O meu 25 de Abril


Cristina Ferreira de Almeida,

Confesso que não me lembro bem de como era a vida antes do 25 de Abril. Lembro-me dos padres operários que iam lá  a casa, do disco do Zeca Afonso que o meu pai ouvia baixinho, dos sussurros sobre o padre Alberto, que tinha sido preso porque tinha armas debaixo da cama. Lembro-me que não fui à escola num dia que não era feriado, já íamos a sair quando a porteira sussurrou qualquer coisa ao meu pai e voltámos para casa. Ouvimos rádio todo o dia, mas eu não percebi nada. No dia seguinte voltei à escola e a oração da manhã tinha passado a incluir um pedido de atenção a Nossa Senhora para este "nosso Portugal". Não percebi nada. O meu catequista deixou crescer o cabelo e a barba, cantávamos "toco-te e respiras" na missa das sete de Santa Isabel e o catequista, agora cabeludo, pedia assinaturas para a legalização do PSR. Alguns padres continuaram a ir lá a casa mas falavam de outros países, davam missa na sala de jantar, repartiam carcaças e vinho tinto entre os presentes e, percebi mais tarde pelos sussurros, acabaram por casar-se. O meu tio Manuel voltou da Suiça, onde tinha estudado num seminário, e foi dar aulas de História Económica e Social na Universidade Clássica, até ser saneado porque tinha entrevistado Marcelo Caetano em Paris. O 25 de Abril teve a  turbulência que tem sempre a infância, pensava eu. Só muito tempo depois percebi que nem todas as infâncias têm um 25 de Abril. Só muito tempo depois percebi que estava a espreitar pela porta das traseiras da igreja católica, através do chamado catolicismo progressista. Tive mesmo sorte, acho eu agora.

22 comentários em “O meu 25 de Abril”

    1. Obrigada, Pedro. O problema é arrumar a memória e não maçar os outros com os nossos retratos de família. Mas o que já estudei sobre este assunto faz-me pensar que os católicos progressistas, e figuras desarmantes como o padre Felicidade Alves, entre outros, tiveram um peso maior na queda do regime do que o que lhes é atribuído.

  1. Também gostei muito, Cristina. E lembrou-me do que foi o meu 25 de Abril, acho que ainda mais alheado da realidade (e eu já tinha mais uns aninhos). Talvez ponha aqui também essas memórias, sem querer maçar muito o transeunte…

  2. Era um garoto, quando se deu o 25 Abril e eu na minha inocência, pouco entendia do que se estava a passar. Sentia só, que as pessoas principalmente os homens andavam excitados, não paravam, deambulavam por todo o lado, juntando-se em grupos, sempre a manifestar-se ruidosamente e alegremente. Mais tarde vim a perceber que toda essa alegria era inteiramente justificada, pondo fim a longos anos de repressão da liberdade.
    Mas na altura que se deu o 25 Abril, estava no largo brincando com os restantes colegas de botas reforçadas e de calças remendadas. E um ruído de alegria entrou no meu pequenino cérebro que ainda hoje lá se encontra armazenado e pela altura da comemoração da Revolução revejo como se fosse hoje, as vizinhas virem para a rua a gritar, que estavam os canhões a entrar por Lisboa a dentro, para matar os fascistas!

      1. É que casos como o dele, de pessoas que nada tinham que ver com o antigo regime e foram saneadas à má-fila, houve mais que muitos.

  3. O ’25 de Abril’ apanhou-ne na Guiné. Sinto-me recompensado por saber que apanhou a Cristina no momento certo para que guardasse memórias hoje traduzíveis do modo que as recebemos aqui.
    Parabéns, Cristina. Nem todos saberiam traduzi-las assim. E obrigado por partilhares estas tuas memórias.

      1. Sem história, Cristina. Eu ‘trabalhava’ num comando de batalhão, em «operações e informações», e parecia haver alguma coisa no ar, nas vésperas, mas nada de concreto. A partir da vitória da Revolução, as expectativas centraram-se no fim da guerra e no regresso.

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