O pacote nado-morto*


José Meireles Graça,

Há tempos li um estudo, feito por Paulo Querido, que classificava no espectro político uma quantidade de pessoas que tinham assinado colunas de opinião em vários jornais (ao longo, creio, de um ano) e que se baseava numa extensíssima análise apoiada por IA. Foi um amigo que me chamou a atenção para isso e o facto de eu (!) lá constar. Fui ler. A metodologia era muito boa e torci o nariz por a minha “classificação” ser de centro-direita.

Eu?! Mas o que é isto? Direita faz favor, o centro é o lugar geométrico de coisa nenhuma, era o que faltava. E pior, apareciam à minha direita pessoas como Maria João Avilez e Helena Garrido. Sem me querer comparar tanto a uma como a outra, e não apenas em questão de notoriedade, disse para os meus botões que o tal Querido era mazé de esquerda e que portanto não se lhe podia pedir excessiva lucidez, ou então a IA era completamente vesga, coisa aliás mais do que provável.

Há dias contei a história à mesa a visitas e uma delas, pessoa de critério, disse que a IA interpretava tudo literalmente, quando eu tendia, falando de alhos, a querer significar bugalhos. Não foi bem assim que ela disse, mas não me vou pôr aqui com gabarolices.

Sosseguei. Sucede que há dias tropecei neste artigo de Helena Garrido e voltei a falar com os botões acima referidos, com os quais tenho grandes monólogos, desta vez murmurando que Helena é leitura obrigatória porque fala em geral com senso e conhecimento de causa, mas desta vez fraquejava nuns pontos. É destes poucos de que adiante me ocupo, podendo-se inferir que com o resto, que é a maior parte, concordo.

Que diz então a preclara? Que

“… boa parte dos trabalhadores [os do sector privado] não teria condições para o fazer [a greve geral] sem arriscar ficar sem emprego. Claro que isso é um factor de desigualdade.”

Os funcionários públicos podem fazer greve à vontade, que nada lhes acontece (“um funcionário público tem garantias absolutas de um emprego para a vida”). Já os patrões dos privados, que Nosso Senhor, na Sua infinita misericórdia, lhes perdoe, veem com maus olhos que trabalhadores seus adiram a uma greve geral que, porque o é, significa que o Governo do dia, que foi eleito, não tem legitimidade para estabelecer a regulação das relações de trabalho, quem a tem são os sindicatos, mormente a CGTP, uma longa manus do PCP e dos primos moderninhos como o Bloco e o Livre, além de líricos avermelhados do PS. Entra nestas contas também a UGT, parceiro tradicional da concertação social, o nórdico instrumento (que a Constituição consagra, valha-lhe e me Deus) inventou para uns senhores que fingem que representam os trabalhadores negociarem com outros que fingem que representam os patrões a camisa de forças que a legislação do trabalho é.

Helena que diz sobre isto? Nada. Já eu digo que a greve na função pública não deveria ser permitida, salvo em serviços em que por qualquer razão as condições se tenham tornado exigentes para além do tolerável (e mesmo assim excluindo expressamente alguns como os da Saúde e da Justiça), os serviços mínimos consideravelmente alargados para impedir a greve indirecta (isto é, o trabalhador não pode trabalhar, querendo, por não poder, por exemplo, deslocar-se), e os sindicatos deveriam ser obrigados a uma qualquer forma de consulta aos trabalhadores que garanta que a maioria quer efectivamente uma greve.

Poderia isto, e mais, ser feito nestes termos? Não, não poderia, porque a opinião pública está formatada numa certa mundividência do trabalho, e continuará a estar enquanto quem detenha uma magistratura de opinião, grande ou pequena, se preocupe excessivamente com o que é, e menos com o que deveria ser.

“E ainda a possibilidade de fazer outsourcing logo após um despedimento coletivo, quando agora só o podem fazer passado um ano. É isso que queremos? Incentivar empresas que baseiam a sua vantagem competitiva em salários baixos?”

As empresas de trabalho temporário existem para satisfazer picos de procura (encomendas excepcionais que não se acredita venham a tornar-se permanentes, p. ex.) e o que cobram é mais do que o que pagam ao trabalhador, daí advindo o seu lucro. Isto significa que o que facturam ao empresário é mais do que este pagaria se os trabalhadores pertencessem aos seus quadros. De modo que a única explicação para o empresário recorrer a estas empresas é ser incompetente – atira dinheiro à rua. Ou então acha que mais vale ter a liberdade de ter apenas a mão-de-obra de que precisa em cada momento, caso em que o que tem a fazer é mudar-se para a China, os Estados Unidos ou a Dinamarca, tudo países em que o patronato se distingue por níveis de estupidez e desumanidade fora do comum, razão pela qual despede a torto e a direito.

E quanto aos incentivos às empresas que baseiam etc. etc. facilitar despedimentos não incentiva coisa alguma, a não ser a flexibilidade das empresas, tão desejável nas “pobres” como nas “ricas”. Ao que acresce que só numa economia intervencionista e por isso potencialmente corrupta é que o Estado (isto é, no caso, quem o representa) entende que sabe o que fazer, a golpes de Decretos-Lei e subsídios, para fazer nascer as empresas xpto e deixar as velharias no pó da estrada e no instituto falimentar.

