O Estado Novo há 50 anos (1961)


João Carvalho,

 

I — O ANO QUE FEZ TREMER O REGIME

Salazar e a Igreja

 

A 13 de Janeiro de 1961, o cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888–1977), Patriarca de Lisboa, emite — pressionado por Salazar — uma nota pastoral a pretexto da notória instabilidade que se vive no Ultramar português e, sobretudo, para contrariar um documento recente da diocese de Luanda, no qual o prelado Moisés Alves de Pinho defende as «aspirações justas e legítimas dos negros», apoiado por outros elementos do clero angolano.

No dia seguinte, a imprensa dá ampla conta da posição oficial da Igreja, assim considerada por ser proveniente do Patriarcado e por este distribuída. Só que a guerra em Angola já se sabe que é inevitável e está iminente. O que não se sabe é que vários outros acontecimentos ao longo dos doze meses do ano vão provocar muitos abalos e alguns danos externos ao regime.

 

Fora do País, quem está em oposição àquela nota pastoral — e até contra uma sequência de posições do cardeal-patriarca e da conferência episcopal — é D. António Ferreira Gomes (1906–1989), bispo do Porto. Posteriormente, há-de garantir que, se estivesse em Portugal, nunca teria permitido que o cardeal se pronunciasse em nome do episcopado nem que aquela nota saísse, por ser abusivo dar a ideia de que a Igreja está solidária com aquela linha de pensamento. Exilado pelo regime, as suas atitudes frontais são já conhecidas há muito. Recorde-se o que acontecera.

«Em 1958, o bispo do Porto, depois de duas intervenções entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem os princípios sociais da Igreja. Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo desloca-se a Roma no ano seguinte (atraído pelo ex-arcebispo de Goa D. José da Costa Nunes, que está na Santa Sé e aceita concertar a cilada com Salazar) e, na volta, é impedido de entrar no País, ficando em Tuy (na Galiza) e passando a viver entre Espanha, França (em Lourdes) e o Vaticano.

Em rigor, não tem o estatuto de exilado político e não chega a ser substituído como bispo do Porto. O Papa João XXIII — Ângelo Giuseppe Roncalli (1881–1963) — nomeia-o para uma das comissões que preparam o concílio Vaticano II e o seu regresso só vai ser possível dez anos mais tarde, em 1969, na sequência de um movimento em que sobressai o advogado portuense e católico activo Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (1934–1980), num envolvimento que o transporta à política, para se destacar depois como deputado da “ala liberal” nos finais do Estado Novo, durante a prometida e gorada “primavera marcelista”.» (João Carvalho, O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias, STJ/Almedina, 2003.)

 

Apesar do afastamento do bispo do Porto, Salazar não conseguira que a Igreja o substituísse, nem evitara o epíteto de «exilado político». Podia dar a batalha como ganha, mas não fôra limpa como lhe seria conveniente e, ainda por cima, não vira todas as suas vontades satisfeitas pela Igreja — apenas algumas e, mesmo assim, fora do tempo útil — tanto em relação a D. António Ferreira Gomes como a outros membros do clero. O que o Presidente do Conselho não parecia adivinhar é que havia uma guerra surda já em marcha contra o regime, além da guerra aberta que vai estalar em África, e que aquela batalha, mal resolvida pelo cardeal-patriarca nesse dia 13 de Janeiro, era apenas uma pequena parte dos confrontos que iam seguir-se.

Se ele estava em condições de adivinhar que a situação ia tremer, talvez preferisse não acreditar que houvesse figuras com atrevimento bastante para saltar do sistema e virar-se contra ele. Por isso, ainda esticou a corda: vários clérigos de Angola tiveram de enfrentar a PIDE, regressaram à Metrópole e foram “emprateleirados” longe dos púlpitos, alguns deles com a obrigação de se apresentar regularmente às autoridades. Salazar ficara agastado com o cardeal-patriarca por este não controlar o clero e por não ver a Igreja reconhecer com clareza o que devia ao Estado Novo.

 

O ano de 1961 vai ser agitado e acabará por deixar marcas num salazarismo desnecessariamente duro e bolorento que se prolonga sem motivo, depois de perder todas as oportunidades para se afastar. O Portugal do pós-Guerra, que se pôs a jeito para receber uma fatia do Plano Marshall (destinado à recuperação da Europa devastada por um conflito em que o nosso país não entrara) e que consegue equilibrar as contas públicas, recusara abrir-se e participar na renovação europeia.

