
A notícia correu durante a semana, no Famalicão-Benfica um rapaz de 10 anos foi obrigado pela segurança do estádio a tirar a camisola do Benfica que envergava e viu o jogo em tronco nu, tendo até chorado durante a discussão que conduziu a tal corolário. Os motivos apresentados eram cristalinos, ele e seu pai tinham lugares na bancada de sócios do clube caseiro onde é “proibido” (assim mesmo) usar sinais de apreço por outros clubes. E isto é considerado tão normal, aceitável, que após o secretário de Estado dos Desportos e o presidente da Liga de Futebol – entidade que organiza a competição em causa – terem censurado a situação ainda veio a direcção do clube famalicense, muito ciosa de si mesma, contestar essas censuras e exigir desculpas. Isto mostra bem o estado aviltante em que segue o mundo do dirigismo futebolístico mas também dos seus participantes – e, já agora, o da imprensa que acompanha a bola, no seu paradigma guerrilheiro, entre os constantes comentadores furibundos e a glorificação de indivíduos infrequentáveis (como a celebração das artimanhas daquele dito “macaco”, líder da claque portista, entre outros).
Benfica 3 Sporting 2 de 1979/1980
É certo que no caldeirão passional do futebol os adeptos têm de aprender desde miúdos a “comportarem-se”, a perceber que em determinados contextos é necessário “entrar mudo e sair calado”, arte que lhes virá a ser bem útil em outros palcos alheios às coisas da bola. Ainda me lembro das minhas incursões ao velho estádio da Luz, galgando a segunda circular e entrando bancadas adentro, manhoso no velho truque – então possível naquelas desorganizadas bancadas populares, ainda que eu já espigadote nos meus 15 anos – do “ó vizinho, dá para entrar consigo?” aplicado ao adepto sénior e solitário de ar mais entusiástico ou simpático, algo que tinha aprendido desde bem mais cedo ali ao campo Branca Lucas, sede do popular Sport Lisboa e Olivais, então clube mais que veterano da III Divisão, zona sul. Atrevimentos esses que me conduziam ao célebre “Terceiro Anel” pejado de viscerais adeptos benfiquistas, e que me advinham do entusiasmo sportinguista daquela época, encetada sob o comando do professor Rodrigues Dias e seguida com Fernando Mendes, que culminaria com o almejado título após um longo jejum de 5 anos sem que o clube ganhasse o campeonato.
E bem me lembro de que no início do Benfica-Sporting (que os da casa venceriam através das costumeiras “fintas” de Chalana, mestre que era nos saltos para a piscina) lá me levantei, entusiasmado com um qualquer lance perigoso do ataque sportinguista. Para logo receber um coro de invectivas e reprimendas que me fez baixar a grimpa, caladinho que nem um rato até ao apito final. Tal como caladinho estive, ainda que esfuziante de alegria sarcástica, no magnífico Benfica 1 – Boavista 2, um delicioso jogo em que o genial e tão peculiar Vítor Baptista – que havia sido dispensado do Benfica, dada a sua consabida irresponsabilidade profissional – estraçalhou a sua antiga equipa, de forma tão flagrante que foi imensamente aplaudido pelos adeptos da casa.
Enfim, ficou-me a memória para sempre, e nisso alguma simpatia pelo adepto minoritário em casa alheia, sempre a torcer-se para não dar sinal de que é dos “outros”. É raro ir ao futebol, espectáculo demasiado caro para as minhas posses, mas quando me acontece ir a Alvalade – ou porque levo algum sobrinho-neto, noblesse oblige, ou porque algum amigo me convida -, lá está sempre (e às vezes acompanhando-me) um qualquer não-sportinguista, ao qual desejo que se saiba “comportar”, para assim evitar os grunhos, esses omnipresentes no mundo da bola. Há pouco, julgo que na época passada, um amigo teve a caridade bem-intencionada de me convidar para um Sporting-Benfica (como de boas intenções está o inferno cheio os de Carnide foram ganhar, raisparta). E mesmo à minha frente, nos bancos imediatamente abaixo, estavam três jovens no final da sua adolescência, num buço talvez já universitário. Um deles, logo de início ali se mostrando, no menear e no gemer, dado a benfiquismos – e logo lhe dei o aviso, sorridente, de mais-velho “olha que é capaz de ser melhor controlares-te”, que estávamos em pleno covil do leão, o reduto dos lugares cativos (aqueles que agora, devido a qualquer imbecil decisão, se chamam “gamebox”). O rapaz atrapalhou-se, pediu desculpa, coisa que lhe disse ser inútil, pelo menos para mim, mas que evitasse ele que alguém o viesse a chatear. Pois, repito-me, os grunhos são omnipresentes no mundo da bola, sejam lá quais forem as cores com que se disfarçam. No fim, sacaninha, lá saía ele com os seus amigos, com um ricto meio sorridente meio atrapalhado, e lá me despedi com um “parabéns, raisparta!”.
