Há disparates, e disparates. Estamos habituados às loucuras de Mário Soares, e encolhemos os ombros, por sabermos de quem vem (o inverno dos fundadores é uma desculpa permanente); lemos (ou não) os desvarios de Boaventura Sousa Santos, e de novo encolhemos os ombros, por sabermos que o senhor tem uma imagem de marca a manter. Agora, há limites à tolerância.
Na Visão de hoje, Francisco Assis afirma: "Quando lá chegamos, percebemos o que o neoliberalismo fez àquelas sociedades. E quando perdemos os preconceitos na abordagem da realidade, compreendemos o que a distância não explica, mudamos a perspectiva e tendemos a aderir a algumas causas. Até em excesso". Pese embora a poesia do pensamento (até dá vontade de vestir a t-shirt de caxemira do Che), é confrangedor ler estas palavras. O neoliberalismo? A sério? E o senhor tem a certeza disso? E já agora, o que é exactamente esse cruel neoliberalismo de que fala? É que, se por neoliberalismo entendermos aquele palavrão que é a globalização, há um dado chatíssimo a ter em conta: é que, sem ela, a pobreza era ainda pior. Ah, e o poder internacional também: é também devido à globalização que assistimos a um reequilíbrio de poderes no mundo. O Brasil, a Índia ou a China têm hoje o peso relativo que têm devido a essa mesma globalização. Já chega de camuflarmos problemas políticos sérios com fantasias neomarxistas que nada resolvem. Podemos discutir os regimes sul-americanos, as suas elites, os seus sistemas eleitorais. Tudo bem. Não podemos é estar neste nevoeiro de perspectivas, que entorpece qualquer análise.

Muito interessante. Tem toda a razão no que diz: «é também devido à globalização que assistimos a um reequilíbrio de poderes no mundo. O Brasil, a Índia ou a China têm hoje o peso relativo que têm devido a essa mesma globalização.»
Gostei da subtil ironia “vestir a t-shirt de caxemira do che”. Sim, porque há por aí muito boa gente que é de esquerda e tal, mas apenas porque “é chique”.
Na realidade são mais conservadores e elitistas que a direita que eles tanto gostam de “escavacar”.
Experimentem falarem-lhes em nacionalização dos seus bens privados, do tipo: “ah e tal com o comunismo o seu carro era nosso, a sua casa passaria a ser nossa”… já ouvi com cada resposta!!