O afinador de pianos


Laura Ramos,

Esteve em Coimbra na terça feira.

Dispensei-me do silício programático anterior ao jantar.

E eu sou de causas, mesmo – e sobretudo ? – das mais incómodas.

Mas, para além de não ser uma seguidora de tipo Opus Dei Cavacii, jamais abandonaria o meu posto de ‘enteada da nação’ para correr atrás dele.

Afinal, raríssimos homens merecem tal consciente subserviência tonta, quanto mais um candidato a PR.

 

Um jantar penoso (e não são todos?…) com cerca de 1300 pessoas, num sítio mítico para quem foi activista, nos idos de 80, como eu.
Não se furava.

 

João Paulo Barbosa de Melo (Presidente da Câmara): um óptimo discurso. Curto, incisivo, acolhedor e em torno do Essencial. Coisas de economista culto.

Manuel Antunes: um discurso mais longo, mas verdadeiramente carismático. Não cesso de me espantar com a generosidade de quem não vive da política e contudo, parece que nasceu para ela, tamanho é o sentido do interesse público e a capacidade de visão estrutural, realmente desinteressada, porque apoiada no exemplo profissional de quem acabou com listas de espera na cirurgia cardiotorácica e ‘abre corações’ em exclusividade, num hospital modelar do Estado (em vias de destruição acelerada pela longa manus do Governo José Sócrates).

 

Cavaco Silva: um discurso enorme, como competia. Com passagens sobre a ‘mulher portuguesa’ cujo intuito alegórico de pendor popular se percebia bem, mas que me fizeram perder a paciência e alhear-me estrategicamente da hora e do momento. Preferi contemplar aquele palco, aquelas galerias, e inspirar-me nas minhas memórias de tempos subversivos, quando não éramos educadas para ser poupadas e ajudar os maridos, mas sim para pensar, agir e simplesmente, Ser.

Foram tempo singulares: lutávamos todos pelo direito simples, que nos era negado, de pensar à direita do PS e à esquerda dos conservadores. E fomos de repente tantos, tantos, que demos a volta ao status num instante.
Foi só querer e estar farto.

 

Sem dúvida, o menos motivante dos oradores.

Mas eu não preciso de o ouvir para saber que voto nele no dia 23.

Não… Não vou lá pelo discurso, nem pelo BPN, nem pelo bolo-rei, nem pela Maria, nem pela casa de praia (que horror, que escândalo).

Vou lá pelas mesmas razões a que as minhas memórias me levaram.

Primeiro, porque estou farta (um pouco dele também, é verdade… mas sobretudo farta da gente e das miragens que não interessam, e de que temos de nos livrar, por  imperativo geracional).

E depois porque esse caminho – à direita do PS e à esquerda dos conservadores – está ainda muito longe de ser cumprido no Portugal de hoje.

 

18 comentários em “O afinador de pianos”

  1. Ora bolas, estava á espera de tudo, menos deste desfecho. Então você desenrola o seu passado promissor, lembra um presente mais do que cinzento e por ultimo elege esse presente em futuro?! Valha-nos Deus!

  2. Carissima Laura Ramos,

    é a primeira vez que paro neste blog, aproveito e registo a passagem.
    Pelo que escreve vejo que baixou os braços. Alguém que diz “Mas eu não preciso de o ouvir para saber que voto nele no dia 23” não combina nada com “Foram tempo singulares: lutávamos todos pelo direito simples”…
    Seja como for, que faça bom proveito do seu voto assim como do seu presidente em letra pequena ….

    1. Caríssimo, também:
      Obg pelo seu comentário. Ainda bem que parou no Delito de Opinião, mas não no post certo. Tem de insistir, garanto-lhe que vale a pena.
      Não baixei os braços, não… pelo contrário. E estou igualzinha ao que sempre fui 🙂 Estou farta de PR’s de esquerda socialistóide. Irritam-me os candidatos quixotescos, rodeados dos seus Sanchos Pança, de mente adolescente. E quero alguém que, ao menos, não nos leve as pratas e saiba o que faz.

  3. O voto é livre, cada um, soberanamente, escolhe, nada contra, mas ao ler o seu “estou farta de PR’s de esquerda socialistóide. Irritam-me os candidatos quixotescos, rodeados dos seus Sanchos Pança, de mente adolescente. E quero alguém que, ao menos, não nos leve as pratas e saiba o que faz.”, lembrei-me do editorial do jornal italiano “Libero” do último domingo (à boleia de uma crónica de Ferreira Fernandes no “DN”): “Se para combater a esquerda há que pagar o preço de um chefe do governo que toca no rabo de senhoras, não se hesite. Mais vale um velho porco que tantos jovens hipócritas.”
    Quanto a pianos, o Tom Waits costuma dizer que o piano é que anda sempre bêbado… ele é que não!

      1. eu que só soube tocar bem campaínhas de porta,prefiro violino. O piano,como dizia Tete Montoliú,é um instrumento racista,tem mais teclas brancas que pretas…

        eu também já dei para o peditório “xuxa” há muito…

    1. Conclusão sua, que não está contida nas premissas…
      Pronto, vou mesmo ter de fazer um glossário!

      Dispensei-me do silício programático anterior ao jantar
      Não sou masoquista, vê?

      E eu sou de causas, mesmo – e sobretudo ? – das mais incómodas.
      Votar – e dizer que se vota -Cavaco Silva é obviamente uma causa incómoda, sobretudo na blogosfera. Assumo-a sem qualquer problema.

      Mas, para além de não ser uma seguidora de tipo Opus Cavacii
      Opus Dei, silícios, etc. Topa? Não uso!! (silícios, cintos e aparelhagens do género).

      Etc, etc.

      1. Minha cara Laura,

        Se o fizesse, a Laura seria a primeira masoquista a “confessar-se”, por isso, nada de novo no seu comentário.
        Está, se quiser, na fase – tão em voga – de negação.

        1. Meu caro Anónimo, pela sua insistência tudo indica que a psicose ameaça ser sua. Tenha calma: aguente-se e veja se consegue perceber que a coerência não é uma operação linear. Suspeite sempre disso…

  4. Tenho estado a ler-vos, divertida. É a tua primeira liça no Delito, mas aposto que não será a última. Bravo!
    Tiro o chapéu ao teu brilhante argumento: “O meu futuro está no piano e não no afinador”. Será que não percebem que isto é lucidez e não masoquismo?

    Já eu, não tenho emenda, gosto de líricos. E é exactamente porque Manuel Alegre me decepcionou nesse capítulo, trocando uma certa utopia (que me atraíu nas presidenciais anteriores) por uma confrangedora atitude de cão de fila de dois partidos que o estrangulam e nem sequer se entendem entre si, que eu não voto nele. Fernando Nobre também me decepcionou, talvez ainda mais. Resta Cavaco e o seu pragmatismo cauteloso e sem rasgos. Não sei ainda se leva o meu voto, mas é provável. Se acontecer é porque também eu acredito sobretudo no piano, e por isso escolho o afinador menos azelha.

    1. Ó Ana, também eu nunca perdi a minha costela de lírica, mas a força da dura realidade é tamanha que o pragmatismo impõe-se. O pragmatismo é feio. Se é… Mas é a arte de lidar com o possível.

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