O paradoxo de uma auto-proclamada modernidade


Paulo Sousa,

Já foi há uma mão cheia de anos. O motivo que levou a que nos cruzámos várias vezes foi pouco mais do que banal e por isso as conversas demoraram a ir para além do estritamente social, o que só numa ou noutra vez acabou por acontecer. Ela era uma jovem mãe natural do norte do país que trabalhava nos EUA numa das Big Tech e lá foi falando sobre como combinava a vida profissional com a familiar. Um percurso de vida interessante e mais um exemplo de como somos valentes a exportar mão-de-obra qualificada.

Pelo que entendi, será difícil, pelo menos nessa altura seria, sobreviver nessa empresa sem que se abraçasse todas as inúmeras camadas de preconceitos inventados para combater preconceitos. A fauna humana é ali muito diversa, tudo o que seja esquisito deve ser aplaudido e tudo o que não o for torna-se coisa sem pilhéria nenhuma. O slogan dos recursos humanos, não dito mas assumido, parece ser: “Gente normal, shame on you!”

Certa vez, falou sobre uma colega de trabalho que usava hijab e cujo casamento tinha sido arranjado entre os pais dela e do respectivo marido. Que era uma coisa cultural, que se davam super bem e tinham uns filhos muito queridos, e aquilo é assim. Eu, sem comentar, intriguei-me: como se estava a normalizar algo medieval?

Lembrei-me disto há dias quando li, ou audioli, o Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. A trama anda à volta de Teresa de Albuquerque e Simão Botelho, apaixonados e impedidos de casar pelo pai dela, por ter tal sujeito como pessoa indigna para a sua filha. Em vez desse Botelho, filho de Domingos Botelho, seu rival de há muito, o pai de Teresa arranja-lhe um casamento com Baltazar Coutinho, um primo de Castro Daire. O arranjo não vai por diante e não vale a pena estragar o suspense, podendo dizer apenas que é uma perdição sem fim.

Quem teve de ler e analisar esta obra nas aulas de Português terá ouvido que se trata de um romance trágico, impedido pelas convenções sociais da época. Os amores impossíveis e trágicos eram conduto das obras românticas do século XIX, onde o sofrimento dos amantes e a rigidez das regras sociais nunca faltavam.

Na sociedade portuguesa onde cresci e vivo coisas como estas, casamentos combinados ou impedidos pelos pais dos noivos, serão menos do que raros e socialmente não aceitáveis. Para aqui chegarmos, um longo caminho foi percorrido. Os direitos do individuo foram erguidos contra essas coisas de antigamente. A muçulmana que trabalhava na dita Big Tech até pode ser muito feliz com o marido, coisa que apesar de nunca a ter visto mais gorda espero que se verifique, mas ser acrítico perante convenções que já há dois séculos eram sinal de atraso, é diferente de as aplaudir. Isto entre nós não é normal, e uma coisa é, por não me dizer respeito encolher os ombros e ignorar, outra é propalar que somos tão modernos, tão modernos, que até sentimos necessidade de aplaudir práticas medievais.

45 comentários em “O paradoxo de uma auto-proclamada modernidade”

  1. como é que se estava a normalizar algo medieval

    Medieval??!!

    Os casamentos arranjados são a norma, ainda atualmente, na generalidade do mundo indiano, e não só. Não são medievais, são totalmente atuais. A maior parte dos casais na Índia, Paquistão, Bangadeche e Nepal – que contêm talvez um quarto da população do planeta – foram arranjados.

    1. Pessoas impertinentes, desagradáveis, aborrecidas e enfadonhas é provável que defendam tal pratica, mas apenas por caridade própria. Felizmente essa não é a nossa norma.

      1. Eu não defendo os casamentos arranjados. Somente protesto contra designar tal prática, que é muitíssimo atual, por “medieval”.

    2. O balio parece ter esquecido que nos países referidos por si dominam certos sistemas de castas e que uma das principais consequências dessas hierarquias hereditárias acaba por ser a realização de “casamentos arranjados”, frequentemente forçados.

      O balio também parece ter esquecido que um dos países mencionados por si, justamente a Índia, apresenta a maior quantidade de noivas crianças do mundo – um terço do total do planeta – segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Essa entidade estima que pelo menos 1,5 milhões de meninas com menos de 18 anos de idade sejam obrigadas a casar anualmente nesse país. Incluem-se aí muitas meninas com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos de idade. (BBC News, em 5 de Abril de 2022).

