O comunismo começou a cair há exactamente 48 anos, quando Moscovo mandou erguer em Berlim o Muro da Vergonha, com mais de 140km de extensão, destinado a evitar a sangria contínua de alemães do Leste para a então cidade sitiada no Ocidente, ilha capitalista num mar ‘socialista’: três milhões e meio haviam já passado a fronteira, número correspondente a 20 por cento do total de habitantes da República ‘Democrática’ Alemã. Mas nem mesmo o Muro evitaria por completo que os berlinenses orientais continuassem a fugir de uma sociedade concentracionária, tão bem retratada no filme A Vida dos Outros. Muitos pagaram com a própria vida a ousadia de procurarem a liberdade – por vezes com um tiro traiçoeiro disparado pelas costas. O Muro deu origem a muitas tragédias que jamais se apagarão da memória colectiva.
O mais demolidor retrato do comunismo soviético imposto pela força bruta em Berlim durante 44 anos é o daquele soldado que também participava na construção do Muro e que no último instante escapa à barreira – e ao possível disparo das armas dos camaradas – para escapar ele próprio rumo ao Ocidente, imortalizado pela objectiva de Peter Leibing. Eis um daqueles casos em que uma imagem falou mais e melhor que mil palavras.
Um sistema que precisava de construir uma barreira de betão rodeada de arame farpado electrificado e guardado por militares armados até aos dentes para evitar que os seus próprios habitantes fugissem em direcção ao sistema ‘inimigo’, com risco da própria vida, estava antecipadamente condenado ao fracasso. Foi esta lição de história que tão eloquentemente o Muro da Vergonha nos deixou.


Pedro:
Excelente “post”.
Este muro foi a maior vergonha do pós guerra na Europa, e é bom que nunca nos esquecamos que ele existiu e foi real neste mundo de hoje em dia em que o virtual se vai sobrepondo cada vez mais.
Choca-me ver actualmente pessoas que ainda o defendem ou transportam-no para outros locais (ver na Palestina a cópia).
Pior do que este muro da vergonha é também a construção de “certos muros” em algumas democracias, especialmente quando tentam cercear a liberdade de expressão porque a clique dirigente não gosta do que se diz ou como se faz, temos de denunciar estes tipos de muros que infelizmente vão nascendo por aí incluindo nesse rol o nosso país.
Parabéns pelo post e acima de tudo pela denúncia.
Exactamente, Carlos. Reais ou virtuais, todos eles são tão vergonhosos como o da Vergonha. A lição que ficou para a História, como tantos outros exemplos, nem sempre tem sido útil como era suposto.
Belíssimo filme
Sem dúvida, Hugo. Elegi-o já como um dos melhores filmes da década e creio que não haverá outro que me faça mudar de opinião.
Ia comentar, mas o Carlos Dias Ferreira já disse tudo o que eu tinha para dizer. É bom que não ignoremos outros muros que se vão construindo pelo mundo. 008/01/conversas-com-o-papalagui-16.html
Como este :
http://cronicasdorochedo.blogspot.com/2
Sem dúvida, Carlos.
Pedro, a foto do soldado que participava na construção do muro e que escapou no último instante, é antológica. Por qualquer razão não vi a Vida dos Outros, o que é imperdoável porque gosto imenso do cinema alemão. Em tempos idos fiquei alerta para os métodos e toda aquela loucura com o livro do John le Carre e o filme Martin Ritt com Richard Burton , o Espião que veio do Frio. Está lá tudo.
Livro e filme elucidativos, sem dúvida.
Subscrevo.
Eu, por mim, não tenho dúvidas que o Muro de Berlim foi uma tragédia do Século XX.
Mas considero profundamente desonestas duas coisas: uma é esquecer o contexto histórico, político e geográfico desse problema; e outra é esquecer e perdoar todos os outros muros.
Para o caso de Pedro Correia estar disposto a ir mais longe na consideração desta questão, importa-se de responder às seguintes perguntas:
– sabe que a Coreia do Sul está separada da Coreia do Norte por um larguíssimo muro de betão à largura de todo o paralelo 31, fortificado e armado até aos dentes e sabe porventura a quem pertenceu a iniciativa de o construir ?
– conhece o muro (e as centenas de vítimas que tem causado) que existe em centenas de quilómetros de fronteira entre os EUA e o México (ver, por exemplo, um fotografia aqui em http://stephenleahy.net/2008/01/28/usbor der-wall-condemns-americas-last-jaguars-t o-extinction/ ) e sabe que há mesmo uma cidade – Serena – que está dividida ao meio entre os EUA e o México por uma barreira electrificada colocada pelos americanos ?
– se, por acaso da história, metade de Nova Iorque fosse um enclave mexicano dentro do território dos EUA que coisa suporia o Pedro Correia que existiria a separar as duas partes ?.
Estamos de acordo no essencial. Desde logo, também não tenho dúvidas de que o Muro de Berlim foi uma tragédia do século XX.
