Abeirou-se do menu que se encontrava exposto na rua levado pelas três acompanhantes A avaliar pela atenção distraída que dispensavam à ementa elas eram, certamente, habituées do restaurante. Ele, também não restavam dúvidas, um estreante.
Da minha mesa solitária pude ver o desconsolo estampar-se-lhe no rosto: beringelas panadas com arroz integral? Hamburgueres de ceitan? Com tantas cervejarias e restaurantes genuínos ali perto e ele no planeta alface, rodeado por três estranhas comedoras de sementes de sésamo.
Os homens, os nossos descendentes de marinheiros, são os que dão sustento à infinidade de pequenos restaurantes sem história, onde pratos afrancesados e misturas exóticas não entram.
Amantes de bifes à casa e escalopes com arroz e salada, quanto mais previsível é um cardápio mais depressa salivam. É vê-los, sempre em maioria, aos balcões das cervejarias onde o prato mais ousado é uma alheira com grelos, e aos magotes a atacar uma honesta travessa de costoletas à salsicheiro nas tascas do Zé, a tresandar a cebola frita, que enchem as ruas da cidade.
Se levam uma senhora a jantar, condescendem e escolhem locais com guardanapos de pano e alcatifa, mas trata-se já de uma opção social, nada que se compare à genuína degustação de carnes vermelhas a que se entregam quando estão sozinhos e o objectivo é comer bem.
Divertidas, elas chilreavam à sua volta, numa alegria primaveril, enquanto o viam debicar o prato, sem o menor entusiasmo. No vegetariano era o único menino.


Pobre rapaz. A mim não me apanhavam nesse caldo, que eu não sou boa companhia de barriga vazia 🙂
Estou consigo !! Antes umas costoletinhas de borrego panadas ou uns ovos mexidos com espargos bravos,ali para os lados de Elvas,em S.Vicente, no Pompílio…(passe a publicidade). Ou uns bifes de touro no seu molho ou magusto com bacalhau assado, no Quinzena, lá na minha Santarém…coisitas leves e dietéticas, ora bem…
O anónimo do “Pompílio” sou eu, Fernando Antolin !!
O raio do tvbrinca está com a cangocha !!
essas costoletinhas caíam-me muito bem, ó se caíam.
Mi cocina y restaurantes son suyos, Srª !!!
Caro Fernando: a Taberna do Quinzena é o meu restaurante favorito de Santarém e um dos meus preferidos em todo o País. Há pouco fui lá comer um fabuloso galo de cabidela: refeição inesquecível.
Ainda não almocei. Com a fome que tenho já marchava uma alcachofra com feijão frade ou uma salada de agrião com três azeitonas ou até um bife de tofu, seja lá o que isso for.
Ó Pedro, mas não deve ser assim tão difícil encontrar bifanas decentes em Lisboa 🙂
“Bifanas decentes” – aí está. Conversa típica de menino 🙂
Ah, Teresa, tem de ser. Entre uma bifana e uma salada, ou um “tofu” (?), ou um “hambúrguer de xpto” (por favor), não há escolha possível para mim. Venha a bifana, com muita mostarda, e uma cerveja.
🙂
Alcachofras com feijão frade? Admito que consegue ser ainda pior que mão de vaca com grão 🙂
Eu sou mais de cozidos e grelhados: cozido à portuguesa, sardinha assada…
Sardinha assada, que saudades.
Por acaso, confesso que o que gosto mais nas sardinhas são os pimentos…
Dois dos meus pratos favoritos, pois então. O que não me impede de gostar também de saladas, cogumelos recheados, beringelas gratinadas, sushi, pratos indianos, souflés, canelones, bocadillos. Nem só de “cozinha honesta” vive uma mulher…
Cozido passou bem sem, embora goste, mas claro que nada disto é em alternativa: ou gostas de um ou gostas de outro. Sou ecléctica no que respeita a gastronomia mas odeio fundamentalismos.
Ai, Teresa, que este post tem o efeito contrário ao que devia! Abriste-me o apetite, e não foi de tofu…
Quando tenho muito apetite também não é propriamente em tofu que penso, Ana. Mas tem dias que gosto de fazer experiências gastronómicas.
Como a esta hora ainda nem almocei, marchava tudo, o vegetariano podia servir de aperitivo.
Ai, Teresa, eu agora fiquei aguada com as beringelas panadas – contrariando o “desconsolo” (é a palavra certa, gosto muito) do “neófito” – tadito …;))
Mas, também não desprezo as outras iguarias aqui sugeridas, a Ana tem toda razão…;))
Mariaaaaaaaaaaa…
Chegueeei e com apetite:))
Tudo o que seja proibição tem o efeito contrário em mim, Teresa. Pobre homem 🙂
«Tudo o que seja proibição tem o efeito contrário em mim». Subscrevo.
