O Pacto 2022


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Nos últimos anos, nesta era de redes digitais quase-rizomáticas (sê-lo-ão menos do que parecem mas também não há uma “Manápula Invisível” a controlar tudo isto), uma das vias discursivas mais histriónicas foi a de uma amálgama, a “direita profunda” europeia – alguma dela “extrema”, no sentido fascizante, outra mesmo “profunda”, no sentido hiper-conservador. À (minha) vista desarmada não se lhe consegue fazer um enquadramento sistémico, talvez só possível para quem lhe estude os discursos, práticas e organizações. Assim leigo e míope apenas os digo “antidemocráticos”, mas também – o que não é equivalente – “anti-europeístas” radicais, “soberanistas” furibundos, mesmo que muitos com roupagens de liberalismo económico. E em tantos deles um exultante anti-intelectualismo (por exemplo as aspas nas “ciências sociais” é-lhes um penduricalho típico, de que não conseguem abdicar, um verdadeiro dildo moral).

 

Enfim, a gente viu-os frenéticos trumpianos – crentes até no esquerdismo do já velho Tea Party -, fervorosos brexiteers – ululando com as vagas imigrantes (de Leste, de Leste…) que devastam a nada pérfida Albion -, atentos à maldade universal dos islâmicos – excepto, lá mais pelas franças, à dos palestinianos que combatem os execráveis judeus -, bolsonarizados – apesar das nenhumas expectativas quanto àquele país pardo -, firmes contra a ditadura do Eixo Bruxelas-Estrasburgo, essa inumana elite burocrática. Activos nas trincheiras contra essa invenção do “marxismo cultural”, as fake “alterações climáticas”. E, mais recentemente, combatendo essa tão lucrativa falácia dos capitalistas (judeus?) farmacêuticos, as nazis vacinas contra o Covid-19.

 

E outras causas terão defendido nas quais – por indolência – não terei atentado. Sempre com frenesim (até robótico) discursivo. E sempre com fundamentos de cariz científico (hélas!) ou empírico, um “saber de experiência feito” inacessível a todos-nós, os outros. Pois seguimos alienados por uma imprensa ao serviço desses interesses plutocratas, contra os quais corajosa e loquazmente combatem.

 

Foi muito (mas não só) a propósito desta imensa tralha, sucessivas patacoadas, entre inventonas, trocas de nuvens por Junos, atrapalhados paleios com embrulhos em “cientifiquês”, tudo em refogados anunciando adstringentes conspirações contra os “bons povos”, que se veio falando das célebres “fake news”. Ou seja, de um aldrabismo constante – já não a ultrapassada propaganda falsária manufacturada pelo pobre bloguista socratista ou pelo Palma Cavalão das actuais televisões, mas esta vertiginosa capacidade de em ápices perorar insanidades automatizadas, logo absorvidas por moles ávidas de iluminação.

 

Ora o que é mesmo “engraçado” é ver, quase todos os dias, como neste 2022 os velhos comunistas brejnevistas e os novos comunistas (aka, “alterglobalistas” de ascendência enverhoxista/trotskista ou coisa que o valha, mesclada com o legalize it e os 30 kms à hora), andam a partilhar por estas redes sociais estas tralhas todas, agora dedicadas àquilo da Rússia na Ucrânia. Usam exactamente as mesmas fontes, seguem os mesmos argumentos, vivem a mesma sanha contra a mesma “Manápula Invisível”. Agora já não falam de “Fake News”. Mas sim de “Fontes Alternativas” ou, mais profundo, “Pensamento Diferente”. É uma verdadeira revolução coperniciana, promovida pela Rússia do sábio Putin…

 

Este vazio intelectual esquerdista não me surpreende. Mas o prazer com que o afixam? Isso já espanta. Enfim, para não me dizerem anti-russo, vou apanhar Sol e reler o “Pnin”.

8 comentários em “O Pacto 2022”

  1. ‘o nº de parvos é infinito’ quando a cultura tende para zero nesta fase ‘paleiolítica’.
    no 10 de junho haverá distribuição de ‘pindéricalhos’, como se habituaram.
    «por cima tudo são rendas, por baixo nem cuecas tem!»

  2. Pedro Manuel Cardoso (aliás SAP3i), por favor apiede-se de si próprio e pare de enviar comentários, inapropriados ainda por cima, pois eu apago-os – sem os ler e sem mais custo do que um mero “clic”.

    1. Pedro Manuel Cardoso (aliás SAP3i) não responda gabando-se de qualquer coisa tipo “a mim ninguém me cala” – se você não se quer poupar em sítios alheios é consigo mas eu insisto, por solidariedade corporativa e até por respeito a gente conhecida em comum: deixe-se de comentar nos meus postais, eu não aprovo nem leio (li este último, pois curto e o sistema mostrou-me na sua completude). E muito lamento o evidente desequilíbrio (um padecimento que a todos pode acontecer) que o conduz na internet. E se ninguém lho diz digo-lhe eu. Pela tal solidariedade humana. Mas também por uma enorme falta de paciência para o que você regurgita, neste insano frenesim.

  3. O DO está-se a tornar o oposto do DO.
    Lamento muito e tanto que de um grupo de uma dezena de “habitués de sempre” só eu é que continuo a passar por cá.

    Eu sei que, tal como as coisas estão, de pouco incomodará que isto fique reduzido a “yesgirls” e “yesboys”, para já até pode parecer conveniente a alguns autores.
    Mas “Covid” e “Ucrânia” acabarão como tema (quase) único e quem se foi embora não volta.
    E perderam-se nos último ano 5 ou 6 comentadores que faziam a diferença porque sabiam do que falavam e pensavam pela própria cabeça.

    Lá está: não tenho paciência nenhuma para o estilo do SAP3i (que pelo meio diz coisas acertadas) mas nunca o censuraria.

    1. Anónimo, já escrevi o suficiente sobre o assunto – o enorme desprezo que tenho pelos comentadores anónimos que aos blogs vâo tentar mostrar que não “yesmen” – há lá mais rasteiro yesman do que um anónimo opinativo?. Os quais não “fazem a diferença”, apenas ecoam uma vil cobardia e uma extrema rudeza, execranda falta de educação. Quanto ao que você aqui perora, repito pela enésima vez, num blog não há censura: há ou não paciência para os convivas. Também por isso não estou a censurar Pedro Manuel Cardoso – não tenho paciência para o frenesim com que debita comentários a torto e a direito, quantas vezes sem ligação ao conteúdo dos postais. E tenho compaixão.

      1. quanto aos monopólios temáticos: 1) os bloguistas botam sem agenda, ao correr do que lhes vai passando pela cabeça (pelo menos neste blog), é natural que se centrem – num blog generalista como este – nas “actualidades”; 2) nos últimos 40 postais (não fui atrás) há 9 sobre a Ucrânia (uma percentagem grande, concedo, fruto não só do que se passa mas também da polémica nacional sobre o assunto) e 1 sobre o Covid (efeitos da propalada sexta vaga?, do reconhecimento do PM da relativa incoerência das políticas públicas sobre a matéria). Julgo que é suficiente para obstar ao seu comentário. Mas, já agora, se o “comentariado anónimo” trocasse a pirraça constante pelo desafio temático, pela chamada de atenção, talvez isso animasse o espectro dos temas. Mas anos de leitura e de escrita no DO não me mostram isso.

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