Caro Sr.,
O Muro da Coreia foi construído para conter as iniciativas Norte-Coreanas. Infelizmente o desenvolvimento dos Misseis vão torna-lo desnecessário e pode V. Exa. ficar descansado que aquele exemplo de democracia poderá enfim ultrapassar esta questão.
Esqueceu-se V. Exa. da natural comparação do Mar Mediterrâneo ao muro mexicano tendo também V. Exa. olvidado a realidade das migrações dentro da União Soviética. Sem muros mas como muitos kms de carril férreo…
Esqueceu-se também de mencionar os muros da fronteiro Sino-Soviética que foram incapazes de suster alguns pontuais conflitos ou do muro que não impediu a invasão de Cuba pelos Americanos – perdão – da Florida pelos Cubanos, entre outros.
Aqui mais perto olvidou-se V. Exa da excelente integração dos Bairros Sociais habitados por maioria Africana em Autarquias em mãos do PCP desde sempre…Há é verdade, não tem muro…
Pedro Correia
Felizmente para si o muro entre os Estados Unidos e o México é o muro da felicidade.
E o muro na Palestina construído pelos judeus, é o da paz celestial.
O outro é que era o muro da vergonha.
Tenha vergonha.
jojoratazana
Vinte anos depois, ainda há quem defenda o Muro de Berlim. São poucos, mas ainda vão aparecendo. Parabéns, você é um espécime cada vez mais raro.
Acerca do Comunismo escrevi no meu blog um pequeno texto que convido a ler:
http://www.politicamente-falando.blogsp ot.com/
Agradeço-lhe a dica. Abraço.
Deixo aqui a sugestão de um livro sobre o tema:
Queda do Muro de Berlim e a Presentificação da História
Flávia Bancher
Mais do que simples sucessão de fatos, A Queda do Muro de Berlim preocupa-se em buscar a compreensão do momento histórico e o que ele representou na vida das pessoas. Além de apresentá-lo de forma viva e pulsante, com texto e imagens da queda do muro, a perplexidade e a euforia da população, o livro concretiza o projeto da autora de pesquisar um grande acontecimento histórico, símbolo da intolerância das guerras e da capacidade humana de segregar, vigiar e punir.
Ana: já anotada a sua sugestão. Que agradeço.
Parabéns pelo post. Não desista de denunciar estes ‘autênticos democratas’ que tanto beneficiam do politicamente correcto na nossa comunicação social.
Claro que aparece sempre quem não queira pensar pela sua cabeça e que relativize: então só estes é que são maus?
Que leiam e tirem conclusões.
Têm muito que ler, escrito por quem sabe e os conhece por dentro: CP&Submit=OK
http://agualisa6.blogs.sapo.pt/search?q=P
Não desisto, Odete. Fique descansada. Esse blogue que menciona é um dos meus favoritos. Sempre.
o maior monumento de todos os tempos a seguir a Auschwits no que diz respeito à tortura e opressão dos povos.
assim como o campo polaco esse muro nunca deveria ter sido totalmente destruído para que daqui a 1000 anos se soubesse que a tirania nunca compensará.
acho que fui feliz na escolha que fiz para simbolizar o meu blog.
abraço, meu caro.
Abraço, meu caro. E obrigado pelas tuas palavras.
Tenho mesmo muita pena que o Pedro Correia tenha resolvido passar ao lado da terceira pergunta concreta que lhe fiz e que era a que mais iluminaria as circunstâncias históricas da construção do Muro em Berlim (Pedro Correia não conhece uma célebre foto de antes do Muro em que um tanque Sherman dos EUA está 30 metros adiantado em relação à linha de demarcação ?).
Por isso, repito a pergunta outra vez: «se, por acaso da história, metade de Nova Iorque fosse um enclave mexicano dentro do território dos EUA que coisa suporia o Pedro Correia que existiria a separar as duas partes da cidade ?.
Lamento, mas nisso não estou nada de acordo consigo. É totalmente especulativo e sem fundamento: com franqueza acha mesmo que a cultura norte-americana não propicia a integração? Podemos acusá-los de muita coisa mas não disso. O exemplo aliás é mal escolhido: Nova Iorque é uma das cidades mais integradoras do planeta, que acolhe gente oriunda de todas as partes do mundo. Não por acaso, foi escolhida para sede da ONU. Também não foi por acaso que se tornou o alvo principal dos terroristas no 11 de Setembro: eles odeiam todos os símbolos de integração cultural.
Desculpe Pedro Correia os termos mas, às vezes, o senhor parece fazer-se de parvo.
Na verdade, a que propósito vem toda essa conversa da «integração» quando eu estava aplicar a Nova Iorque a situação de Berlim, ou seja em que uma parte da cidade está situada e rodeada por outro Estado – então a RDA e encravada no território de outro Estado.
Eu não estava a falar de mexicanos em Nova Iorque. Estava a a falar de metade de Nova Iorque ser território legitimo da República do México e a outra metade estar integrada nos Estados Unidos.
Custa-lhe assim tanto admitir que se há centenas de quilómetros de Muro no Texas e na California a marcar a fronteira com o México, se há uma cidade – repito Serena – dividida por uma barreira electrificada, então é mais que certo que haveria um muro entre as duas partes de Nova Iorque ?
Às vezes, chego a desconfiar que o Pedro Correia não conhece bem a geografia da questão de Berlim.
Repito: historicamente o muro foi uma tragédia como muitas outras que a história regista. MAS, POR MUITO QUE CUSTE A ALGUNS RECONHECÊ-LO, com ele acabaram «as crises de Berlim» e as constantes tensões e iminências registadas antes de um conflito bélico na Europa.
Você chama-me parvo a mim, o que é um argumento característico de quem se sente cheio de razão, mas mesmo sem lhe devolver o amável qualificativo insisto que o cenário que elabora não faz qualquer sentido. Compara um hipotético enclave mexicano em território dos EUA com a divisão artificialíssima de Berlim, onde havia alemães de um e do outro lado da fronteira. O muro estabeleceu uma linha tão artifical que mal o poder comunista ruiu aquele medonho bloco de betão veio também abaixo e a população reunificou-se antes de qualquer decisão política formal nessa matéria. Eram todos alemães antes, são todos alemães desde então. Nada os divide: nem a língua nem a cultura, nem a etnia. O que acentua ainda mais o absurdo dessa «tragédia» (palavras suas, que subscrevo) que perdurou tempo de mais, entre 1961 e 1989.
A fechar : o Pedro Correia prefere pôr o acento tónico de que, no caso de Berlim, uns e outros eram alemães.
E, por essa via, soterra a evidência histórica de que. goste-se ou não, se tinham constituido dois ESTADOS INDEPENDENTES E DISTINTOS (e internacionalmente reconhecidos) no antigo território do III Reich derrotado.
E, neste âmbito, talvez o Pedro Correia nos possa explicar qual desses Estados foi unilateralmente criado primeiro, matando nessa época a hipótese de reunificação que até historiadores insuspeitos dizem ter sido a preferência de Staline.
E Pedro Correia parece esquecer o contexto da «guerra fria» (melhor dizendo, sempre à beira de uma guerra termonuclear) e por isso jamais poderá compreender que os dirigentes da RDA ou os soviéticos não achassem nenhuma graça à livre circulação dos serviços secretos ocidentais por todo o território da RDA num tempo (que só acabou há um ano ou dois) em que qualquer pedido de visto para ir aos EUA exigia a resposta uma pergunta sobre a pertença ou simpatia por organizações comunistas.
Tanta conversa, durante tanto tempo, para acabar afinal a justificar a política sovieto-estalinista relativamente a Berlim e as acções do governo-fantoche da RDA. Fiquei elucidado.
No final de Maio de 1990 fui a Berlin. Mal cheguei fui ao Muro que já tinha caído, apesar da Alemanha ainda continuar dividida e de haver duas moedas e tudo… Trouxe um bocado desse muro que eu própria cortei com material que estava lá à disposição. Simbolismos…
:)))
Um simbolismo que bem vale a pena guardar, Maria do Sol. Eu teria feito o mesmo. Para que nunca nos esqueçamos desta ferida que esteve quase 30 anos aberta no coração da Europa.
Sr. Pedro Correia. Acorde.
Esse muro já não existe há muitos anos.
Existem os que os cegos como o Sr. não vêem .
Mas esses não comentam.
Por aqui me fico pois não estou para perder o meu tempo em contraditório com pessoas da sua estirpe.
jojoratazana por viver no meio de tantos ratos.
Sr. J. Ratazana, o problema não é este muro que já não existe, são os muros que persistem nas cabecinhas que andaram durante décadas a celebrá-lo.
Os meus cumprimentos.
Berlim é uma das cidades mais fascinantes que conheço, com e sem Muro. Passam este ano 20 anos da queda do Muro, a 9 de Novembro. Berlim era onde gostaria de estar nessa data tão importamte para a Europa e para o mundo.
Também eu. Estive pela primeira vez em Berlim em 1983, época áurea do Muro, com Honecker na RDA e Andropov em Moscovo. Era arrepiante ver aquilo: tudo pintado e cheio de grafitti do lado ocidental, imaculado e cheio de arame farpado electrificado do lado oriental. Atravessar essa fronteira de Berlim foi a minha primeira experiência de ‘socialismo real’. Ficou-me para sempre na memória. Serviu-me para sempre de lição.
Que curioso, Pedro. Eu estive em Berlim (Ocidental e Oriental) em 1981. Foi uma das viagens mais marcantes da minha vida, marcou-me para sempre e ainda hoje regresso a ela. Para uma adolescente Berlim constituía um mundo desconhecido e fascinante, especialmente Berlim Ocidental. Voltei a Berlim três vezes depois dessa, uma após a queda do Muro, talvez em 1991 ou 1992, outra em 1993 e o ano passado, exactamente há um ano. Estava lá por esta altura.
Coincidência: a minha primeira visita a Berlim, então capital internacional da Guerra Fria, marcou-me também para sempre, Leonor. Ainda há pouco estive a rever fotos dessa viagem, com o Muro em fundo. Um dia destes falarei disso. E de muitas outras viagens que fiz. Acho que daria um livro. Ou talvez dois.