Estou há oito dias sem frigorífico. Desde que reportei a avaria, a marca e a loja onde o comprei jogam ao ping pong e eu a ver. De cada vez que lhes telefono, a pressionar, acolhem-me com a polidez estandardizada que o controlo de qualidade do atendimento lhes exige (a cada chamada uma gravação informa-me que a conversa será registada) mas desse código verbal escapam pausas e evasivas bem mais eloquentes, que me indicam com rigor que a única pessoa que está verdadeiramente interessada em resolver a situação sou eu. Já telefonei para o Instituto de Defesa do Consumidor e pouco posso fazer senão esperar, calmamente, que a burocracia, a inépcia e o desinteresse desatem este nó, pequeno mas intrusivo, pois estar oito dias sem frigorífico é um transtorno.
Já tive de deitar fora iogurtes, leite, peixe, carne, embalagens de natas e de maionese. Quem paga o prejuízo? Eu. O Instituto de Defesa do Consumidor disse-me que para exigir indemnização teria de ter guardado o talão do supermercado. Mas mesmo que tivesse o hábito de guardar talões de supermercado nada – disseram-me no Instituto – me garantia que a empresa me pagasse, porque “os gabinetes de mediação não têm poder para obrigar as empresas a pagar esses danos”.
Por lei, fiquei a saber, a empresa tem 30 dias para me resolver o problema, portanto bem posso esperar sentada. E enquanto espero, especulo sobre a funcionalidade deste país que tão bem protege a incompetência. Um país onde ainda há poucos anos levar com um empregado de café mal encarado ou uma balconista com ar de enjoada era banal, mas que entretanto evoluiu para esta eficiência de fachada. Cujas mesuras e sorrisos me fazem, estranhamente, suspirar pela rudeza parola mas genuína de outros tempos.


Presumo que não compraste o frigorífico numa certa loja de telemóveis que foi muito badalada ainda recentemente. Quando quiseres, vamos a isso.
Melhor não, João. Dessa loja de telemóveis para mim é mais bolos.
E os nomes? Da marca e da loja? Isso é que era 🙂
Jonas, se não identifiquei loja e marca é porque a minha experiência como consumidora indica-me que o seu modus operandi corresponde ao da maioria das empresas. Mas claro, conforme o caso evolua assim poderei considerá-lo digno de um tratamento mais… personalizado.
Um transtorno, não há dúvida. A eficiência de fachada é mesmo enervante, mostram-se muito compreensivos, mas não nos resolvem os problemas.
Já agora, uma sugestão: não sei como estão as temperaturas por aí, no momento. Mas, se não passarem os 10 graus, pode pôr os produtos na varanda. Por aqui, continua a fazer mais frio na rua do que dentro do frigorífico…
Felizmente não estamos no Verão, se não o meu prejuízo tinha sido ainda maior. Mas nada de dez graus na varanda, Cristina. Nestes últimos dias têm feito por cá temperaturas de Primavera.
Apesar de, no momento, não lhe dar jeito temperaturas um pouco altas, roo-me de inveja…
Deixa descongelar o mau feitio, Teresa, e vai-te a eles.
🙂
Fui-me, com a raiva descongelada, ao Instituto de Defesa do Consumidor para saber o que podia fazer e o que apurei é que… nada, como escrevi no post. A menos que entretanto passe um mês (que o diabo seja cego, surdo e mudo!)
Na Holanda tive o congelador e o frigorífico a funcionar a (menos de) meio gás por semana e meia. Valeu que a temperatura do congelador estava nos 4 ºC (a do frigorífico) e pude usá-lo como tal. Ainda assim toda a carne, peixe ou outras coisas que lá tinha foi para o lixo. Pior, quando lá foi um técnico, explicou-me que não podia fazer nada e que precisava de uma peça que era preciso encomendar (eu esperaria que um técnico que fosse ver um frigorífico levasse variadas peças com ele, mas isso devo ser eu). Mais uns dias se passaram (com tudo desligado desta vez, porque não poderia ter nenhum gelo no congelador) e finalmente lá tive o frigorífico a funcionar de novo. Vá lá que, sendo a Holanda, pude colocar algumas coisas na varanda no frigorífico da Natureza (nesses dias a temperatura andou entre os 0 e os 6 graus). Doutra forma estaria tudo estragado.
Isto num país dito “avançado” (práfrentex, não é?)
Na Holanda também é assim?! Quem diria que afinal não estamos tão sós como às vezes supomos…
Orgulhosamente acompanhados.