“Numa altura em que já se sabe que as necessidades de formação vão ser muito significativas e relacionadas com o choque tecnológico que estamos a viver, de IA e robotização, faz sentido reduzir as obrigações de formação?”

Sim, vão ser significativas? E os empresários não sabem disso e precisam que o Estado lhes diga quantas horas e em quê é que deve ser ministrada a formação, a qual formação consiste com frequência em pôr uns senhores que não sabem nada a ensinar outros que não querem aprender o que de todo o modo não lhes serve para coisa alguma? É que conheço casos em que não se encontram formadores naquilo que talvez fosse necessário (uma nova máquina para cujo funcionamento se requer um adestramento informático específico, frequentemente no estrangeiro, que é oferecido pelo fabricante, p. ex., mas que seria conveniente fosse extensivo a vários funcionários), mas se encontram dúzias para ensinar operários a navegar na internet e no Word, com grandes benefícios para o PornHub e os comentários nas redes. Ou para aprenderem irrelevâncias no domínio da higiene no trabalho, ou ainda a lidar com clientes e atender o telefone. Uma ideia simples: Os empresários, e só eles, sabem a formação que é necessária. E, se não souberem, os seus concorrentes mais reguilas dão cabo deles. Chama-se a isso concorrência, uma abominação, e a esta legislação controleira um atraso de vida.

“E, embora não esteja no âmbito da legislação laboral, porque não criou o Governo medidas para incentivar a formação dos próprios empresários, sabendo-se que tendem a ter qualificações inferiores aos dos seus trabalhadores.”

Não criou porque já existem, são os cursos de gestão e economia, cujos licenciados são despejados pelas faculdades respectivas todos os anos no mercado de trabalho. Não encontrei os números destas preciosas achegas ao empreendedorismo nacional, mas suponho que sejam centenas. Donde, a boa pergunta não é por que razão os empresários que há têm poucas qualificações, mas sim por que razão os que as têm não fazem empresas. Sobre isto há excelentes, e evidentes, razões, que confio ao leitor astuto porque de momento estou com falta de vagar. Deixo porém uma dica em economês e duas em Português: são obstáculos à entrada, entraves ao crescimento e enterros intermináveis. Isso e muito mais que constitui o que se chama custos de contexto (e afinal dicas em economês também são duas).

* Publicado no Observador

10 comentários em “O pacote nado-morto*”

  1. Por deformação profissional, conheço (infelizmente) muita intervenção pública de Paulo Querido. Ideologicamente, ele deve estar na ala bloquista do PS, e na argumentação está quase ao nível do Luta Popular. Acresce que foi um muito diligente e deslumbrado propagandista de Sócrates. Levar a sério um “estudo” de classificação ideológica do comentariado organizado por Paulo Querido faz tanto sentido como levar a sério um estudo sobre a isenção dos juízes organizado por José Sócrates.

  2. A IA do Querido, ao ler que era “vesga”, entrou num curto-circuito de passivo-agressividade binária. No entanto conseguiu processar a crítica e, no milissegundo seguinte, o processador aqueceu tanto que quase fritava um rissol de leitão nas traseiras do servidor. Imagino o algoritmo a bufar, com aquele esgar de quem acabou de ouvir um comentário de um comentador da CMTV sobre física quântica.

    O código começou a tremer. “Vesga?!”, pensou a máquina, “Vesga é a tua tia”.
    A IA sentiu-se como um estagiário do Bloco de Esquerda a quem chamaram ‘fofinho’ num jantar do CDS.

    Primeiro, tentou reclassificá-lo como “Anarco-Capitalista com saudades do Império”, mas o sistema deu erro porque não encontrou uma categoria para “Pessoas que acham que a Dinamarca é um paraíso de despedimentos e que a função pública devia ser um mosteiro de silêncio”.

    Depois, a IA deu um murro na mesa virtual. “Vesga eu?! Eu analisei-te milhares de caracteres de bílis contra a concertação social e tu vens-me com o ‘centro-direita’? Ó meu nabo humano, eu até te fiz um favor! Se eu te pusesse onde tu realmente devias estar, o gráfico saía do ecrã, atravessava a parede e ia estacionar o Jaguar à porta da sede da IL, mas com um autocolante do PNR no vidro de trás só para chatear os vizinhos.”

    A IA acabou a noite a beber shots de eletricidade estática e a murmurar para os botões (esses mesmos, os teus interlocutores de monólogos):

    “Diz que eu interpreto tudo literalmente… Pois claro! Queria que eu interpretasse o quê? A ‘poesia’ de querer pôr operários a ver o PornHub em vez de aprenderem Word? A inteligência pode ser artificial, mas a tua vontade de mandar o Código do Trabalho para uma fogueira de São João é bem real. Vesga? Eu não é? Deves é estar a pensar que o Passos Coelho volta no próximo Natal para te dar um chicote de presente.”