Proibição? Não vejas a coisa assim. Era um mundo novo de sabores que se lhe oferecia, mas ele, como a maioria dos homens que eu conheço, não estava virado para aventuras gastronómicas. Acho que em regra os homens são demasiado conservadores à mesa.
Só à mesa Teresa? São conservadores. Ponto!
🙂
Concordo em absoluto, diria mais, um bocado limitados. É preciso muito treino :))))
Também já fiz idêntica figura triste. Mas jurei: restaurante vegetariano, jamais (en français, s’il vous plâit). Nem sequer havia vinho, nem uma mísera cerveja, mesmo dessas aguadilhas sem gosto nem álcool! Eu, filho da uva, neto da cepa, a comer não sei o quê, com sabor a condizer, e a beber um reles sumo adocicado! Jamais, por muito boa que seja a companhia.
Eis um bom princípio.
Então e o chá verde, José-Catarino? Não é nada adoçicado e ainda por cima é anti-oxidante.
Detesto chá verde. Só o cheiro me agonia. Preto, ainda bebo. Raramente. Bom anti-oxidante é o vinho tinto.
E o tinto faz a barba mais rija, não é? :))))
Talvez, o que não facilita o barbear. Também previne, dizem, as doenças cardiovasculares e o Alzheimer. Ajuda a suportar agruras da vida, abre o apetite, sei lá que mais! Que viva o roxo vinho cantante, pilar da civilização ocidental. Quanto às desgraças a que frequentemente está associado, uma só solução: quem não sabe beber não beba.
Ainda bem que avisas… cruzes credo.
Homem, já ganhou o meu incondicional apreço. “Bom anti-oxidante é o vinho tinto.” Temos a frase da semana.
eheheheh… Teresa, há sempre um lado positivo nestas coisas. Eu, por exemplo, comecei a tolerar comida japonesa quando descobri que as senhoras gostam de japa e passei a lá ir. Agora até vou ao vegetariano, até porque me apresentaram um que tem uma sangria de champanhe e frutos silvestres divinal. (Também ouve perspicácia de quem lá me levou pela primeira vez). Mas hoje comi um cozido, isso sim, é comida a sério. 🙂
Gostei de a ler.
Champagne e frutos silvestres? Humm! Adoro as duas coisas. Que luxo de sangria!
Texto delicioso 😀
Eh!Eh! Vai um croquete de soja, lucklucky?
Eu, ao contrário da maioria acima expressa, sou um grande apreciador de comida vegetariana. Sementes de sésamo, cubos de soja e bifinhos de tofu, são a minha loucura. Mas tem de ser tudo em doses verdadeiramente homeopáticas, não vão estas ‘delícias’ ocupar muito espaço num bom prato de bacalhau assado na brasa, ou no meio de uma bela posta à Mirandesa. Comida vegetariana, sim, absolutamente, mas que o ‘decor’ não ultrapasse nunca o tamanho de uma azeitona… E para beber? Também qualquer coisa ‘vegetariana’, claro está. Se for o bacalhau, um bom Douro branco, se for a posta, um vegetariano do Alentejo, tinto, de preferência e que não ultrapasse muito os 12º (à sombra)…
Estão a ver como é fácil gostar de comida vegetariana?
O rapazinho do post até estava a gostar, o que não lhe estava a cair muito bem, era aquela chilreada toda, das 3 passarinhas que tinha à sua volta…
E quem disse que as passarinhas também não alinham numa boa posta de bacalhau regada a sumo de uvas? Luís, o que está aqui em discussão são os gostos muito pouco ecléticos dos passarinhos em matéria de gastronomia.
Teresa: parece-me que, no que a mim respeita, deixei bem claro o meu ecletismo gastronómico. Quanto às passarinhas, fico contente pelo bom gosto que demonstram ao serem, também elas, suficientemente eclécticas, a ponto gostarem de algo que tenha verdadeiro sabor, o que só lhes fica bem. Um abraço.
Pois, e mais um “c” ali no meu “eclético” também se comia 🙂
Tem razão, mas a verdade é que agora, com o (des)acordo ortográfico em lume brando, a gente já nem sabe bem as letras que deve debicar. ;-))
Sinceramente até gosto de uns pratinhos vegetarianos de vez em vez. Desenjoam, não fazem mal (bem pelo contrário, se em moderação) e conseguem ser bastante saborosos. Duram é pouco no estômago, mas não se pode ter tudo.
Já quem faz dieta vegan é que me parece um bocadinho… bom, é melhor não adjectivar, não vá alguém sentir-se ofendida/o.
Bravo, João André! Até que enfim me aparece um menino a admitir “que uns pratinhos vegetarianos de vez em vez desenjoam e não fazem mal”! Dieta vegan também passo. Nada de fundamentalismos gastronómicos nem num sentido, nem no outro.