
Sobre o “wokismo” pátrio pode grassar a sensação de decorrer o seu velório, com alguns estertores académicos pouco sonantes, quase trabalho encomendado de carpideiras. Mas desenganem-se, será mais um “ar que se lhe deu”, episódico. Até apenas um eclipse (quase) total, devido à translação lusa em torno dos EUA, estrela na qual Trump acabrunhou o radicalismo identitarista – esse que tanto minou o partido Democrata gringo. A que por cá se juntam as perturbações causadas pelo colapso gravitacional do BE e pela ablação do LIVRE.
Pois o wokismo continua por aí. Há meses foi notório, mesmo se em modo suave, nas reacções a uma Resolução da ONU (que abordei no postal “Escravos nas Nações Unidas”). E antes fora alcandorado ao púlpito do “A Bem da Nação” no discurso do 10 de Junho do ano passado.
E agora reforçar-se-á com as mudanças internacionais. Em breve haverá eleições intercalares nos EUA. Consta que, provavelmente por reacção ao desabrido trumpismo, ascendem as correntes demo-identitaristas – entre as quais pontifica o presidente da Câmara de Nova Iorque, Mamdani, cujo desbragado wokismo a propósito da visita de Carlos III aos EUA aqui abordei. E antes serão as presidenciais brasileiras, com o choque Silva vs Bolsonaro que decerto catapultará tais correntes para o horário nobre. Preparemo-nos pois para aturar as ladainhas do costume, que virão com muito mais ênfase (e cabeçalhos). Até para colmatarem o relativo silêncio dos últimos tempos.
Por isso, e para me robustecer diante dessa expectativa, nesta véspera de eclipse solar fui recordar o meu primeiro eclipse.


Este mesmo, o do Tintin no O Templo do Sol. Hergé repegou o episódio em que Colombo, detentor do almanaque que lhe anunciava um eclipse lunar em 1504, usou esse conhecimento para assustar uns caribenhos que lhe estavam a ser antipáticos – e note-se que Colombo é a personificação do demo no panteão wokista. Tal como abominado é H. Rider Haggard, que colocou o episódio no tão colonialista As Minas do Rei Salomão, que o malvado Eça de Queirós fez questão de traduzir (e melhorar, dizem). Menos demoníaco será Mark Twain, pois se no seu Um Yankee na Corte do Rei Artur replicou a historieta, em registo solar, fê-la decorrer entre os antepassados bretões – gente branca, como tal sendo curial aludir à sua ignorância. Ainda assim Twain é muito malquisto entre os identitaristas, tantos dele exigindo que sejam os seus textos expurgados das “más palavras” – mesmo tendo ele sido crítico radical, entre outras coisas autor do O Solilóquio do Rei Leopoldo, que há 120 e tal anos meteu toda a futura superficialidade wokista num bolso.
Também Hergé é pontapeado, afirmam-no “nazi” e/ou colaboracionista – de facto, o homem foi “realista” durante a Ocupação, ou seja, seguiu as instruções do rei dos Belgas. Muitos o abominam, dizendo que devido aos seus estereótipos, criticado o seu juvenil e afinal tão exacto Tintin no País dos Sovietes, pontapeado o seu júnior e cândido Tintin no Congo. Mas, de facto, o que não lhe perdoam é o seu derradeiro Tintin e os Pícaros, a demonstrar aos mais distraídos quem são os… identitaristas, tais e quais os seus aparentes “antepassados”.
E é este Hergé que em meados da década da II Guerra Mundial avançou com As Sete Bolas de Cristal e sua sequela O Templo do Sol – anunciando a necessidade das restituições do património histórico e da preservação cultural. Mas nem isso lhe vale…
Ali ele retomou o tal eclipse, solar. O meu primeiro, repito-o… E consta que julgou frágil o seu argumento – pois cria que os adoradores do Sol (os Incas) decerto saberiam mais sobre o calendário solar do que Tintin e seus jornais… “ocidentais”.
Enfim, hoje fico-me com Tintin. E com o meu compatriota Oliveira de Figueira, esse arquétipo que os wokistas sempre se esquecem de denunciar….

[Para francófonos – pois o filme não tem legendas – deixo ligação para uma belíssima conversa sobre Hergé, com o grande Michel Serres, o quase lendário antropólogo Philippe Descola, também o iconoclasta Pascal Bruckner, Erik Orsenna e outros]
(Também no meu “O Pimentel“)

Enquanto houver gente a proibir o lançamento de livros porque não concordam com o que dizem, o Wokismo está vivo e recomenda-se. Ou alguém a tentar anular a liberdade de religião, tentando proibir templos de algumas religiões, ou a andar a dizer às pessoas o que devem vestir na rua.
O Wokismo entre nós é uma praga.
os moralistóides grassam.
E ainda dizem que não a BD é uma arte menor, com a quase não se aprende nada…
Provavelmente dirão também que é entretém de carneirada.
sim, passam as décadas e ainda há quem menorize a BD
Excelente texto sobre o maravilhoso Tintin e o seu criador Hergé. Ainda me recordo da minha surpresa com os ataques sofridos pelo álbum “Tintin no Congo”, já a ideologia “woke” é demasiado radical para o meu gosto e o mesmo dirá Walt Disney e as personagens do filme “A Bela Adormecida”, a minha película favorita do genial Walt Disney, quando uma senhora inglesa foi para tribunal com uma acção para proibir o filme, felizmente perdeu a acção, porque os juízes acharam que aquilo não tinha “pernas para andar”.
Os melhores cumprimentos.
Obrigado pelo comentário. Essa do acção contra a “Bela Adormecida” não conhecia, tenho de ir pesquisar…
Não sei se essa acção o tinha como pretexto, mas recordo a indignação gerada há alguns anos, entre as novas polícias de costumes, pelo beijo do príncipe: que era um beijo não consentido (pois que adormecida, a Bela) e como tal um péssimo exemplo para a audiência infantil. Isso, pelo menos. Igual zelo censório foi aliás gerado no caso da Branca de Neve.
E a Disney, mas suas produções, curvou-se ao wokismo (dizem-me, pois com filhos já adultos, e netos ainda muito novos, estou desactualizado na matéria).
Caro Jpt
A senhora inglesa em questão defendia que o beijo que o Príncipe dava à Bela Adormecida, num dos mais belos filmes de Walt Disney, levando-a a acordar do feitiço que lhe foi lançado pela “Bruxa Má”, era uma violação e por essa razão o filme devia ser proibido.
Os melhores cumprimentos.
Acabou!? Ainda agora começou….
O DSA es´tá a tomar conta do Partido Democrata numa aliança marxo-islamista.
A WNBA esta a discutir o que é uma mulher porque vários jogadores secundarios da NBA se declaram mulheres…
No UK a Universidade de Cambridge promoveu Jason Arday e é uma fraude descumunal. Mas muita esquerda continua a defender as politicas racistas que o lá colocaram.