O Apocalipse*


José Meireles Graça,

Há uns anos, lembro-me bem, o Saara ia avançar por aí acima, primeiro pelo Algarve e logo a seguir para o Alentejo. Sinais não faltavam: os turistas ingleses, quando iam tomar o seu banho semanal, confrontavam-se com torneiras sem água, a televisão mostrava imagens de um solo ressequido, cheio de gretas, no meio do mar amarelo alentejano, e senhores especialistas em aquecimento global avisavam com voz cava que ou mudávamos os nossos comportamentos seguindo-lhes os conselhos ou o planeta tornar-se-ia um lugar inabitável, desde logo porque a água seria o maior problema do séc. XXI.

Foi nessa altura que pensei em adquirir um monte alentejano, cujos preços evidenciavam uma tendência de queda, que todavia não durou muito dado o surpreendente cepticismo dos proprietários absentistas.

Os europeus seguiram os conselhos e agora andam de automóveis eléctricos, que por falta de autonomia desaconselham viagens grandes salvo se fizerem paragens para conviverem com outros crentes nas áreas de serviço por espaço, de cada vez, de meia ou três quartos de hora, fecharam centrais nucleares para pagarem a energia, importada, muito mais cara mas com a consciência tranquila, e passaram a preocupar-se com o que comem, o que vestem e o que produzem.

Um grande progresso mas que, infelizmente, não produziu resultados na medida do desejável porque entretanto o aquecimento evoluiu para alterações climáticas, o que quer dizer que nuns sítios faz calor demais quando devia ser assim-assim, e noutros ou nos mesmos chove excessivamente quando a água devia vir em quantidades moderadas. Continua a haver lugares frios, que todavia não o estão tanto como dantes, ou estão ainda mais gelados, mas por pouco tempo por causa de disrupções derivadas do aquecimento. Noutros ainda está uma seca que só visto, e tudo isto sem falar em fogos, tornados, furacões, ventanias supersónicas, extinção de espécies ou proliferação de animais ou plantas indesejáveis.

Tudo mão do homem e consequências da sociedade de consumo, uma externalidade negativa do capitalismo, que se suspeita não ter externalidades positivas.

Somos pecadores, em suma, como já éramos no tempo em que cobiçávamos a mulher do próximo com vistas a fornicação ou não guardávamos os outros mandamentos e o respeito devido à Santa Madre Igreja, como nos lembravam os pregadores de escapulário e dedo em riste.

Os pregadores agora tendem a apresentar-se de fato, vão à televisão e deslocam-se de jato a concílios em vários lugares do mundo – recentemente um teve lugar em Belém, como já tinha tido em Quioto, Sharm el-Sheik e outros lugares. Nunca pertencem, porém, a ordens mendicantes, visto que são pagos por universidades, ONGs e devotos como o beato Bill Gates. O papa, S. Guterres, está em Nova-Iorque (a americanada mete-se em tudo) e dirige-se frequentemente aos crentes, uma vez com água pelo joelho, conforme noticiou a Time, em sinal de penitência.

(Esta água pelo joelho era uma alegoria à subida das águas dos oceanos, o que me levou a pensar em utilizar a poupança com o monte alentejano que não adquiri, aí para cima referido, para comprar uma casa à beira-mar, mesmo que com o rés-do-chão inundado, intenção que tem sido defraudada por os preços se manterem teimosamente altos).

Alterações climáticas é no que estamos. E no momento em que escrevo estas regras a depressão Cláudia ruge por cima de mim, despejando cataratas. Já dura há três dias, a tal ponto que, tendo estabelecido relações de certo modo íntimas com ela, já a trato por Clo.

Água abençoada, que da seca estamos livres até mais ver. Herético como sou, preferiria que os clérigos que aparecem disfarçados de especialistas climáticos apresentassem exegeses em vez de sermões: que medições há, quando nasceram, que fidelidade têm, que padrões se podem ou não inferir, por que razão o historial de previsões climáticas é uma embaraçosa lista de erros histéricos, o que se sabe da história da terra (a terra planeta e o nosso terrunho) e dos seus ciclos e que confiança merecem os cientistas, igualmente albardados de credenciais académicas, que apesar do blackout da comunicação social divergem do “consenso” científico.

Nem tudo é mau, como sempre: Ganhei uma amiga, a Clo, conservo a esperança da tal casa à beira-mar e de ver numerosos comentadores gritando furiosamente contra este incréu.