Enfim, tudo isto é o perorar memorialista, coisa comum nos velhos solitários. Mas é o preâmbulo da questão que me parece ser a única realmente relevante face ao acontecido na semana passada no estádio do Famalicão: que merda de pai é que vendo o seu filho de 10 anos ser obrigado a despir-se fica no estádio a ver a bola?

Um pai decente pegava no filho e ia-se embora.
Haja dignidade!
Claro, é evidente. E ainda aparece na imprensa, queixoso. E ninguém lhe atira isso à cara – perdeu-se a noção das coisas.
Escreveu bastante e a parte que se aproveita é esta:
“o da imprensa que acompanha a bola”.
Mas o problema não é só a imprensa que acompanha a bola, é toda ela!
Em relação ao assunto, temos de ficar preocupados com os “grandes” problemas de alguns. E depois criticam os outros!
ó anónimo e olhe que vai bem servido, que ainda consegue aproveitar um bocadito do bastante que eu escrevi – e é isto à borla, e nem sequer o chateiam com pedidos de donativos. Assim sendo, agradeça foda-se, diga obrigado pelo pouco que consegue aproveitar.
Muito bem. Tudo.
Obrigado.
Todos temos histórias surgidas à volta do mundo da bola. Sofri e festejei em ocasiões diversas com êxitos dos de Carnide (
) até ter chegado o dia em que me desencantei com todos aqueles excessos. O mundo (pelo menos o nacional) seria bem melhor e mais evoluído se a imprensa dita desportiva não se vergasse ao monopólio do futebol, se as televisões não alimentassem, e não se alimentassem, dos excessos tribais que por ali andam à solta, com todas as metástases resultantes dessa notoriedade que atrai outros actores públicos que acham que só por lá irem se promovem. Vou poupar-me a mais delongas e avanço para contar o episódio que me levou a este comentário.
Fiz parte de uma equipa de Rugby, que é uma modalidade menor na escala da atratividade mediática, e a certa altura coube-me organizar um torneio no campo sintético de Porto de Mós. Chegamos quase duas horas antes do dito se iniciar, para ver se estava tudo em ordem, e logo à chegada estranhei ver o carro da polícia no estacionamento. Quando nos aproximamos do rectângulo verde encontrei um vizinho que estava a assistir a um jogo de futebol do seu mais velho. Estivemos um bocado na conversa e pouco depois o carro da polícia veio à conversa. Ele, com um ar meio surpreendido pela minha questão e meio professoral, informou-me que a Associação de Futebol não autoriza que nenhum jogo decorra sem a presença das forças policiais. No caso, os jogadores tinham 14 ou 15 anos e, olhando para o jogo vi apenas uns miúdos simplesmente a jogar. Logo acrescentou que normalmente quem cria mais problemas não são os jogadores, mas sim são os pais a partir das bancadas.
Tudo isto acontece com a maior das normalidades e sem qualquer nota de estranheza nas opiniões públicas e publicadas.
No final do jogo, lá se foram embora os futuros Ronaldos, os seus progenitores e a polícia, para da parte da tarde então se iniciar um torneio de sevens, onde mais de 100 jogadores se divertiram a disputar aquela bola esquisita até, já escuro, todos partilharem uma bucha de frango assado, oferecido por um patrocinador, e umas grades de minis pagas pelos jogadores da equipa anfitriã. Havia algumas nódoas negras recentes, mas todos foram para casa depois de uns calorosos abraços aos adversários. Além de no geral serem gente boa, sem eles não há jogo e por isso temos de os tratar bem.
