O crepúsculo da deusa


Ana Vidal,

 

A violenta pressão da voragem mediática que, literalmente, engoliu o último fenómeno musical televisivo que dá pelo nome de Susan Boyle, teve este trágico desfecho.

 

Não me espanta: de anónima desempregada, a mulher de 48 anos – que viu fugir o sonho dos palcos na idade em que ele ainda seria viável – vê-se de repente projectada para a ribalta do mundo inteiro, através de um concurso de talentos onde tem de competir com jovens que lhe lembrarão, certamente, esses tempos de glórias sonhadas. E a comparação nunca pode ser justa para ela: para além de uma voz poderosa (que eles também têm, com a vantagem de estarem ainda na curva ascendente das suas potencialidades), a concorrente balzaquiana só tem para oferecer ao público uma história comovente de frustrações e insucessos, uma luta inglória por um lugar ao sol. É o palhaço pobre de um circo inclemente. Não é pelo talento que a aplaudem – que o terá, sim, mas não mais do que tantos outros – é pela curiosidade mórbida que a sua história desperta no voyeurismo instituído pelos Big Brothers da moda. É pela sua coragem serôdia e pela  figura patética, que inspira ternura. É muito também pela personificação que ela representa de uma possível, ainda que ilusória, vingança dos fracos contra os que tudo têm para vencer. Against all odds. A crueldade de alguns dos títulos que alimentaram os media durante todo este tempo é bem significativa: "Afinal Susan Boyle já beijou"; "Velha feia chega à final"; "Susan Boyle já não é virgem"; Susan Boyle dá um pontapé em Hollie Steel"; "Susan Boyle satirizada na net"; "Susan Boyle explica-se à polícia"; "Afinal, a escocesa rude não ganhou o concurso"; "Bonecas de Boyle à venda por 16€"; "Um milhão para Boyle fazer um porno"; "Boyle já tinha sido gozada há 14 anos"; etc., etc., etc., num interminável rol de mexericos mortíferos.

 

Não há promessas de Hollywood, álbuns gravados ou dinheiro fácil que compensem esta exposição violenta e quase pornográfica de um ser frágil e ingénuo que ousou sonhar, sem pensar que o sonho que cantou (I dreamed a dream) se transformaria facilmente num pesadelo. Como acabou por acontecer.

21 comentários em “O crepúsculo da deusa”

  1. Não se pode dizer que seja um desfecho «trágico», mas é dramático seguramente. E é, sobretudo, o resultado destes ‘shows’ televisivos inteiramente baseados na exploração das fraquezas humanas e na exposição das expectativas mais íntimas.

    1. Talvez “trágico” seja exagero, João. Mas, sem querer ser catastrofista, temo que esta mulher venha a ter um fim triste. E os factos, para já, dão-me razão. Infelizmente, claro.

    1. Sim, é mais grave porque não são elas que se expõem voluntariamente, mas sim quem deveria ter mais cuidado com elas.

      Mas o meu texto é sobre Susan Boyle, porque a notícia do internamento me impressionou.

  2. Ana:
    Não sabia que Susan Boyle tinha sido internada. Acho que não augura nada de bom, como já foi dito. Mas vivemos neste tempo. Se vender sugam tudo.
    Espero que, pelo menos, não a abandonem.

    1. Abandonam, MdSol, assim que ela deixar de render audiências. E o choque será duro. Essa indiferença é a maior perversidade de tudo isto, depois do apelo à comoção fácil e à ternura por esta figura especial.

        1. Quem dera que ele se realizasse, e não só para esta mulher. Seria um sinal de que não estamos todos a ficar uns monstros… uns porque fazem os programas, outros porque os consomem.

  3. Ana:
    A curiosidade que há alguns meses despertou este fenómeno chamado Susan Boyle, estava inevitavelmente eivada de morbidez. A atenção que ela despertava, tinha o mesmo carácter da atenção que damos às notícias do Entroncamento: – era notícia porque era insólita. Feia, gorda, despenteada, de meia idade, desamparada afectivamente, tinha todos os atributos necessários para ser impiedosamente cilindrada pelos “media” na primeira oportunidade. A seu favor tinha apenas a sua belíssima voz, mas que, tal como a Ana diz, outros mais novos, mais bonitos e tão ou mais talentosos que ela, nesse e noutros aspectos, também têm. E é deste género de «produtos» que as actuais sociedades, sempre ávidas de bonitas imagens e com um apetite voraz por tudo quanto é jovem e novo, gostam de consumir. Era, assim, fácil de prever que Susan Boyle soçobraria ao primeiro grande obstáculo que lhe surgisse pela frente, como de facto veio a acontecer. Já não tão previsível seria a sua terrível reacção à derrota sofrida. E nada, mesmo nada, então, justifica os comentários absolutamente indecentes, nojentos até, de que foi alvo, só por ter ousado “sonhar um sonho”.

    1. É essa a maior perversão destes programas, Luís: aparentemente, descobrem talentos ocultos e dão oportunidades a desconhecidos. Mas há casos em que podem destruir pessoas, sobretudo as mais frágeis e ingénuas, com expectativas irreais, que se agarram ao sonho como a uma bóia de salvação. E depois, quando as deixam cair (e deixam sempre, mais cedo ou mais tarde) não aguentam a decepção e o fracasso porque nunca estiveram preparadas para eles. É muito triste.

      Nós tivemos por cá um caso assim: o Zé Maria, do primeiro Big Brother, que a televisão transformou de tal maneira que nunca mais conseguiu voltar a viver a vida simples que tinha antes. Mas também não tinha outra, e por isso soçobrou completamente e até o suicídio tentou.

  4. raramente vejo este tipo de programas porque quando dou por estou a resmungar e é inevitável esta interrogação que faço a mim mesma:
    que raio de gente é esta que está num juri, julgando, castigando e muitas vezes destruindo os sonhos de cada um?
    quem lhe dá esse poder? quem lhes dá ess poder supremo de dirigir o destino de cada um?
    é arrepiante, no meu entender, que haja seres humanos a elevar ou destruir outros seres humanos em segundos, com a maior das friezas…
    pobre humanidade para onde caminhas…

    1. É o mundo que temos, Maria. Hoje em dia são as televisões os antigos imperadores romanos, com poder para erguer ou baixar o polegar aos destinos de quem lhes cai nos palcos, as novas arenas.

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