* Publicado no Observador

24 comentários em “O Apocalipse*”

  1. Como o José Meireles Graça bem sabe, a classe científica deve ser a menos corporativa de todas. Bem sei que políticos, juízes, médicos e jornalistas tendem a projectar as suas crenças, mas neste caso enganam-se, por cada tipo que publica uma teoria, saltam logo 10000 cuja causa suprema é desacreditá-lo. As alterações climáticas são factuais, as simulações de futuro nem por isso. Claro que o planeta sofreu e sofrerá de mudanás de clima por razões extra-humanas, não somos nós que “mandamos” nisto, embora gostemos de pensar que, mas ignorar o nosso impacto do dito cujo também é coisa de terraplanista. O problema é que de um lado estão os drill baby drill, e do outro os NetZero, não fica ninguém no meio, a não ser os de sempre, as grandes corporações, a ganhar com todas estas maluqueiras do green e derivados, e os políticos (ou decisores, como agora se chamam) não ajudam com os seus planos a 50 anos que nem tecnologicamente são possíveis.

    1. . “As alterações climáticas são factuais”
      O que é que isso quer dizer? alterações climáticas sempre existiram. Quando mudaram a narrativa do Aquecimento Global – mudança de narrativa aceite pela pior profissão – para Alterações Climáticas entraram numa zona não falsificável. Uma zona não cientifica.

      Não há ciencia do clima hoje com valor quando não há maneira de determinar causa.
      Um exemplo:
      https://en.wikipedia.org/wiki/1540_European_drought

      Se tal ocorresse em 2026, o que diriam quase todos os jornalistas, cientistas e pessoas comuns manipulados por décadas de propaganda?
      Estariam bem mais dispostos a pagar mais impostos e entregar mais do vosso poder individual para expiar os supostos pecados e culpa que o jornalismo vos criou?

      O que causou a grande seca de 1540 ou outras grandes catástrofes passadas? se não sabem a razão como podem dizer que sabem como o clima funciona? E porque é que a catástrofe de 2026 não foi criada pelas mesmas razões da de 1540?

      1. . “As alterações climáticas são factuais”
        O que é que isso quer dizer?

        Quer dizer que são factuais. O resto, é ler. Tarefa árdua para o Lucky woke, como sabemos.

      2. O comentador lucky tem razão, não há qualquer prova científica que ligue acção humana a fenómenos meteorológicos. Quem diz o contrário está minado, ou comprado, pela imprensa marxista. Ouçam os cientistas, eles explicam.

    2. “mas ignorar o nosso impacto do dito cujo também é coisa de terraplanista” o nosso impacto fica-se pelo lixo , milhões e milhões e milhões de megatoneladas , e poluição química de rios mares terras pessoas bichos plantas, disruptores endócrinos e bla bla bla quanto ao clima ? o lixo e a poluição são novidades da acção humana que provavelmente arrasarão com o nosso habitat e muitas espécies ; alterações climáticas há-as desde o “big bang” . acreditar na indústria greem é que é de terraplanista .

  2. Concordo que, por vezes, existem alguns histerismos e exageros de análise, quando se trata de chuva abundante ou de calor acentuado, duas coisas que sempre existiram e que, dependendo dos anos, poderiam ter efeitos mais ou menos visíveis…

    Mas também não vejo as ditas alterações climáticas de forma tão benévola quanto o José Meireles Graça e tenho alguns motivos para acreditar que as mesmas estão mesmo aí e que vieram para ficar:

    Na zona da Beira-Baixa, ano após ano, há colheitas que têm vindo a antecipar-se, a vindima já não se faz a partir do meio de Setembro, agora tem que se começar a partir do final de Agosto, coisa estranhíssima, nunca antes vista;

    A colheita da azeitona, que costumava começar-se só depois dos Santos e prolongar-se, muitas vezes, até ao Natal ou até frequentemente depois dessa data, está neste momento praticamente concluída e ainda não chegámos ao fim de Novembro;

    Tenho uma casa à beira-mar, situada numa península que já foi ilha, onde são, cada vez mais, frequentes os danos provocados por um mar que progressivamente tem vindo a invadir mais zonas, em determinadas alturas do ano…

    Portanto, pela minha amostra, em duas zonas distantes entre si e tão diferentes uma da outra, parece-me que há inquestionáveis alterações climáticas, cujos efeitos são bem visíveis e que de nada adianta negá-las… Estão de facto aí, com ou sem exageros ou histerismos de análise…

    1. Sempre houve “clima extremo”. A diferença é que uma onda de calor a sério durava uns dias, agora dura umas semanas. Lembro-me de invernos com 3 meses de chuva e frio (abaixo de zero), mas não de uns em que num dia era frio de rachar e no seguinte se andava de msnga curta.
      Fala bem nas estações que já não existem, qualquer agricultor se queixa que prever sementeiras e colheitas é mero acaso.
      Quanto às inundações das chuvadas, seria olhar menos para a precipitação e mais para a permeabilidade dos solos e leitos obstruídos

    2. > tem que se começar a partir do final de Agosto, coisa estranhíssima, nunca antes vista

      Desde que o camarada Caius Julius reformou a calendário romano, justamente por essa razão

      1. “Caius Julius”? Não conheço, eu é mais bolos… (Alusão à personagem José Severino, Herman José/Hermanias 1991/1992).