      Se tudo o anterior é a “normalidade”, plenamente aceite, para o balio, então estamos conversados… Mas, e já agora, e sem qualquer pretensão de ser politicamente correcta:

      Para o raio que parta a sua “normalidade”!

      A humanidade passa bem sem ela…

      1. nos países referidos por si dominam certos sistemas de castas

        Não. Sistema de castas há na Índia. No Paquistão e no Bangladeche, países islâmicos, não há castas. Mas também aí os casamentos são arranjados.

        Se tudo o anterior é a “normalidade”, plenamente aceite, para o balio

        Eu não disse nada sobre eu aceitar (muito menos “plenamente”) essa normalidade. Apenas disse que é normal, isto é, que é prática corrente hoje em dia e que não é nada “medieval” (isto é, da Idade Média). O facto de ser normal não significa que eu ache bem.

        1. Ser “medieval” não significa que se passa ou passou nessa época. Ser medieval significa que são comportamentos iminentemente inaceitáveis nas actualidade, mas que na Idade Média seriam aceites e considerados como normais…

    3. “Bangadeche”
      Vivi alguns anos em África (Angola) e lembro-me de uma palavra que significa estilo, ‘fashion”; era a palavra: “Ganda banga” seria uma pessoa com muito estilo ou com um estilo diferente, um António Variações, vá.
      “Bangadeche” será o quê? Um país onde a banga, desce? Um país sem estilo?
      Há um país com nome semelhante, com estilo e com pessoas galardoadas:
      https://en.wikipedia.org/wiki/Muhammad_Yunus

    4. A Índia, esse paraíso de tradições exóticas, onde os ataques com ácido, a prática da “morte por dote” (incluindo a horripilante “queima da noiva”) e as violações colectivas são desporto nacional com mais adeptos do que o críquete; onde nem a abolição oficial, desde 1950!, do aberrante sistema de castas lhe conseguiu dar sumiço, decerto porque não aboliram com muito entusiasmo; ou onde os tais “casamentos arranjados” o são muitas (muitíssimas) vezes entre noivos-crianças, e sobretudo entre meninas e adultos.

      Muitos destes evidentes e aflitivos atentados à vida e dignidade humana, para lá das restantes e abundantes “tradições” a que se vão dedicando, assim disseminando doença, violência e ignorância, sob um manto hipócrita de “cultura milenar” e que mais não são, de facto, do que práticas mantidas e consentidas para perpetuar interesses e privilégios – nada disto é exclusivo da Índia, também abundam nesses países limítrofes que o balio elencou.

      Mas é na Índia que mais sobressaem esses “traços culturais”, já que não só se apresenta toda vaidosa por ser a maior democracia do mundo (pela quantidade de votantes), como é de facto pátria de grandes literatos e cientistas ao “estilo ocidental”.
      Portanto, é fácil de ver a extrema dissonância, mesmo por critérios mínimos, num país que alia níveis de desenvolvimento moderno a práticas sociais pré-medievais. Sim, porque há comportamentos que nem medievais chegam a ser, na sua brutalidade fútil.

      E estou já a ouvir o tão fatal como coxo argumento ‘paralelista’, de que por cá também nós mais isto e mais aquilo. E assim é, nós por cá também. Só que nestas questões que envolvem tão impensáveis níveis de violência, discriminação e abuso, se por um lado o número das suas vítimas conta, a sua normalização, ou não, conta mais ainda.

      Porque podem acontecer e acontecem casos idênticos. Mas o que por cá acontece já passou para os baixios da tara, do patológico, do repulsivo, da anormalidade merecedora de prisão ou tratamento, e de parangonas em tablóides especializados em bestialidade humana residual. Casamentos arranjados com crianças, mesmo segundo ritos específicos, já nem nas minorias mais fechadas e tradicionais se aceitam sem discussão, e decerto não são consentidos ou “culturalmente relativizados” pela lei e pelos usos sociais aceites – que representam valores que vieram evoluindo, lentamente mas sempre tendencialmente num sentido cada vez mais humanista.

      Mas por lá, e também por cá, há quem nos diga que andar amortalhada em vida ou levar com ácido na cara é a cultura, estúpido!
      Não é nada. É estar aprisionado num estádio de desenvolvimento atrasado, em que se tomam por normais práticas indignas e brutais.
      Até nós ainda estamos num estádio de desenvolvimento atrasado, a ter que guardar à vista as conquistas obtidas, quanto mais eles, que nem de pré-medievais passaram…

  2. Mas quem tinha razão, em termos de modernidade?
    A norma ou costume cultural que obliterava a vontade individual em favor do interesse social? Ou, a subjugação do colectivo e da comunidade ao arbítrio individual?

