
(créditos: AP Photo)
Em Portugal, aqui há anos, passámos pelo mesmo.
À direita e à esquerda, desencartados, indigentes, ignorantes, houve políticos que se quiseram fazer passar pelo que não eram. Do preenchimento das suas fichas de deputados na Assembleia da República, à aquisição fraudulenta de diplomas – com a conivência de alguns professores e universidades –, aos currículos em que por vezes surgiam menções do tipo “frequência de … ” qualquer coisa, gente sem habilitações, qualificações, mérito, ou outros conhecimentos que não fossem os da chico-espertice, das tramóias e das moscambilhas em que se especializaram nos partidos políticos, eram pomposa e enfatuadamente chamados de “doutor”. Havia até quem na assinatura de cartas e ofícios o escrevesse antes do nome, não fossem os destinatários pensar que não o fossem.
É claro que esses verdadeiros “doutores da mula ruça” nunca foram licenciados em coisa alguma, sendo que por extenso só mesmo a esperteza e a rasteirice das suas acções.
Desta vez, o caso surgiu em França e o protagonista é o jovem – tem 39 anos – Sébastien Lecornu, novo primeiro-ministro francês nomeado por Macron.
Pois bem, o jornal Mediapart descobriu que o dito, que tem sido ministro do Governo de França desde 2017, afirmava nos seus currículos que depois de ter efectuado os estudos secundários em Vernon (Eure), e obter um “bac économique et social (ES)“, que constitui um diploma que marca o fim do ensino secundário e habilita o seu titular para a prossecução de estudos superiores, o antigo ministro acrescentou possuir uma licenciatura em direito pela Universidade de Paris II-Assas e ter um mestrado em direito público da Universidade de Paris II Panthéon-Assas.
Descobriu-se agora que desde 2016 andou a aldrabar o currículo, e nunca obteve qualquer mestrado em direito público.
Apanhado em flagrante, o site 20 Minutes revelou que se apressou a mudar a sua biografia na página oficial. De titular de um diploma passou apenas a “estudos de direito”. A tal frequência, ao que parece apenas do primeiro ano.
Quando um tipo se predispõe a mentir, querendo mostrar os galões que não possui, recorrendo a vias tão canhestras, como se não houvesse outras pessoas que tivessem efectivamente frequentado as mesmas escolas e obtido diplomas reais, e não fictícios, revela a sua pequenez, a sua mediocridade, e fica-se com a certeza de que gente desta pode servir para muita coisa mas para o serviço público é que não serve mesmo.
E tanto faz ser em Portugal como em França. Quando a matéria-prima não presta não se pode esperar grande coisa do resultado final.

Embora o grau de doutor disto ou daquilo não constitua por si mesmo um mérito para o desempenho de um cargo, e abundam em demasia os doutorados que passaram e passam pelos nossos governos e não valem um chavo, nem quiseram/querem dar-se ao trabalho de honrar o cargo facto que decerto aconteceu também em governos estrangeiros. O certo é que tem razão, mentir no curriculum indicia a corrupção a que o mentiroso não se esquiva.
É verdade que todos mentimos nisto ou naquilo. Mas há uma honestidade a preservar em quem exerce cargos públicos. E as mentiras não têm todas igual natureza e qualidade.
Bom dia
Confesso que fico perplexo com esta notícia, mas na França de Macron já nada me espanta, desde a cena entre o Presidente e a esposa no avião que ficou registada para a posteridade pelas câmeras de televisão, até esta notícia do curriculum do novo Primeiro-Ministro, resta-me esperar pelo próximo capítulo das “aventuras” de Emmanuell Macron, depois das famosas viagens de mota nocturnas de François Hollande.
Os melhoes cumprimentos.
Subscrevo inteiramente este texto de Sérgio de Almeida Correia. Cheio de verdades, do princípio ao fim…
Haverá por aí muitos “Doutores e Engenheiros” com credenciais duvidosas, mas, com certeza, extasiadíssimos perante um Dr. ou um Eng. escarrapachado antes do nome próprio… Haverá também por aí muitas limitações cognitivas, nem sempre diagnosticadas…
Sim, há políticos a mentir sobre o currículo. Sim, há tipos que escrevem “frequência de…” como quem passa de raspão por um curso e sai de lá com doutoramento em esperteza. Mas o que se nota aqui é menos o espanto pelo aldrabão francês e mais o prazer quase nostálgico de listar os aldrabões nacionais. Uma espécie de álbum de cromos da chico-espertice lusa, que começa sempre na Assembleia e acaba invariavelmente no “doutor” escrito em negrito.
O caso Lecornu é apenas o pretexto. O alvo real é o velho ressentimento contra uma certa elite partidária que se auto-inventa com diplomas imaginários — e a crítica, embora justa, vem embrulhada num tom tão carregado de virtude que quase nos esquecemos que o problema é estrutural, e não exclusivo dos idiotas com canudo falso.
No fundo, o texto é um espelho: reflete um país onde se escreve mais sobre aldrabices do que se limpa o sistema que as permite.
Fica a dúvida: estamos a apontar o dedo ao aldrabão… ou só a tentar garantir que não nos confundem com ele?
Quer dizer , além de “cornu”… “aldrabon” ( isto de saber línguas é muito bonito…) .
JSP
E Lecornu foi o Ministro da Defesa, não caiu de pára quedas.