    3. “Na zona da Beira-Baixa, ano após ano, há colheitas que têm vindo a antecipar-se, a vindima já não se faz a partir do meio de Setembro, agora tem que se começar a partir do final de Agosto, coisa estranhíssima, nunca antes vista”

      Este chorrilho de asneiras é resultado da pior profissão – jornalismo – e do pior ensino.

      “La quale immaginazione è cosí fondata, che quel medesimo appunto che affermano i nostri vecchi a noi, affermavano i vecchi, per non dir piú, giá un secolo e mezzo addietro, ai contemporanei del Magalotti, il quale nelle Lettere familiari scriveva: «Egli è pur certo che l’ordine antico delle stagioni par che vada pervertendosi. Qui in Italia è voce e querela comune, che i mezzi tempi non vi sono piú; e in questo smarrimento di confini, non vi è dubbio che il freddo acquista terreno. Io ho udito dire a mio padre, che in sua gioventú, a Roma, la mattina di pasqua di resurrezione, ognuno si rivestiva da state. Adesso chi non ha bisogno d’impegnar la camiciuola, vi so dire che si guarda molto bene di non alleggerirsi della minima cosa di quelle ch’ei portava nel cuor dell’inverno».

      Questo scriveva il Magalotti in data del 1683.(…)

      https://it.wikisource.org/wiki/Pensieri_(Leopardi)/XXXIX
      Pensieri de Giaacomo Leopardi ano de 1845

      1. Agradeço que especifique esta sua afirmação: “Este chorrilho de asneiras é resultado da pior profissão – jornalismo – e do pior ensino.”

      2. > pior ensino.

        Dantes o ensino ainda era suplementado com uma espécie de Hallmark Cards vendidas nas tabacarias com uns versos do Kipling, com umas noções básicas como esta:

        “In August was the Jackal born;
        The Rains fell in September;
        ‘Now such a fearful flood as this,’
        Says he, ‘I can’t remember!’”

        Mas o Kipling foi cancelado, e o povo, que nunca foi muito dado à história, agora vive em estado de perpétua amnésia, como dizia o Gore Vidal. Nasceu tudo ontem.

        1. O Kipling foi cancelado? Todo? O “Livro da Selva” também? O “Segundo Livro da Selva” é um dos livros da minha vida, a ver se o escondo na gaveta das meias…

  3. o meu Avô lembra-se de lhe terem vendido a hipótese duma glaciação nos anos 70 do séc. xx. até pensou comprar um capote alentejano. na década seguinte foi a desertificação do sul ibérico. os dinossauros desapareceram devido devido às centrais nucleares. os zeros pegaram fogo ao edifício de Cop30 por desconhecerem como se carrega um telemóvel. ‘até à próxima se não for antes’.

  4. ⛈️ Crónica de um Romance Proibido

    Chamem-lhe Depressão Cláudia. Chamem-lhe “evento meteorológico extremo”.
    Eu, que convivo com ela há três dias, chamo-lhe Clo.
    E não há como negar: a Clo é o meu mais recente caso extraconjugal com o clima. Uma relação intensa, ruidosa, e que me pôs a pensar mais sobre dinâmicas de humidade do que sobre a dinâmica de preços do monte alentejano.
    Desde que chegou, esta criatura de baixa pressão tem-me brindado com a prova empírica de que a água não é o problema do século XXI, mas sim a sua dosagem.
    E é aqui que entra o drama, a ironia que adoro. O “consenso” que eu tanto ridicularizo, o medo da subida das águas, transformou-se numa alegoria pessoal, a minha penitência.
    Eu, o cético, o incréu que rejeitou os avisos e a oportunidade de comprar em saldo, estou agora a viver a alegoria da enchente na primeira pessoa.
    Estou a ser mimado pela Clo com água a jorros. Já não penso em poços nem em profundidades freáticas.O meu cinismo está a ser literalmente lavado pela Clo.
    Sim porque ela é uma diva dos sistemas frontais. E como todas as divas é uma depressão teimosa que ignora calendários e previsões.
    A nossa relação, porém, é transitória, como todas as coisas boas (e molhadas). Daqui a uns dias, a Clo vai-se embora, deixando para trás um rasto de pingos, telhados arrancados, e a habitual histeria mediática.
    E eu? Eu volto ao meu lugar de sempre: Incréu, mas molhado.

  5. Ciência não é Religião nem Ideologia. A Ciência difere da Religião por não ter certezas definitivas e verdades absolutas ou finais. A Ciência é um «programa aberto». A Religião e as Ideologias são um «programa fechado». Em termos matemáticos, a Religião e as Ideologias cumprem a formulação de Euler de 1748 (℮ⁱp = cos x + i sin x … ℮ⁱƤ + 1 = 0). A Ciência está de acordo com a formulação pelo Impronuncialismo do «número Absurdo» no seio da teoria algébrica.