Raisparta o futebol.
Comparar a “moldura humana” do futebol com a gente de râguebi é uma injustiça antropológica… Quanto aos paizinhos que anseiam transformar os seus filhos em ronaldotes que os venham a sustentar? A reinstauração dos trabalhos forçados e sua aplicação a culpados de insultos em estádios de futebol infantil resolveria a questão. Em dois tempos…
Em abono da justiça, lembro que há duas versões dos acontecimentos.
Duas versões???
A outra deve ser dos tristes lampionicus em tronco nu.
Não fora estes casos, seria uma grande pasmaceira ser do clube a ou do b.
O velho Estádio José de Alvalade era um Estádio Olímpico, com pista de ciclismo e tudo.
As finais da Volta a Portugal em Bicicleta, habitualmente eram no Estádio José de Alvalade. que para o efeito a bancada central estava aberta a todos, sócios SCP e outros.
Num final, ou final de etapa, de Volta ganha pelo Peixoto Alves do SLB, na banca central estavam os habituais sócios de central do SCP (sócios da central por haver sócios da lateral e naquele tempo até do peão) e havia muita gente do SLB. Tudo muito bem-comportado à maneira de gente da central até aparecer o Peixoto Alves, depois foi tudo mal-comportado. Que chatice havia mesmo de ser na central a dar vivas ao SLB.
Por esse tempo, talvez uns anos antes, o SLB foi jogar para a então Taça dos Campeões Europeus, à Dinamarca contra a equipa do Aarhus, com uma grande exibição do José Augusto. O SLB ganhou o José Augusto marcou dois golos e no fim do jogo o público entrou no campo e levou o Zé Augusto aos ombros. Coisas da bola dos países que ainda não ligavam muito à bola.
E aquele casal respeitável que o homem veste a camisola do SCP e a mulher do SLB ?
A conversa dele é sempre a mesma ‘ela está quase a mudar’.
A versão do clube:
https://www.fcfamalicao.pt/comunicado-7/
Obrigado. A ser verdade o que o clube aqui apresenta ocorrem-me dois sublinhados: o pai ainda é mais energúmeno do que sob a versão inicial; a direcção do clube ainda é mais energúmena do que sob a versão inicial – eu nem discuto a alarvidade de alguém que dirige uma agremiação, responde a um membro do governo e à comunicação social e bota este asco: “Acima de tudo, cabe-nos a proteção dos nossos adeptos, da nossa cidade, do bom nome do concelho. Juntos, com os nossos, construímos um clube conhecido pela paixão e fervor pelas suas cores e não abdicaremos nunca de lutar para que os nossos adeptos vivam este amor de perdição de uma forma tão apaixonada como a forma como sentimos o clube.”
Quanto ao resto, os energúmenos da direcção da agremiação famalicense, botam neste texto aquilo que referi: o estádio municipal que é cedido àquele clube para que os javardos da vila possam exalar o asqueroso “amor de perdição” – ao qual estão condenados por defeito congénito, devido à acentuada prevalência de consanguinidade ancestral – divide-se criteriosamente. A parte dos “visitados”, homúnculos desvairados, incontroláveis se em contacto com “símbolos” dos odiados “visitantes”; a destes “últimos”, uma amálgama indiscernível de odientas origens. Nisso a alcateia local, ululando ao toque das campainhas do tal “amor de perdição”, ficará incontrolável quais zombies de série de tv, à vista de um miúdo de 10 anos com um cachecol do Vizela, um boné do Tondela, uma fita do Penafiel, ou outro qualquer adorno dos que não vivem sob o tal “amor”. E os alarves que mandam no clube ainda dizem que estão a “proteger o bom nome do concelho”. E é este lixo mental (e moral) que é chamada “versão”.
Há muitos contextos e situações em que certas formas de trajar são ou obrigatórias, ou proibidas. Por exemplo, em certos sítios e ocasiões é obrigatório usar gravata, noutros tem que se usar vestido de noite, etc.
