dinheiro dado
pelo Estado (Nota – Dinheiro de todos nós.), por causa do “Serviço Público” e para pagar todas as despesas. As receitas da publicidade, só por si são insuficientes para cobrir
as despesas. Desconheço outros financiamentos.
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Na realidade não é exactamente o mesmo que se passa com todos os outros canais – exceptuando a CMTV que satisfaz o segmento pão, circo, sexo e sangue.
As saudades que tenho do parlamento em Taiwan à batatada, dos arremessos de sapatos no mundo árabe. Quando eu era puto os noticiários tinham real variedade. Lembro-me de guerras e conflitos e geopolítica tratada – é certo – de forma fugaz mas, pelo menos sabíamos que o resto do mundo existia. Agora estamos a seguir este modelo economicista de noticiários que se importou dos “estates” e percebemos porque diabos é que há uns anos mais de 33% doa americanos não sabiam que havia outros países no mundo…
É isso mesmo, Hugo. Os nossos canais de informação estão cada vez mais a parecer-se com o modelo americano. Num mundo em que já quase não se lêem jornais, este empobrecimento da informação televisiva torna-se ainda mais preocupante.
A lógica da CAV não difere em quase nada da lógica da publicidade. Se deixarmos de ver noticiários as shares vão-se e seria o mesmo que nos recusarmos a pagar a CAV.
Eu não tenho TV há 14 anos. Quando estou em casa de alguém que tem e se quer ver um not´iciário coloco na EuroNews que é também feita com o nosso dinheiro.
O padrão é o mesmo ou pior noutros canais. A SIC faz cada vez mais despudoradamente publireportagens dentro dos noticiários e para este Verão criou o “Pé na Areia”, uma série de “reportagens” feitas na praia, que ocupam cerca de 15 minutos de antena, onde o repórter averigua junto dos banhistas se a água está boa, entre outras coisas igualmente interessantes.
A RTP tem responsabilidades acrescidas por depender do erário público, claro.
A resposta imediatamente acima, que saiu do sítio, é para o João Barros da Costa
Se a situação já não era brilhante há uns tempos atrás, agora que entrou Agosto e o calor desmesurado é que estamos fritos. Aprendi a dominar o comando da Tv, fantástica invenção com “fast forward”, e também só paro naquilo que poderão ser notícias a sério. A tónica agora são as praias e se os turistas estão a gozar ou não as bolas de berlim, com digressões diversas restaurantes adentro para nos fazer inveja com mariscadas só acessíveis a alguns. Os noticiários tornaram-se uns desertos ainda mais áridos, falhos até de imaginação na busca de acontecimentos que valha a pena noticiar.
E nessas peças sobre restaurantes e hotéis atravessa-se com toda a ligeireza a linha que separa a publicidade da notícia, o que é muito grave, sobretudo nos tempos que correm, em que as pessoas já começam a ter dificuldade em distinguir uma coisa da outra.
Como a Teresa reconhece, tal ligeireza é suspeita. Será falta de assunto ou manobras de promoção encapotadas?
Custos de exploração são pesados, refeições à borla e alojamentos à disposição aliviam o orçamento na produção de umas quantas meias horas a elogiar Menus e a promover “Chefs”, estrelados ou não.
Não são encapotadas, Carlos Arnaut, são descaradas. Para aliviar os custos de exploração não se podem descredibilizar como produtores de informação, contribuindo activamente para a promiscuidade que existe entre publicidade, propaganda e jornalismo.
Um destes dias temos aí a “RTP Opticália”, ou a SICompal”.
E o que aconteceu àquela publicidade obrigatória de 30 segundos, quando se acede às gravações? Desapareceu completamente, como o sarampo, ou está só a aprimorar-se, como o sarampo?
Não que tenha saudades, note-se: aquilo irritava-me sobremaneira, sentia-me abusada e impotente. Que diabo, o serviço é pago!
Outra maravilha da tecla de avanço, escapar à publicidade, eheheh.
Pois, fintar a PUB é um descanso
Só para relembrar: “MORRERAM TODOS!!!!”
Relativamente às reportagens poderem ser as de anos anteriores… era melhor não dar essas ideias que a lógica de tudo hoje é a redução de custos…
Sim, redução de custos é o mantra dos gestores que mandam nisto tudo. Mesmo que à custa da qualidade e seriedade do que se apresenta. Falamos de consumo de notícias, mas a regra aplica-se a tudo. Desde a indústria cultural à alimentar. Reduzir custos, aumentar margens, o resto “não interessa nada”, como dizia a outra.