    A Ciência baseia-se na probabilidade e na dúvida. Qualquer afirmação da Ciência é sempre: — «Uma decisão provisória; formulada num tempo, espaço e escala particular; com uma determinada informação; interpretada pelo limite do sujeito que a faz».

    Ao invés, as Religiões e as Ideologias acreditam num final para a Verdade, para a Certeza, para a Moral, para Ética, para a Justiça, para a Economia, para a Governação, etc. Fazem-no em nome de uma Fé, de uma qualquer crença, profecia ou promessa.

    Para a Ciência as «alterações climáticas» são uma característica da Natureza aqui na Terra desde há mais de 4,6 mil milhões de anos. A Ciência chama a essas «alterações climáticas», sucessivamente: Pré-cambrio > Paleozóico > Mesazóico > Paleoceno > Eoceno > Oligoceno > Mioceno > Plioceno > Pleistoceno > Holoceno.

  6. A velha ( e tão humana…) banha da cobra – mas , “à la page”, modernizada, “cientificada” e publicitada , “urbi et orbi”, à velocidade da luz .
    Continua a fazer as delícias dos sempiternos Salcedes…
    JSP

  7. Muitas vezes me questiono se o pendor para a zombaria com o assunto das alterações climáticas, e mais ainda com as patéticas tentativas de muita rapaziada jovem para chamar a atenção para o assunto, não servirá de facto para esconder algum incómodo – pela cada vez mais notória possibilidade de os cientistas, os alarmistas e os lançadores de sopa a obras-primas da pintura terem alguma base racional nos seus histerismos, que não passem só pelo medo ou pelo desejo de protagonismo. Os cientistas sobretudo, obviamente.

    Afinal nós, os mais velhos e supostamente mais sábios, cuja experiência de vida nos permite uma relativização blasé, ou até de redução ao cómico de um assunto que envolve catástrofes existenciais, temos filhos e netos – e serão eles quem herdará a Terra e as consequências das nossas “reinterpretações” de dados científicos, da nossa tendência para nos distrairmos do essencial com muitas picuinhices acessórias, ou de evitarmos os factos desagradáveis em estilo avestruz, escondendo a cabeça na areia e deixando o posterior exposto e indefeso.

    Serão eles, os nossos descendentes, e não nós, quem terá que se adaptar a um estado de coisas que, não podendo muito provavelmente ter sido evitado, poderia sem dúvida ter sido muitíssimo minorado nos seus piores efeitos.
    Depois, misturar, confundir, a incompetência em gerir os meios com a bondade, ou mesmo urgência, dos fins, não é intelectualmente honesto.
    E quando digo incompetência incluo também aqueloutra bem conhecida tendência humana para a roubalheira, ou “aproveitamento de oportunidades” como agora se diz – veja-se, e apenas como exemplo entre muitos possíveis, o caso de quadrilha de larápios premium da Volkswagen e das suas “inovações” em medição de emissões poluentes. Outros que também não acreditam em alterações climáticas, está visto, mas que acreditam piamente nas externalidades positivas do capitalismo.

    Sem prejuízo dos inalienáveis direitos a opinar e a duvidar, tratar de maneira condescendente um problema a cujas piores consequências escaparemos, pela ordem natural da vida, parece-me um exercício um tanto cínico, embora talvez um compreensível mecanismo de defesa perante o olhar assustado e reprovador das (nossas) crianças…

    E escaparemos se escaparmos. Veja-se o caso do José Meireles Graça, que ainda anda todo esperançoso numa última morada para aguardar o futuro, uma casinha à beira-mar…
    Tem bom gosto, é bem melhor do que um monte alentejano; ou pelo menos era o que eu também escolheria se pudesse, eheheh.

    1. Zebra, perante tantas avestruzes, faltam-me as palavras para as qualificar. Ou melhor, não me faltam as palavras. Não posso é escrevê-las, tal qual me ocorrem ao pensamento. Se as escrevesse seria, com toda a certeza, banida de toda a blogosfera e arredores…

      Enfim, uma avestruz, será sempre uma avestruz…

  8. E eu diria ainda mais: qual é o mal do aquecimento de 4 ou 5 graus? No meu aniversário faziam 38 graus, na véspera faziam 25 graus. 13 de diferença em dois dias. Essas patranhas – a mim não me enganam!!!

  9. Nós, europeus, devemos investir nos combustíveis fósseis. Temos uma enorme abundância deles, é a nossa vantagem competitiva. Apostemos naquilo que controlamos e possuímos em abundância. Sejamos competitivos, autonomizemo-nos!

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