    A procriação, envolvida em interpretações ideológicas ou morais, não ameaçará o futuro da Sociedade?

    Por exemplo:
    — Os cérebros têm de continuar a ter o mesmo tamanho por estarem sujeitos aos actuais gargalos anatómicos das procriadoras?
    — E se fôr assim o futuro?: “Hashem Al-Ghaili (Universidade de Berlim) afirma ter criado a solução para a natalidade, através do «primeiro ventre artificial do mundo». A solução, designada “EctoLife”, consiste em instalar 75 laboratórios capazes de acomodar 400 cápsulas de crescimento com as condições do ventre de uma mãe. Cada um destes laboratórios é capaz de incubar 30 mil bebés por ano, com o crescimento a poder ser monitorizado diretamente através do telemóvel dos donos destes procriados (ditos «pais»). Os «pais» (que estejam dispostos a pagar) poderão escolher diversos aspetos genéticos dos ditos «filhos»: como altura, tom de pele, inteligência, etc.” (The Next Web, 22 dezembro 2022).

    Portanto, em nome do quê ou de que futuro se está a favor dos lados que este Post considerou como partes na questão? Onde está o critério ou a referência a partir dos quais se decide qual é o bem e o mal, o certo e o errado?

    1. Quem pode estar interessado nisso é o seu lider espiritual sediado no Kremilin. Perante a grandeza da pátria, os individuos devem agradecer pelo privilégio de se poderem entregar ao maior triturador de carne para canhão, que é o Exercito Russo. Pode alistar-se, que talvez lhe ofereçam uma torradeira com temporizador.

    2. “Onde está o critério ou a referência a partir dos quais se decide qual é o bem e o mal, o certo e o errado?”

      A minha resposta à sua pergunta é esta:

      A pretensa “modernidade” de que fala não passa de desumanidade, da mais cruel e abjecta e, sob esse ponto de vista, é profundamente perversa e errada.

      1. Casar? … É exactamente esse comportamento e esse ritual da procriação que é medieval. Que é uma coisa atrasada, e completamente desnecessária daqui a umas poucas décadas.
        Hoje a procriação faz-se directamente nas células e cromossomas, sem necessitar do corpo hominídeo dito ‘masculino’ e ‘feminino’.
        A replicação das informações que determinam as proteínas e moléculas do dito ‘ser-humano’ já não depende da cópula, quanto mais dos ‘casamentos’.
        Essa luta feminista, depois LGBT+, e do ‘género’, é uma coisa totalmente ultrapassada.
        Só quem não acompanha a actual época é que ainda está nesse passado.

        Perante aquilo que está a ocorrer, as duas partes representadas no Post deixam de ter justificação.

        1. Que raio de interpretação a sua, onde é que eu afirmei que era preciso casar para procriar?

          De forma muito sucinta, gerar um ser humano implica ou a existência de copula entre uma mulher e um homem ou a “procriação medicamente assistida”.

          Em qualquer caso, convirá não esquecer que gerar um ser humano implica muitíssimo mais do que o acto de “procriar”, seja ele realizado de forma natural ou com recurso a procedimentos médicos. E que depois de gerar o ser humano e de ele nascer é preciso amá-lo, educá-lo e ajudá-lo a crescer… Que se saiba ainda não há “modernidade” que consiga fazer o anterior…

          Como dizia alguém que conheço: “Fazer filhos é fácil, o difícil é criá-los”…

          1. Se a manipulação genética criar os próximos humanos, não é necessário progenitores humanos. Basta extrair os fluídos bioquímicos que os fazem nascer. E incubá-los.
            Logo, casar para procriar deixa de ser uma necessidade. E com isso, também deixa de ser necessário o dimorfismo de género.
            Quanto ao criá-los, amá-los e educá-los … dependerá do regime da época. Esses conceitos actuais de criar, amar e educar também serão alterados. Basta olhar para o que acontece na Natureza noutras espécies de animais sociais inteligentes ao nosso redor.

            1. Espero, convictamente, que a sua “profecia” NUNCA se concretize. Se se concretizar será o fim da Humanidade.
              (Peço desculpa pelas maiúsculas, mas servem apenas para enfatizar uma convicção).