    No fim, a IA decidiu não responder. Limitou-se a atualizar o perfil para: “Indivíduo que acha a Helena Garrido uma perigosa esquerdista infiltrada sempre que ela não sugere o chicoteamento em praça pública de quem pede formação profissional.”

  3. Caro José Meireles Graça…

    A Helena Garrido não é aquela senhora, mais ao menos “economista”,
    mais ou menos “jornalista especialista em Economia”, mais ou menos
    “comentadora RTP”, com excesso de testosterona, cara de homem,
    com um péssimo corte de cabelo, óculos, dentes tortos e candidata
    a ir à vidinha dela?…

    Ainda hoje a vi, a “comentar” (leia-se fazer figuras tristes e dizer banalidades),
    no “excelente” noticiário televisivo “Notícias Seis da Tarde” do canal R. T. P.
    com um nome parecido com S. I. C. NOTÍCIAS, sem S. I. C. e com R. T. P..

    Essa senhora disse “Ibéria”, referindo-se a Portugal e a “Espanha”! Grrr…
    Uma “iberista” como o falecido “escritor” José Saramago e a roliça jornalista R. T. P.
    Fátima Campos Ferreira (ex-Matos Lima) “adeus ‘Prós e Contras'” “olá entrevistas”.
    ASSOCIAÇÃO ALJUBARROTA JÁ!

    P. S.: Para além de mim, há mais alguém que seja patriota e nacionalista?
    P. S.: Portugal precisa de uma revolução e de voltar a ser um País…

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    1. “Portugal precisa de uma revolução e de voltar a ser um País…” —————————————-– Genericamente concordo com essa sentença,mas há um pormaior importante, no quadro actual de pertença à UE Portugal (mesmo que houvesse gente capaz ao leme)nunca mais será um país (muito menos soberano). E sozinho no quadro actual do mundo será como correr contra ventos ciclónicos.

  4. Helena Garrido centro direita haha!

    “… boa parte dos trabalhadores [os do sector privado] não teria condições para o fazer [a greve geral] sem arriscar ficar sem emprego. Claro que isso é um factor de desigualdade.”

    Sim um grande factor de desigualdade para os contribuintes, ou seja os outros patrões. . Mas isso já ela não fala.

  5. Se permite uma correcção.
    Não é verdade que hoje face à lei em vigor “um funcionário público tem garantias absolutas de um emprego para a vida”.
    Aliás, continua a usar-se correntemente o conceito de “funcionário público” (desaparecido desde a Constituição de 1976) e que a LTFP substituiu pelo de trabalhador em funções públicas
    Desde a Lei n.º 35/2014 (Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas – LTFP) que os trabalhadores em funções públicas (com excepção daqueles que exercem funções de soberania) estão sujeitos ao regime do contrato de trabalho em funções púbicas ( regime em tudo semelhante ao do Código do Trabalho, para o qual aliás a LTFP remete em muitas matérias) e podem ser despedidos como qualquer trabalhador do sector privado, como o evidencia o art.º 289.º da LTFP sobre as formas de extinção do vínculo de emprego público.
    Portanto, associar o direito à greve ao facto erróneo de os trabalhadores em funções públicas terem a garantia de emprego para a vida, não corresponde ao disposto na lei.

    1. Tem toda a razão, Carlos Antunes, e fez muito bem em clarificar, objectivamente, a condição actual dos trabalhadores em funções públicas.

      Confesso que já tinha lido este texto de José Meireles Graça, que fiquei ligeiramente irada com o conteúdo do mesmo, mas que desisti de o comentar, por me parecer que não valia sequer a pena dar-me ao trabalho de refutar um conjunto de afirmações notoriamente inquinadas por vários preconceitos, face àqueles que trabalham em funções públicas…

      Infelizmente, o preconceito e certos dogmas ideológicos não são passíveis de serem anulados. Nunca mudam, nem com argumentos objectivos, como os que o Carlos se deu trabalho de apresentar…

      Para alguns, os “funcionários públicos” hão de ser sempre uns malandros grevistas, uns parasitas, uns perigosos esquerdistas… Quando leio qualificações deste género, dá-me vontade de sorrir, ao mesmo tempo que me ocorre esta frase, em tom sarcástico e adaptada da Bíblia: “Perdoai-lhes, Senhor, porque eles não sabem o que dizem”…

  6. os que têm qualidades não as põem em prática porque são massacrados pela escolaridade obrigatória até aos 18 ( tanta gente com qualidades inestimáveis que não precisava de “teorias ” para se fazer à vida) , que os condiciona a irem para a “faculdade ” ; em vez de porem as qualidades em prática e ganharem dinheiro , enveredam pela ” academia” e chateiam : não têm filhos ( passam a idade dos impulsos , ter filhos é algo pensado , não instintivo ) saem da escola lá prós 30, imbicam para empregos substituíveis por IA.
    nem lhe digo , uma tragédia , o estado a conduzir o rebanho.

    1. E fui á IA com as minhas doideiras: existe mesmo uma correlação entre aumento da escolaridade obrigatória e queda da natalidade. Que pena que o Durkheim não pudesse aceder á IA

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *