O Eurocentrismo


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(Postal para o Nenhures)

 

Já 70 dias de guerra na Ucrânia. Logo de início germinou um amplo perorar de gente mais ou menos simpática à causa russa de combater um poder de “nazis e drogados” – argumento que foi algo depurado, pois a “droga” foi algo esquecida. Mas o “nazismo” ucraniano vem continuando a ser agitado, e também o seu judaísmo (argumento nada contraditório pois ao que diz o Ministro dos Negócios Estrangeiros da segunda potência nuclear do mundo o próprio Hitler era judeu).

 

Muitos desses russófilos eram (e são) austrais. Entre eles logo brotou a crítica ao “eurocentrismo” dos que se preocupavam com esta guerra. Tal como os pachecos pereiras portugueses, apuparam os europeus por preferirem os “louros e de olhos azuis” sem atentarem nos conflitos em outras paragens. Que nos tivéssemos sobressaltado com o ressurgir da prática de conflito entre grandes blocos, o regresso da guerra internacional na Europa em larga escala, com o ressuscitar do pesadelo da guerra atómica? Mero eurocentrismo, típico dos verdadeiros racistas insensíveis a outros sofrimentos – todos eles, diga-se, causados por nós brancos ocidentais, que ocupamos agora nos discursos legitimadores austrais o papel de alteridade satânica que outros, em particular os judeus, foram ocupando ao longo da história, e até recente… Sobre essa retórica invectiva ao “eurocentrismo” dos intelectuais de um certo “Sul” bem instalado botei então um postal, “Do barómetro moral do Sul

 

 

Enfim, passaram 70 dias de guerra. As autoridades russas já ameaçaram atacar vários países, pelo menos a Bósnia-Herzegovina, a Finlândia, a Suécia, a Alemanha e a Moldova. Figuras públicas ligadas ao poder já ameaçaram o Cazaquistão. Os seus aviões já violaram o espaço aéreo de vários países. A televisão russa faz programas populares propagandeando a guerra nuclear e explicando o quão rápida será a destruição das capitais europeias. Uma conhecida publicista do regime já proclamou em directo um “Viva la muerte!”, típica do ideário fascista. Os russos já perderam mais homens em 70 dias do que em 10 anos na terrível guerra do Afeganistão, que tanto abanou a então URSS, e os ucranianos terão perdido ainda mais, um verdadeiro morticínio. Até ontem 5,6 milhões de refugiados ucranianos saíram do país, para além de vários milhões deslocados internos – a maior vaga de refugiados europeus desde a II Guerra Mundial. E, em termos de refugiados no exterior, a segunda maior vaga actual – por enquanto menos um milhão do que o acontecido na Síria, ao fim uma década de guerra. E, como cereja em cima do bolo “eurocêntrico”, foi estreado o registo de combates no interior de centrais atómicas…

 

Enfim, tudo isto, o pesadelo que de imediato a tantos nos sobressaltou, não passa para os tais “intelectuais” austrais do tal “eurocentrismo” “racista”, do apego aos “brancos”, em particular “louros e de olhos azuis”. Alguns repetem o digitar da tecla da função “anti-EUA”, outros serão mais loquazes e continuarão indignados com a Baía dos Porcos, a doutrina Monroe e quejandas actualidades. Mas o argumento fundamental será o da insistência na nossa branca hipocrisia eurocêntrica.

 

Tenho passado os olhos pela imprensa austral e a alguns amigos perguntado do que nessa se vai falando. E tenho visto o que o Algoritmo do FB e o do Twitter me mostra dos dizeres dos “doutores do Sul”. Que fique explícito: nem pelo Brasil, sempre em busca da sua ancestral africanidade, nem pela África Austral em língua portuguesa há grande interesse (notícias e debates ou pulsões da “cidadania digital”) pelos conflitos e pelos refugiados em África. Ou seja, nós os horríveis ocidentais somos eurocêntricos porque nos preocupamos (até demasiado) com o que por aqui se vai passando. E eles, os bons austrais são porreiros e não se preocupam com o que por lá se vai passando. Não são “acêntricos”, são zerocêntricos.

 

É óbvio que a característica do “eurocentrismo” foi marcante na construção dos saberes científicos, filosóficos e nas expressões artísticas canónicas – e se vem sendo depurado essa será, para sempre, matéria inconcluída. E também é certo que as populações europeias se preocupam mais com os assuntos da Europa, o que é normal. Mas este paleio que proclama “eurocentrismo” e “racismo” a torto e a direito é apenas uma retórica – e os discursos face a esta guerra russo-ucraniana são um episódio que bem o mostra: de facto, a redução do exercício da cidadania na Europa ao “eurocentrismo”, e a associada “judaização” dos brancos ocidentais quais causa de todos os males, é apenas o discurso legitimador dos poderes austrais actuais, efectuado pelos seus “intelectuais orgânicos”. E pelos “idiotas úteis” setentrionais, que assim se julgam compagnons de route