Portanto, nada vejo de anormal, inusual ou chocante em que em certas bancadas de certos clubes seja proibido usar certos trajes.
balio
Então um casal e os filhos têm de ser todos do mesmo clube por se forem de clubes diferentes, que é muito bem possível, não podem ir todos juntos para o mesmo local ver o jogo entre os clubes seus simpatizantes.
E o que fazer com aqueles atletas que sempre simpatizaram desde pequeninos com um clube e jogam noutra clube que por sinal é seu grande rival?
Parece que esta actual questão foi arranjada para evitar violência.
Assisti ao Brasil-Portugal.na Mini Copa, no Maracanã. Estávamos vários portugueses juntos, na época ainda não havia muito a moda de vestir as camisolas, e houve uma grande jogada do Jordão que deu para todos nós levantados fazermos um ahahah, de imediato levantaram-se uns tantos brasileiros e virados para nós gritaram ‘matem esses galegos’. Por acaso o Brasil ganhou com uma grande vaca e venceram a Mini Copa.
Anónimo, foi isso que o presidente da Liga referiu, o ser o futebol um espectáculo destinado também a famílias, e da inadmissibilidade deste tipo de mentalidades e práticas. Também aludi a isso no postal – vou a Alvalade com membros da família e há sempre quem não seja sportinguista. Tenho um irmão adepto do Porto, um cunhado adepto do Benfica, sobrinhos e afilhados benfiquistas, belenenses, amigos portistas, benfiquistas, estorilistas, boavisteiros, sei lá mais o quê… Não poderemos ir juntos ao futebol?
Sim, esta divisão dos estádios serve para a segurança, para se evitarem os confrontos entre grupos (as malfadadas claques, conjuntos de energúmenos sejam ou não violentas as suas expressões). Mas uma coisa é apartar essas escórias, outra é vedar a convivência nos espectáculos desportivos.
Toda a sua família pode ir junta ao futebol, desde que não usem trajes inadequados para a bancada onde se vão sentar. Podem usar um traje normal.
Agora, ir para a bancada dos sócios de um clube, trajado com as cores do clube adversário, é inapropriado.
E o pai portista com a filha insultado no Estoril com cuspidelas
Isto anda de cortar a faca!
Ontem no Estoril outro pai teve de abandonar a bancada com a filha por ser alvo de insultos. ao Taremi. Nas TV’s comentadores e jornalistas consideram a possibilidade de restringir o acesso de adeptos de clubes diferentes nas bancadas, ou seja, legitimam de forma envergonhada o ato de Famalicão. Serei só eu que vejo isto ao contrário? Isto é a vitoria dos grunhos, são estes comportamentos miseráveis que têm de ser penalizados ou banidos dos estádios, retirar um por um cada adepto do Estoril e assegurar a segurança daquele pai e da sua criança.
Entretanto Sérgio Conceição falha uma “flash interview” porque não gostou de uma pergunta do jornalista. Para não variar o exemplo vem de cima.
A Liga aplica multas e até jogos à porta fechada por mau comportamento do público.
Então para quando aplicar estes procedimentos para penalizar estas situações?
Há mais de 10/15 anos deixei de ir ao «meu» estádio do Bonfim em jogos com algumas equipas dado que a maior parte dos adeptos visitantes na bancada de sócios (alguns deles também sócios) deixavam-me desconfortável com palavras e intenções carregadas de pedantismo, superioridade e falta de respeito. E frequentemente com crianças ao lado. Ia aos outros jogos, e continuo a ir embora agora por ligas mais abaixo.
No geral estas restrições de adereços visitantes em bancadas de sócios parece-me que se fazem num contexto de protecção dos, poucos, sócios a estas invasões, sócios que são aqueles que os dirigentes conhecem e que por vezes contribuem directamente para os clubes. Alegar que é por motivos de segurança é uma treta. Esta tendência dos últimos anos de restringir adereços do clube visitante nas bancadas de sócios nem devia ter começado embora compreenda o contexto que também me fez evitar certos jogos. Mas não deixa de ser um evento, onde a motivação dos organizadores deve ser atrair clientes em vez de barrar por tabela os que o querem ver.