Quando o encontrei, de boné e meio grão na asa, o Almada já não estava bom para entrevistas. Entre abraços e copos no ‘Vera Cruz’, tinha esquecido o valor do prémio do Euromilhões, só sabia que era muito dinheiro. 900 mil euros podem mudar uma vida, mas o que guardo do Almada é que estava feliz por continuar a ser o que era, o que sempre fora. O pintor de sinais de trânsito da Câmara, o irmão de muitos irmãos, o tio de muitos sobrinhos.
Um obscuro funcionário municipal com sorte no Euromilhões é uma história e nós gostamos muito de histórias. E ali estava eu, de bloco de notas, a pedir projectos, extravagâncias, sonhos, viagens de ida e volta à Lua. Nada, o Almada respondia-me distraído, abraçava os amigos de sempre. Sim, sim… Havia de ir buscar o prémio a Lisboa. Sim, sim… ia ajudar a família. Agora, estava ali, conversava, ajeitava as calças e o boné, ria-se.
Desisti dos apontamentos, há momentos que não se fixam em frases. O Almada é um achado. Não tinha projectos, nem amarras, não ouvi falar em casa ou carros, tanto lhe dava o dinheiro chegar já ou depois. Ele havia de continuar com o seu boné e a colecção de miniaturas de navios, as passeatas pelo Apolo e o ‘Vera Cruz’. Mais 900 mil, menos 900 mil, não faziam diferença.

E esta é uma história que gostei de ler, Marta.
Deliciosa, a sua escrita…
Uma história portuguesa, com certeza.