O empurrão de Cavaco Silva


Adolfo Mesquita Nunes,

Já tive oportunidade de referir que Cavaco Silva veio perturbar a estratégia de José Sócrates de apenas reconhecer a existência de uma crise que o Governo planeava apenas reconhecer mais perto das eleições.

 

José Sócrates viu na crise uma excelente oportunidade para justificar todos os desaires do Governo, sobretudo no âmbito económico e planeava passar os últimos meses do seu Governo a reiterar que tinha sido o seu esforço e determinação a atrasar a crise em Portugal e que só o seu esforço e determinação poderiam ajudar Portugal a atravessá-la.

 

Mais, José Sócrates planeava, como aliás se nota, desculpar o triste estado de coisas da nossa situação económica e financeira com a crise, podendo mesmo dizer, como já veio insinuar, que se não fosse o Governo, a crise já teria entrado há muito mais tempo e com maior devastação.

 

Ao obrigar Sócrates a reconhecer a crise nos primeiros dias do ano, Cavaco Silva não só chamou o Governo à responsabilidade como retirou parte do efeito útil da estratégia do Governo. Porque se o discurso planeado por Sócrates resiste durante algumas semanas, já é mais duvidoso que possa aguentar-se durante meses sem que os eleitores se fartem ou sem que apareçam sólidas demonstrações de que o Governo mente.

 

A Standard & Poor’s, por exemplo, já veio dizer que os esforços do Governo têm sido manifestamente insuficientes para resolver os graves problemas que o país enfrenta, apontando o dedo à incompetência governativa e ao não fatalismo de uma crise que o Governo só se apercebeu no fim do ano.

 

Outros dados surgirão nos próximos meses confirmando que a crise apenas veio escancarar a governação socialista (não pode esquecer-se, aliás, que nos últimos 14 anos, os socialistas governaram durante 11). Até a oposição terá o tempo necessário para construir um discurso que evidencie a falta de verdade da estratégia socialista. 

 

Veremos, por isso, se o maior obreiro da perda da maioria absoluta de José Sócrates não foi o simples empurrão de Cavaco Silva.  

10 comentários em “O empurrão de Cavaco Silva”

  1. O pior mesmo é que durante os 3 (14-11) em que governaram os outros, os ditos também não mostraram nenhumas qualidades…

  2. Caro Adolfo,

    Quem é a Standard & Poor’s?
    Já sei, são os mesmos que davam altos ratings aos bancos que tinham produtos tóxicos poucos dias antes de falirem ou serem nacionalizados. São os mesmo que davam rating máximo à Islândia 1 dia, 1 dia, antes de falir por completo.

    Acham que esse senhores têm alguma credibilidade? Ao justificar a sua opinião com estes senhores, o seu post perde ele próprio a credibilidade.

    Para terminar, acha que esta sua afirmação “Até a oposição terá o tempo necessário para construir um discurso que evidencie a falta de verdade da estratégia socialista. ” algum dia virá a ser confirmada? O que andaram a fazer durante 4 anos de legislatura? A brincar?

    Abraço.

    1. Caro Nuno,

      Até já vimos o Primeiro-Ministro retirar credibilidade ao FMI quando os dados, que apontam no mesmo sentido, lhe não convieram.

      Quanto ao papel da oposição, nesse sentido, penso que será confirmada. 9 meses é muito tempo para manter sólida a tese de “isto é uma crise internacional e nós não temos nada que ver com isto”.

      Um abraço

      1. Caro Adolfo,

        Quanto à oposição discordo de si, o PSD está um lástima. Mas vamos dar tempo ao tempo.

        Quando ao PM, peço desculpa mas faz o papel dele de politico. É preciso não esquecer que ele é PM porque é politico. A politica sempre foi assim e sempre será. Nunca percebi a ilusão de que a politica devia ser diferente.
        O que me deixa louco é ainda confiarmos em instituições que não são políticas mas conseguem ter menos credibilidade do que estes.

        Abraço.

  3. A nossa dívida pública,
    que tem subido de forma astronómica,
    é sinal da gestão impúdica
    da nossa política económica.

    A recessão está para durar,
    para mal dos nossos pecados,
    a arte de fantasiar
    tem os dias contados!
    (ameijoafresca.blogspot.com)

  4. Cavaco Silva tem sido um modelo de contenção! Como sempre pensei que seria, aliás.
    Quanto a Sócrates, para mim a melhor foi a de deixar no ar a ideia de que a descida da taxa de juro era obra dos esforços do seu governo …
    Decididamente, alimenta muito fraca opinião sobre o povo português.
    Eu acho que o homem é parvo (na acepção rigorosa e etimológica do termo)!

  5. Certíssimo, Adolfo. Penso o mesmo – não só relativamente ao papel do PR, com quem Sócrates abriu uma guerra absurda a propósito dos Açores para garantir o apoio parlamentar do PS/A, como em relação à maioria absoluta. É evidente que Sócrates não voltará a dispor de maioria absoluta, aliás à semelhança do que acontece por toda essa Europa, a começar por Espanha.

  6. O empurrão de Cavaco vai provocar a perda da maioria absoluta de Sócrates, passando ele a precisar do BE (ou coisa parecida)?

    Bolas, é pior a amêndoa que o cimento.

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