O homem que não gosta de referendos


Patrícia Reis,

 

É bom que os eleitores tenham a noção clara disto: Vital Moreira, o cabeça de lista do PS às europeias, é frontalmente contra a convocação de um referendo europeu. Em Junho de 2008, quando os irlandeses foram chamados às urnas para se pronunciar sobre o chamado Tratado de Lisboa, Vital Moreira apressou-se a clamar na Causa Nossa contra esta consulta popular. Considerando, de caminho, que o referido tratado é "um texto incompreensível para quase toda a gente", o que não parece nada lisonjeiro para os eurocratas que deram à luz este texto, em boa hora chumbado pela Irlanda. Quando se confirmou a vitória do ‘não’, logo sugeriu que Dublin devia ficar fora da União Europeia. E aproveitou para se demarcar por completo do seu ex-partido, o PCP, e do Bloco de Esquerda em matéria europeia, numa demonstração cabal de que é a personalidade menos indicada para atrair votos à esquerda do PS.

Nesta rejeição do referendo, curiosamente, Vital Moreira está em total desacordo com o Sócrates de 2005, que inscreveu a consulta europeia no programa eleitoral socialista: "No curto prazo, a prioridade do novo Governo será a de assegurar a ratificação do Tratado Constitucional. O PS entende que é necessário reforçar a legitimação democrática do processo de construção europeia, pelo que defende que a aprovação e ratificação do Tratado deva ser precedida de referendo popular". Está mais de acordo com o Sócrates de 2008, que rasgou a referida promessa, como ela nunca tivesse existido.

 

ADENDA: Vital Moreira foi contra o referendo irlandês, de 13 de Junho de 2008, que se saldou pela vitória do não. Mas aplaudiu o referendo espanhol à Constituição europeia, de 20 de Fevereiro de 2005, que deu vitória esmagadora ao sim. Dois pesos e duas medidas…

13 comentários em “O homem que não gosta de referendos”

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    1. Meu caro Joaquim: e eu confesso que não gosto de governos que rasgam promessas eleitorais, como fez o Governo Sócrates com a promessa de referendo europeu. O Vital Moreira de 2008, que foi contra o referendo na Irlanda, certamente aplaudiu. Mas o Vital Moreira de 2005, que foi a favor do referendo em Espanha, provavelmente não gostou.

  2. Pedro,

    O argumento de que os outros não podem ficar “reféns” parece-me absolutamente cretino. Primeiro, e acho que toda gente pensará o mesmo, se mais países tivessem convocado referendos, teria havido uma multiplicação de “nãos” por essa Europa fora.
    É um escândalo que se tente marginalizar/pressionar/intimidar um país só por que exerceu o seu direito democrático e legítimo. E é isto que se passa.
    Se as duas formas de ratificação são legítimas – como disse Sócrates para explicar a não convocação do referendo – então há que viver com as consequências. A simples sugestão de que a Irlanda ou diz sim ou está fora é a prova mais do que clara de que não se pretende uma UE próxima das pessoas.
    Pessoalmente, sou pelos referendos à Europa. A união até pode funcionar ao nível dos mercados só com o aval político dos representantes, mas não acredito que possa vir a ser uma verdadeira união política sem a “legitimação democrática do processo de construção europeia”, para usar as palavras do nosso PM !
    E, claro, está fora de questão parar para perceber as causas do distanciamento dos europeus em relação à UE – e isto, parece-me, vai muito além de analisar as razões pelas quais os irlandeses disseram que não ao Tratado de Lisboa.

    1. Inteiramente de acordo, Alexandra. Com a agravante, no caso de Vital Moreira, de ele ter sido contra o referendo na Irlanda quando tinha sido favorável ao referendo em Espanha. Só porque neste caso havia a certeza antecipada do ‘sim’. Bela noção de democracia…

      1. Provavelmente, Vital Moreira utilizaria, para se defender, o mesmo argumento de que uma coisa era a Constituição Europeia, outra ‘completamente diferente’ é o Tratado de Lisboa. É outra anedota!

  3. A deriva de Vital Moreira já vem de trás.
    Não lhe faltando inteligência, parece faltar-lhe
    intuição para a política.
    O risco de uma má votação também não está fora de casa.
    Cumprimentos

  4. O grande problema com Vital Moreira é que se convenceu das suas próprias capacidades intelectuais e julga por isso que consegue defender tanto uma coisa como o seu oposto.

    Ainda assim, deixo uma pergunta extra Pedro: como pode um homem que é, segundo a sua mais recente posição, contra um referendo europeu, querer ir a votos para um órgão que ele entende que não se deve intrometer no assunto?

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