O Inverno de um certo contentamento


Ana Cláudia Vicente,

Ontem à noite, pela hora de jantar, demorei-me uns minutos pela Fox News. Eu sei, eu sei – curiosidade mórbida. Ouvi o ministro de uma denominação não especificada declarar a uma espécie de pivot hiperactivo, sem sombra de hesitação, que a queda do Airbus da U.S. Airways no rio Hudson não foi outra coisa que uma operação Deus ex machina, uma mensagem directa sobre o favor votado pela transcendência aos Estados Unidos da América; não por acaso, absteve-se de analogias a propósito do comandante do avião. Seguiu-se-lhe, of all people, Karl Rove, numa rábula de assinalável desfaçatez contra o homem que acaba agora de  tomar posse da presidência dos Estados Unidos da América.

Segundo Rove, o reclamar da herança de Abraham Lincoln (1809-1865) por Barack Obama, simbolicamente marcada, entre outros gestos, pela viagem de comboio de Filadélfia a Washington e pelo juramento sobre a sua Bíblia, é "um acto de presunção". Como se o património de um líder passado fosse coutada do partido a que pertenceu, e não do seu país. Sim, Lincoln foi o primeiro presidente eleito pelo GOP. Mas o  200º aniversário do seu nascimento – o mesmo do de Charles Darwin (1809-1882), por curiosidade – comemorar-se-á no próximo dia 12 de Fevereiro, e é inevitável que um seu sucessor, qualquer que seja a sua proveniência,  reflicta sobre tal legado no momento em coloca o seu próprio projecto em movimento.

Como Lincoln, Obama corporiza a liderança da federação norte-americana num momento difícil. Ler as edições especiais de fim de ano da Time e/ou da Newsweek é tomar noção de um rol de desafios e expectativas (internas e externas) ciclópico. Mas é não menos contactar com um pragmatismo analítico distante de um America, the Greatest em estado de comprazimento ou ilusão. O tom é, antes, de pós-imperialismo desapaixonado, de acompanhamento dos processos de emergência da China, da Índia, do Brasil e do Irão, expectante em relação ao potencial discernimento de uma administração que, ao que tudo indica, valoriza mais que a anterior a tarimba dos que detêm conhecimento técnico, como também dos que têm feito carreira no serviço público.

Ao contrário do que os seus detractores nos querem fazer crer, não é à imagem de um rei taumaturgo  – como os que o malogrado e notável Marc Bloch (1886-1944) há 85 anos nos deu a conhecer – pronto a sarar por toque mágico as úlceras nacionais de raça, credo e  classe, que Obama se apresenta. O que se ouviu há pouco foi um cidadão que conhece bem a história do seu país, que se entende como fiel depositário do seu comando, e que  daquela colheu o essencial para enfrentar – nos seus termos, que a História nunca se repete – a gravidade do momento. Sem drama, sem prestidigitação.

12 comentários em “O Inverno de um certo contentamento”

      1. Talvez sim, Daniel; cá estaremos para ver e viver o modo como este tempo for gerido.

        Caro Pedro, chego muito atrasada e de fininho, uma vergonha 🙂 Obrigada, um abraço para ti e para os demais delituosos!

  1. Cláudia Vic!

    Vamos lá ver como é que a coisa corre.
    Será que Obama conseguirá mais do que simplesmente ser melhor do que Bush ? É que isso é fácil, assim como ter uma boa campanha eleitoral onde tudo se pode prometer. Ele não o fez, pelo menos tudo, tudo não. Se o fizesse rapidamente seria visto como demagogo ou mesmo lunático. Fez de facto uma boa campanha, inteligente, estruturada. Será que Obama presidente corresponderá à imagem (e conteúdo, ou suposto conteúdo…) de Obama candidato? A ver vamos.
    E não Cláudia não sou um detractor, apenas realista. Claro que o “realismo” em política deve ter uma dose de esperança, pois o mundo não pode parar por haver uma crise por mais grave que ela seja (o mesmo não pensarão os partidários de teses apocalípticas, mas manifestamente não sou um deles). Mas uma coisa é transmitir esperança outra é vender ilusões. Ele flutua, ora pisa um lado da fronteira ora pisa o outro. E como ela é ténue… Não sou velho do Restelo por um lado, e por outro não me deixei embarcar nesta onda (havaiana?) Obamanesca “. Sonhar não é difícil, até é bom e pode recomendar-se. Temos é de ter presente conscientemente (serei demasiado racionalista?) que a desilusão do sonho (e também do americano) é sempre uma possibilidade entre outras.

    1. André, como estás? Ttenho acompanhado recentemente a vossa Gazeta Lusitana, blogo-força nisso, pá. Pois que Obama pouco tem sorrido, desde a posse. O facto de não demarcar um campo ideológico estanque, a mim, como sabes, não me apoquenta. Aguardemos os próximos desenvolvimentos.

      Abraço!

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