«O romancista Sándor Márzai recorda um jantar de família em que um dos membros se tornara nazi e tentou explicar por que razão ele e milhares de húngaros se tinham convertido à ideologia fascista:
«Quando lho perguntei, deu uma resposta surpreendente. “Sou Nacional-Socialista”, gritou. “Tu […] não entendes porque és talentoso. Mas eu não sou, e é por isso que preciso do Nacional-Socialismo”. […] “Não há maneira de compreenderes […]. Agora é a nossa vez.”»
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Budapeste, Do Este ao Oeste
Victor Sebestyen
Edições 70

Eu também não sou talentoso, mas não é por isso que escolheria o Nacional-Socialismo.
Mas, confesso, percebo o ponto. O vulgar cidadão confia que os talentosos (na gestão política, entenda-se), e quando pretendam servir o país, o façam com capacidade e entrega, resolvendo os problemas e acamando novas e mais promissoras perspectivas.
Mas como se vê – e até esta questão dos incêndios, com os anos e anos de promessas vãs, e com o total desgoverno que se observa, ajuda a perceber isso -, a classe política está perfeitamente alheada (alienada) do país, e a degradar-se a um ponto de não retorno.
Isto “queima-nos” as esperanças! E o que resta…?
Existe um cansaço do centrão que se tem mostrado incapaz em satisfazer as aspirações e expectativas, especialmente, dos mais novos. Mas existe também uma parcela da população que prefere não ter de decidir nem de pensar pela própria cabeça e que, por isso, se sente atraída por direções autoritárias com respostas totais, sejam de âmbito ideológico ou religioso. Esses “não talentosos” são o público-alvo desse tipo de regimes.
O seu raciocínio contém, creio, um pequenino-grande problema: Se “existe um cansaço do centrão que se tem mostrado incapaz em satisfazer as aspirações e expectativas”, todavia é precisamente esse grande centrão que está em mudança, não são só os mais jovens; esse centrão, dada a experiência de vida, está em mudança porque já viram que a democracia não está a corresponder aos seus anseios. Os jovens não estão em mudança! Os jovens ouviram os pais falar de “amanhãs” e de confiança e de mudança e de esperança e agora ouvem-nos falar de desesperança e de que “isto assim não vai lá!” – e como constatam essa realidade e se veem na eminência de terem que sair, de emigrar, decidem, de facto, “pela própria cabeça” mas por não estarem especialmente “atraídos por direções autoritárias com respostas totais”, fazem a sua escolha, que é pela via que não conhecem, porque a que conhecem (por eles e pelos pais) não lhes conserta e afaga o futuro.
Não castiguem os jovens!
Os culpados somos nós! (Mas sobretudo daqueles que elegemos como sendo os tais mais talentosos.)
É impossível que todos os votantes num determinado partido partilhem uma mesma visão do mundo.Um partido de protesto pode ser votado por quem quer mostrar o seu descontentamento e, por até então ter sempre votado no centrão, desejasse que esse o centrão abrisse os olhos, mas também pode ser o escolhido por ser o que de mais radical existe no menu.Um país democrático deveria entender os primeiros. Os movimentos totalitários vivem dos segundos.
“Existe um cansaço do centrão que se tem mostrado incapaz em satisfazer as aspirações e expectativas, especialmente, dos mais novos. “
Está-se a esquecer do centrão globalista que basicamente odeia o povo do próprio país que se sobrepõe ao centrão extremista que quer mudar a economia como nem o Politburo Soviético sonhava, ao centrão rentista regulatório que pune quem faz cria inventa se não for pelo centrismo…
Os rentistas são os bloqueadores da mudança.
Um pouco como ser socialista. Lol
A ideia do socialismo é apelativa. Não apreciar o socialismo não é sinal de talento, mas apenas de memória histórica e de conhecimento da natureza humana.
Lapidar.
Nem mais. O ressentimento é um péssimo conselheiro político.
As pessoas ressentidas fazem parte da sociedade. Não se lhe pode retirar direitos. Ainda iriam ficar mais ressentidas …
Óbvio. Nem eu sugeri isso.
E não é por isso mesmo que, chegados ao poder, os autoritários tratam logo de escamotear os ressentimentos? E depois escamoteiam os ressentidos residuais mais resistentes, que são por defeito os mais talentosos.
Chegados ao poder numa democracia propriamente dita, irão fatalmente desiludir, pois governar é tremendamente mais difícil do que ser oposição. E se lhes derem espaço, irão arranjar forma de se manter no poder. Se as instituições forem frágeis irão ser bem sucedidos.
Sigo com bastante interesse (não por simpatia, mas por curiosidade) o percurso da Meloni.
O Ventura demorou, mas já está a bolsar veneno, que ela “trai os valores” da camarilha ou coisa assim – deve ser por ela nunca ter gramado o Putin; mas vou mais que seja por ter feito aprovar (sem oposição!) a Lei do Feminicídio.
O certo é que as hienas rosnam mas ela lá vai somando e seguindo, mantendo grandes índices de apoio popular e um governo que já está a ser dos mais longevos da Itália pós-guerra. E ainda não terá escamoteado ressentidos, ao que se sabe.