«O que leva uma pessoa a perder sequer uma noite da sua vida a tentar impedir que outros se casem? É para mim um absoluto mistério.» A dúvida exposta aqui no Arrastão é do Daniel Oliveira. «É que se trata de uma coisa rara: estamos a falar de um direito para uns que não afecta os direitos de mais ninguém» — diz ele ainda. «O que os faz correr?» Como já perceberam, o desabafo não é sobre casamentos heterossexuais.
Quanto à dúvida, não adianta ele fingir-se pouco esclarecido. É de valores que se trata, não é dos direitos de uns sobre os direitos de outros: para uns, vale a pena defender os valores que têm cultivado; para outros, é mais interessante experimentar novos valores de substituição. Os segundos estão disponíveis para conceitos imensamente abrangentes, ao passo que os primeiros não impedem ninguém de casar: apenas procuram conservar um conceito que acham modelar e que legitimamente muito prezam.
Ele não é ingénuo. Ele sabe que um tema fracturante provoca uma fractura natural, a divisão entre os-que-sim e os-que-não. Ele sabe que a gente sabe que ele sabe. Mas ele é muito fingido…

“O Daniel é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”
Só se for dor de consciência…
João, se o Daniel é fingidor, o João também o parece ser.
De que valores se trata? Valores religiosos? É, em 90% dos casos (para usar um número muito curto) o que leva as pessoas a oporem-se ao casamento entre homossexuais. Para estas pessoas, há contudo o casamento religioso o qual deve manter-se, e muito bem, fechado a quem não lhe partilhe os valores. Mas estamos a falar de casamento civil. E, nesse sentido, pergunto: quais são os valores que norteiam o Estado que a permissão de casamento entre pessoas do mesmo sexo viriam a derrubar?
Simples: o conceito de casamento (que é sempre civil, seja religioso ou não) é o consagrar laços de família entre duas pessoas de sexo diferente. Queira o João André ou não, trata-se de um valor com peso na sociedade e cuja alteração choca muito boa gente. A religião, presente ou ausente no juízo das pessoas, não é aqui chamada para a observação que fiz, por isso não a introduzi como factor relevante imediato.
Essa é uma noção tradicional, não mais. No passado ter-se-à dito o mesmo do casamento inter-racial. Seria entre duas pessoas de sexo diferente e da mesma raça. Noutras alturas exigia-se a virgindade, sendo a falta da mesma (apenas verificável nas mulheres, é evidente) razão para anular um casamento. Também se considerou no passado que o adultério seria crime, hoje em dia nem por isso.
Quer o João Carvalho o reconheça, quer não, a noção de moralidade em Portugal está directamente relacionada com a religião. Isto não tem mal em si mesmo, é uma consequência natural da história do país. Mas mesmo nesses aspectos, a moral evolui e vai-se modificando.
Se ainda há uns anos a homossexualidade em si seria criminalizada, porque razão haveria o casamento, sendo actualmente entre pessoas de sexo diferente, ser uma excepção.
E, já agora, porque carga de água tem o casamento forçosamente que ser entre duas pessoas de sexo diferente? Porque razão não pode ser entre duas pessoas do mesmo sexo?
As perguntas que me dirige, meu caro, estão respondidas por si mesmo. A moral comum,que constitui o conjunto de valores da sociedade, evolui. Ou melhor: costuma ir evoluindo. Paulatinamente. A sua alteração consciente e abrupta é que pode não ser pacífica, como se compreende. Daí que o tema seja fracturante e eu não ache isso espantoso.
De resto, é evidente que o conjunto de valores que prevalece tem uma base religiosa, como muito bem diz. Como sabe, a própria cultura ocidental em geral (e a europeia em particular) é de natureza sobremaneira cristã. O que não pode associar linearmente a prática religiosa a qualquer posição favorável ou desfavorável sobre a matéria em apreço.
Finalmente, por tudo isto me parece que coincidimos no essencial. A diferença está no facto de, pelo seu lado, ter por inaceitável a posição que se opõe à proposta em causa. Eu, como disse, considero essa posição natural; parecer-me-ia estranho que não houvesse uma oposição clara e que tenho por legítima. Por isso é que o assunto faz parte das matérias fracturantes, não é?
Deixe-me ainda lembrar-lhe, João André, que não fiz neste ‘post’ a defesa ou o ataque a qualquer das duas posições que dividem a sociedade. Tem de aceitar que me limitei aqui a considerar que a dúvida (?) exposta pelo Daniel Oliveira é falsa e não colhe. Apenas isso. Porque a discussão sobre as duas posições em confronto não cabem aqui: a minha tolerância permite-me aceitar e entender que ambas existam, mas os espaços para debatê-las não incluem este meu modesto ‘post’, de sentido diverso e objectivo sobre um detalhe.
João, eu não acho que seja estranho alguém opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. É, como diz, uma causa fracturante. Eu só não entendo a argumentação dos valores. Porque se são religiosos, embora sejam compreensíveis, não são reais, porque não se está a pedir o casamento religioso. Se não são valores religiosos (e já concordámos que a religião tem a sua natural influência, aqui fala-se de valores que não estão directamente imbuídos da religião), então não compreendo as objecções.
Eu compreendo que seja fracturante, quanto mais não seja porque as pessoas não estão habituadas. Acho que o argumento “do que é” é falso, porque preguiçoso. Mas compreendo que exista contudo. Só não sei porque é que se diz que Daniel Oliveira é fingidor. Racionalmente, não há realmente qualquer razão para tentar impedir esta medida.
Quanto ao resto, penso que a sua posição, de abertura às duas posições, é de louvar.
Abraço
Meu caro, se bem percebi há coisas que é melhor perguntar a quem tenha uma (e a outra) posição sólida, coisa que eu claramente não sei se tenho. Limito-me a aceitar que existam ambas e, mais do que isso, ficaria espantado que não existissem. Porquè? Precisamente porque é de valores que se trata, muito arreigados nas nossas sociedades e na moral colectiva, provenientes certamente da nossa cultura comum cristã, sejam as pessoas religiosas ou não.
Já sobre o Daniel Oliveira, que foi o motivo exclusivo deste meu ‘post’ como já disse e como se podia perceber logo à primeira, chamei-lhe «fingidor» porque foi o melhor que me ocorreu: ele finge que não entende a existência das duas posições (ou melhor: de uma delas) sobre este assunto, mas qualquer um de nós sabe que existem e tem isso por natural e esperado. Apenas lhe deu jeito fingir que não entendia para que o ‘post’ dele a que eu me refiro pudesse surtir efeito. Não tem muita importância e não merece este desgaste: só me apeteceu meter-me com ele, por ele ter preferido o caminho mais fácil, que é fazer-se desentendido.
Abraço.
Excelente João… é mesmo isso.