Patricia Highsmith, através de uma das suas personagens, descreve o que para simplificar se pode designar como o principal problema dos diários. Em Inocência Perversa, uma das suas obras mais aclamadas, lê-se: Há certos pormenores que mesmo aqueles que habitualmente anotam tudo no diário evitam pôr por escrito, pelo menos na altura em que os acontecimentos ocorrem: fraquezas, excentricidades, fantasias, vergonhas, pequenas mentiras intenções egoístas, levadas a cabo ou não, coisas que, aliás, demonstram o verdadeiro carácter de um indivíduo.
A matéria dos diários, supostamente limitada aos rigores factuais do quotidiano, acaba por resultar numa narrativa com mais buracos que um queijo suiço. Ninguém é tão honesto que aceite anotar as suas falhas de carácter ainda que para consumo próprio. Os episódios mais embaraçosos acabam omitidos ou distorcidos. Daí a minha preferência pelas autobiografias, documentos só teoricamente menos fiáveis e de leitura muito mais apelativa
Na minha estante ainda arrefece a última obra autobiográfica que li. Trata-se de O Mundo, de Juan José Millás, distinguido em Espanha com o Prémio Nacional de Narrativa 2008 e Prémio Planeta 2007. Em pós-título lê-se: O mundo é a rua da tua infância. Na contracapa explica-se que esta obra não estava nos planos do autor: Há livros que fazem parte de um plano e livros que tal como um carro que passa um semáforo encarnado, se atravessam violentamente na nossa existência. Este é um dos que passam o semáforo. Encomendaram-me uma reportagem sobre mim próprio e por isso comecei a seguir-me e a estudar os meus hábitos (…) Não fui capaz de fazer a reportagem acabava de ser atropelado por um romance.
Só promessas. Primeiro a da possível identificação com as dores de infância do autor, depois a de uma razoável autenticidade, já que a obra não foi planeada.
Tenho particular fascínio por infâncias. Os tesouros e misérias dos primeiros anos não são mais que peças de Lego coloridas, indestrutíveis e prontas a montar. Na descrição que faz da sua infância, Millás é generoso. Partilha até os traumas que segundo confessa teve que resolver, anos depois, no sofá do psicanalista: Pouco depois de nascer o meu irmão mais novo, estava eu um dia a ver como a minha mãe lhe dava de mamar, quando ela se virou para mim e me ofereceu o mamilo.
– Também queres? – disse ela.
Fiquei espantado. Tinha uns oito ou nove anos. Acho que saí do quarto a correr. (Mais tarde) apaguei-o. Não só o mamilo da minha mãe, mas todos os outros. Quando via um decote no cinema imaginava como era o seio inteiro, claro. Mas sem o mamilo. Cheguei a acreditar que os seios das mulheres eram completamente lisos. Um dia, vendo uma revista pornográfica, com dois amigos, tive um ataque de pânico quando descobri o mamilo. Pensava que uma coisa tão brutal, tão biológica, não podia fazer parte do desenho original do seio.
Não sei se foi por não ter planeado esta obra que Millás conseguiu retratar-se assim. Certamente deverá à psicanálise a leitura freudiana que faz deste e de outros episódios da sua infância, assim como a convicção de que são os primeiros anos que determinam os adultos que vamos ser.
A verdade é que ao deixar-se "atropelar" por este romance autobiográfico arrasta-nos com ele e quase nos mata de prazer, tal é a graça com que se desvenda. Seria possível, através de um diário, que é escrito no presente, alguém oferecer-se assim aos leitores?

Interessante. Tenho um fascínio por diários, autobiografias, etc. Mas não acha que é um género literário que reserva surpresas? (os casos literários que mais prendem vêm às vezes de quem menos se espera, e a inversa tb !). Não admira, aqueles que a história eternizou nem sempre foram os seres humanos mais edificantes…
A reflexão da Patricia Highsmith até tem a sua graça, sobretudo porque um dos traços atractivos dos livros dela é exactamente o enfoque que dá aos pensamentos da personagem principal. Tudo muito genuíno, cru e realista.
Chocante. Não é raro que um pensamento terrível flua a par de um gesto maquinal, descrito até ao detalhe.,Às vezes desumano (como as pessoas podem ser tb ).
Acho que a avaliação de Highsmith é muito certeira, no entanto por coincidência ainda hoje li no Expresso que a biografia agora lançada de Paulo Coelho é toda baseada em material escaldante retirado, precisamente, dos seus diários… Enfim, mas ao que consta esse Paulo Coelho terá uma personalidade muito peculiar. Acredito que não é regra, mas sim excepção registar com precisão certos comportamentos.
Também sou fã de biografias e autobiografias. De diários não. Em quase 50 anos de vida nunca conheci ninguém 100% honesto consigo próprio. E creio que não descobrirei, mesmo vivendo outros 50. E acho normal que não descubra, é que o ser humano é isso mesmo um ser… humano. Gostei deste post, Teresa. 🙂
É isso, Mike. Além de que as autobiografias oferecem uma leitura bem mais estimulante.
Gosto de livros de memórias, de diários, de biografias e autobiografias. Quase diria que sou coleccionador destes géneros literários. Gostei muito deste teu texto, Teresa. E também recomendo este excelente romance do Millás, um dos grandes escritores espanhóis da actualidade. Ele e o Manuel Vicent, o Antonio Muñoz Molina, a Rosa Montero, a Maruja Torres e o Juan Marsé.
Gosto muito de todos esses autores que enumeraste, à excepção de Manuel Vicent e Juan Marsé que ainda não li. Estou cada vez mais cliente de autores espanhóis.
A Dom Quixote – entre outras editoras – está a divulgar, e muito bem, os autores contemporâneos espanhóis que durante anos não encontrámos no mercado editorial português. E com excelentes traduções. A ficção espanhola está numa fase de grande criatividade. É pena não ser mais lida entre nós, enquanto qualquer americano de terceira categoria tem logo grande projecção por cá.
E já agora o Javier Marías..
Sem dúvida. E também a Carmen Posadas.