O estudo e o monstro


José Gomes André,

estudo a que o Carlos aludiu em baixo – e que agitou as águas mornas da política portuguesa – não me convence de todo. Ou melhor, suscita-me algumas dúvidas, que passo a enumerar:

1. O estudo analisa números brutos, sendo indiferente ao ciclo económico ou às circunstâncias existentes no período em causa.  Ao não ter em conta o necessário ajuste do ritmo de crescimento da despesa na sua relação com o crescimento da economia, o estudo acaba por ter um carácter demasiado abstracto, dificultando conclusões que se refiram a práticas políticas concretas.

2. O estudo detém-se apenas nos três primeiros anos e meio do Governo Sócrates. Com os gastos colossais previstos para este ano, é fácil prever que os números vão mudar e muito. Embora seja de aplaudir o esforço de contenção inicial do actual Governo, parece-me justo que se faça uma avaliação global nesta matéria, para já ainda impossível.

3. O estudo conclui que o PSD é o partido que mais gasta quando está no Governo. Porém, logo em seguida afirma-se também que os governos de maioria absoluta são os que gastam menos. Ora, tendo em conta que só tivemos três governos de maioria absoluta, e que dois deles foram do PSD, fico confuso. Então o PSD é quem mais gasta, mas quando governa em maioria absoluta (8 dos 23 anos a que se refere o estudo) é o que menos gasta? Isto é coerente e compreensível?

4. Os pontos anteriores, aliados a uma objectiva comparação dos dados, parecem apontar para uma conclusão algo distinta da noticiada: existiram dois governos com gastos praticamente idênticos (Cavaco e Guterres), e um governo (Sócrates) para o qual não há ainda dados finais (que serão possivelmente próximos – se não superiores – a estes). A anomalia refere-se portanto ao Governo de Durão/Santana (sobretudo quando este último era PM, Bagão Félix ministro das Finanças e Ferreira Leite já nem fazia parte do executivo), especialmente gastador e o único que saiu deste padrão mais ou menos constante. Retirar deste caso particular uma conclusão geral – dizendo-se que o PSD gasta muito e o PS pouco – parece-me francamente abusivo.

5 comentários em “O estudo e o monstro”

  1. Sobre o assunto, primeiro, vale a pena ler algumas notas do autor do artigo:
    http://www.sedes.pt/blog/?p=1367

    Mas deixo também alguns apontamentos meus:

    1) Acho que em Portugal abusa-se da palavra estudo. Aquilo que Ricardo Reis escreve é um artigo com cálculos que não demoram mais do que poucas horas (se tanto) a fazer. Como já disse numa troca de comentários, o problema português é a falta de estudos. Talvez para colmatar essa falha se identifique como um estudo tudo e mais alguma coisa (não é uma critica ao teu texto, José. Porque bem sei que a coisa tem sido divulgada nos jornais como um estudo – sinceramente, nunca lhe chamaria tal coisa).

    2) Apesar disso, os dados apresentados por Ricardo Reis para o crescimento do consumo público são uma realidade indesmentível, José. E os cálculos elaborados, como o próprio explica, são ajustados ao ciclo.

    3) Curiosamente, há menos de um mês, o PS acusava o PSD de ter uma agenda liberal escondida. Agora, apregoa que o PSD no governo gasta mais que o PS. Curiosidades da política nacional. A retórica tem destas coisas.

    4) A conclusão a tirar não é que o PSD gasta muito e o PS pouco. Mas é que ambos abusam da despesa. Talvez isso ajude a explicar porquê que estou tão preocupado com a falta de programa do PSD. Como Ricardo Reis afirma, “na comparação entre PS e PSD, o facto que eu retive e que me parece mais importante foi que o Estado cresce sempre, esteja quem estiver no poder”.

    1. Agradeço muito o teu comentário, Jorge. Como reparaste, levantei apenas algumas questões. Não procurei ilibar o PSD, como é evidente. Acho é que esta notícia está cheia de armadilhas: afinal não é bem um “estudo”, acho que não está bem explicada a história das “maiorias absolutas”, e a “manchete” também me parece precipitada. Mas nestes tempos eleitorais, é natural que estas coisas sucedam. Concordo muito com a tua última conclusão: é também a questão da despesa – “toto genere” – e não “do PSD” ou “do “PS” que me preocupa. Abraço!

  2. Obrigado a todos por considerarem este blogue o” blogue da semana”. Espero merecer isso. Pelo menos faço um esforço constante por fazer viver o caminho de ferro sobretudo os Caminhos de Ferro Portugueses, aliado ao meu entretenimento à escala. Bem hajam.

    1. O Jorge Rego refere-se aqui ao Blogue da Semana assinalado mais abaixo: «Caminhos de Ferro Vale da Fumaça». Não faz mal.
      Já vi a surpresa que nos preparaste lá, Jorge.
      Um abraço.

  3. Este artigo, na forma como foi editado, pelas conclusões que apresenta e também pela inexistência de qualquer contraditório leva-me a questionar – mais uma vez – a indepêndencia do “i”. É pena, pois seria importante no panorama dos media em Portugal que existisse mais um jornal independente.
    Uma ultima nota… o referido “estudo” não aborda ou aborda muito ao de leve uma rubrica do déficite que são os encargos do serviço da divida…. divida esta pela qual todos os governos são responsáveis.

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