Portugal ficava “orgulhosamente” só ou mal acompanhado pela Espanha franquista, com a qual nem sequer mantinha relações de especial proximidade. Faltou até o rasgo para seguir o exemplo do Benelux, quando a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo se adiantaram ao pacto europeu posto em marcha e deram um inteligente e feliz passo em frente. Salazar e Franco foram incapazes de conceber um espaço ibérico de desenvolvimento partilhado e os portugueses tiveram de continuar a ir comprar à socapa caramelos espanhóis e a ser revistados até ao tutano na fronteira por causa de uns artigos caseiros que pudessem trazer.

Nesta situação, é natural que o Estado Novo enfrente sérios contratempos, gerados no interior do próprio poder e projectados além-fronteiras. Recordaremos de forma sucinta, nesta série que começa hoje e culminará em Dezembro, esse Portugal há meio século, através da cronologia do annus horribilis para o regime de Salazar que foi 1961.

 

Imagens

· Fátima: fiéis durante a “dança do Sol” (13 de Outubro de 1917)

· D. António Ferreira Gomes (retrato a óleo)

14 comentários em “O Estado Novo há 50 anos (1961)”

  1. João

    Mais uma série do Delito que me vai prender ao ecrã.
    Esta é uma fase da nossa história colectiva que me interessa particularmente.
    Gostei muito deste primeiro post!
    Ana

  2. Excelente ideia, compadre. E excelente arranque. O tema dará pano para mangas: 1961 foi, de facto, um ano em cheio – até à última noite do último dia. Isso sucedeu não só em Portugal (foi o ‘ano horrível’ de Salazar, com o Santa Maria, a guerra em Angola, o desvio de um avião da TAP, a ‘abrilada’, São Baptista de Ajudá e a invasão de Goa, por exemplo) mas também a nível internacional. Foi o ano do início do mandato de Kennedy, da posse e demissão de Jânio Quadros, do primeiro homem no espaço, da Baía dos Porcos, do golpe extremista na Argélia, da construção do Muro de Berlim. Etc, etc.
    Muito bem.

  3. desculpe, mas não posso calar o meu coração, e preciso de dizer que, realmente, o ano de 1961, é o mais maravilhoso de todos, aliás, toda a década de 60… :), por motivos que não posso divulgar por aqui…
    Mas queria, se me permite, deixar um ENORME BEIJO aos meus pais, e agradecer-lhes a luta que enfrentaram para aguentarem a minha sobrevivência, nunca desistiram, nunca cruzaram os braços, e eu ainda cá ando… E 1961, foi também o ano em que Francisco José gravou o primeiro disco, uma nova versão de Olhos Castanhos, e agora falo para si, Mãe, o poema vai ficar aqui, a voz, a sua voz, que me embalou vezes sem fim, fica gravada para sempre no meu coração, Obrigada, Mãe! Fica o registo de uma balada que adoravas cantar, Com a autorização do Delito, e claro, do Sr. João Carvalho…

    Teus olhos castanhos
    De encantos tamanhos
    São pecados meus,
    São estrelas fulgentes,
    Brilhantes, luzentes,
    Caídas dos céus,
    Teus olhos risonhos
    São mundos, são sonhos,
    São a minha cruz,
    Teus olhos castanhos
    De encantos tamanhos
    São raios de luz.

    Olhos azuis são ciúme
    E nada valem para mim,
    Olhos negros são queixume
    De uma tristeza sem fim,
    Olhos verdes são traição
    São crueis como punhais,
    Olhos bons com coração
    Os teus, castanhos leais.

    Para a minha Mãe…
    Ilda

  4. A série promete e serei fiel seguidora, sendo como sou apaixonada por história e biografia.
    Um feliz começo, que me põe logo alerta para os acontecimentos seguintes.
    O mês foi recheado de incidentes, já para não falar do annus horribilis da nossa História e certamente irei ler muito do que desconheço ou relembrei muito do que já li.

    Excelente ideia, fantástica estreia, que demonstra bem como o Delito é um centro de cultura de passagem obrigatória.

      1. Nem um tiquinho de exagero ….
        Apenas um deslize ortográfico no tempo do verbo.

        É assunto que me interessa, como tantos outros factos históricos, mesmo que não partilhemos certamente da mesma opinião.
        Mas a História faz-se de diferentes leituras e com o passar dos anos, de diferentes olhares.

        Quanto ao Delito, mesmo que feito por um conjunto de delituosos sui generis, é mesmo isso que sinto.
        Não consigo pôr-me em dia com as notícias, que raramente vejo, com os jornais, que poucas vezes consigo ler, portanto, ilustro-me exactamente aqui, no pouco tempo que me sobra.

        Alors, once again, congratulations! (em inglês técnico, off course!). Ao Delito.

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