 

E para quem pense que estou a exagerar aqui deixo duas ligações a temáticas bem actuais e relevantes: “Os conflitos africanos em 2022“, “As dez maiores crises de refugiados actuais“. E investigue se os detractores do nosso “eurocentrismo” “racista” e “lourófilo” a elas se têm dedicado, com algum arreganho – pelo menos durante estes 70 dias, para justificarem as investidas contra o Grande Satã Europeu, que antes era bem tonitruante o seu silêncio. Se encontrarem robustos ecos desse actual grande sobressalto “afrocentrista” então venham chamar-me “branco”, como o sacaninha do meu ex-amigo se atreveu há 62 dias! Mas se não encontrarem mais do que suaves rumores entre esses “doutores” então metam lá a léria do “eurocentrismo” no saco. E a da “lourofilia” também…

 

7 comentários em “O Eurocentrismo”

  1. Confunde coisas diferentes. Uma coisa é dizer que esta guerra é particularmente perigosa porque pode descambar num conflito entre potências nucleares. Isso é um truísmo que ninguém nega.
    Outra coisa é dizer que o tratamento de destaque dado às notícias da guerra é dado por causa disso. Nao é, é dado porque as vítimas são europeus. O mesmo se passa com o tratamento aos refugiados, Aos refugiados que fogem de guerras fora da Europa, mostram-lhe o Mediterrâneo e mandam-nos afogarem-se.
    Compreendo que entre estar próximo de um ucraniano, refugiado de uma guerra de agressão contra a Europa Ocidental e um Líbio ou um Iraquiano vítimas de uma guerra promovida pela mesma Europa Ocidental, seja mais fácil preocuparmo-nos com o que nos é próximo. Mas não deixa de ser uma negação dos valores que a Europa diz defender, nomeadamente a igualdade entre todos os homens e o apoio a todos os que sofrem, independentemente de quem sejam.
    A Europa que se proclama cristã e contra a barbárie é incapaz de perceber a parábola do bom samaritano, que defende a iguladade diz que é mais igual que os outros e que se diz mundana pensa que o seu mundo é a sua paróquia.
    Não sei o que se passa consigo, mas eu penso que proclamar a excecionalidade europeia na defesa dos direitos humanos e ao memso tempo fazer separações como estas é estúpido e hipócrita.

    1. Então o jo dedica a mesma atenção a um refugiado etíope e a uma pessoa próxima da sua família? Se tiver de oferecer um rim a um familiar e outra pessoa vai atirar a moeda ao ar?

      E como é que consegue ter algum minuto de felicidade e de alegria na sua vida uma vez que há sempre pessoas a morrer, a sofrer em qualquer minuto dela?

      1. Não estamos a falar de familiares.
        Já compreendi o seu raciocínio: o mundo é uma família e, não sendo racista, ama todos os homens, uns como irmãos, outros como primos, outros como cunhados.
        Fica muito triste com o mal dos irmãos, menos com o dos primos e com o mal dos cunhados pode bem.

  2. Desde há muito que progressismo é falar do que a poucos interessa.
    A recente novidade é ser o disparate fundamento bastante.

  3. nem pelo Brasil nem pela África Austral em língua portuguesa há grande interesse pelos conflitos e pelos refugiados em África

    É natural, uma vez que as pessoas no Brasil e na generalidade da África (a qual é mais de 4 vezes maior do que a Europa, não o esqueçamos) não são diretamente afetadas pelos conflitos e refugiados noutros sítios do mundo.
    Um angolano ou um moçambicano, muito menos um brasileiro, não são afetados pelos conflitos na Etiópia ou na República Centro-Africana, que ficam a muito maior distância desses países do que a Ucrânia de Portugal. E os refugiados têm muito menos meios para se deslocarem grandes distâncias, portanto também não vão lá bater à porta.

  4. é certo que as populações europeias se preocupam mais com os assuntos da Europa

    Há que ver que a Europa e a África são continentes de tamanhos muitíssimo desiguais – coisa que os mapas usuais, feitos numa projeção dita “de Mercator” que amplifica o hemisfério Norte e diminui o Sul, falsificam. As distâncias e as áreas em África são muitíssimo maiores do que na Europa. Embora Europa e África sejam dois continentes, na verdade a África tem 4,5 vezes a superfície da Europa. Portanto, a população europeia é também muito mais una do que a africana.

  5. Pedro Manuel Cardoso (aliás SAP3i), por favor apiede-se de si próprio e pare de enviar comentários, inapropriados ainda por cima, pois eu apago-os – sem os ler e sem mais custo do que um mero “clic”.

    Luís Lavoura, ainda bem que tem um atlas em casa.

    “jo” leia antes de comentar. Se não percebe o texto não comente.

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