              Sim, existem “animais sociais inteligentes ao nosso redor”, mas o ser humano, mentalmente são, tem algo, irreplicável, que o distingue de todos os outros animais:

              A sua capacidade de imaginação, de criatividade e, sobretudo, a sua capacidade de empatia.

              Empatia, caro SAP3i, é aquela qualidade que permite “humanizar” a maior parte das nossas acções, sem desatarmos a matar e a comer outros seres humanos, sempre que, nas mais variadas circunstâncias, possa estar em causa alguma forma de sobrevivência.

              Mas há uma coisa que ainda não percebi:

              O SAP3i é um defensor acérrimo da pretensa “modernidade” aludida por si ou é apenas um “mensageiro” que acredita que a mesma se pode vir a concretizar?

            2. Não acredito, que a Paula Dias, queira ser ‘humana’ para sempre.
              Por aquilo que escreve, nas entrelinhas dessa visualidade teatral com que se apresenta aos outros ‘humanos’, há sempre qualquer coisa que ‘resta’ (é a essas partes que chamo ‘impronuncialismo’).

              Ora, se na Existência, parte de aquilo que agora é o tal «ser-humano» já foi cinco coisas diferentes, porque não haveria de deixar de ser o que é actualmente? Isso é um absurdo existencial (no Post “Absurdo”, no blog ‘Mundo do Além’, em «https://blogs.sapo.pt/posts?blog=mundodoalem», está o sentido a que atribuo à condição humana de absurdidade).

              Na constituição de aquilo que é o ‘humano’, nas substâncias de que é feito, já foi:
              — 1. Aparecimento da EXISTÊNCIA,
              — 2. Antes da formação do UNIVERSO,
              — 3. FISICALIDADE (partículas, átomos, estrelas, etc., explicados actualmente pela física através do designado ‘modelo-padrão’),
              — 4. QUIMICALIDADE (aparecimento dos agregados de átomos e partículas, explicado pela química através da designada ‘tabela periódica de Mandeleev’),
              — 5. ANIMALIDADE (aparecimento daquilo que se designa por Vida, incluindo as células, moléculas, proteínas, órgãos, corpos, procariotes, multicelulares, organismos, sociedades, etc.).

              Agora, é:
              — 6. HUMANIDADE (aparecimento de aquilo que designamos por ‘ser-humano’, explicado pela actual teoria antropológica da evolução humana; capacidade de reprogramar o ADN herdado da natureza).

              Sendo assim, porque razão não poderemos vir a ser:
              — 7. MAQUINIDADE (co-evolução máquina-humano, robots conscientes, transferências de suporte-corpo para a cognição).
              — 8. COGNITIVIDADE (corresponderá ao momento em que a cognição se autonomiza de um suporte-corpo particular, e se torna capaz de escolher o que lhe garante melhor a continuidade na Existência).

              Não sei daqui a quanto tempo isto ocorrerá, na hipótese de ocorrer assim. Mas, por aquilo que aconteceu às ‘substâncias’ de que o ser-humano é actualmente feito, em termos de probabilidade e derivada (no sentido matemático), esta formulação do Impronuncialismo é tão legítima como outra qualquer.

              A razão da perspetiva impronuncialista (e do seu objectivo de alcançar a «propriedade física SAP3i» através da engenharia e da matemática) está explicada no Post ‘Impronuncialismo’ no blog (https://impronuncialismo.blogs.sapo.pt). Não vou aqui repetir.

              Apenas lembro um facto, ocorrido na última semana em todo o mundo humano: — Quantos seres os humanos tiveram que matar para sobreviverem? Quantos seres tiveram que matar para se alimentarem, e não serem devorados, na última semana? Desde vírus, a mosquitos, peixes, vacas, porcos, e outras espécies de seres-vivos? Essa é a medida concreta de aquilo que actualmente o ser-humano é.

              É a isto que a Paula Dias chama “humanizar”? É este Ser que a Paula Dias quer ser eternamente? Então, porque usa a palavra NUNCA?

            3. A patologia vai-se revelando. Essa preocupação com a morte de vírus, mosquitos, peixes, vacas, porcos, e outras espécies de seres-vivos, para que a um humano sobeviva, ao mesmo tempo que acha que o bicho humano é resultado exclusivo de fluídos bioquímicos, é mesmo de quem é capaz de defender um regime de direita nacionalista como o de Putin, que não hesita em sacrificar as minorias não russas que tiveram o azar de nascer dentro da sua federação de nações subjugadas. Procure ajuda que precisa. O debate fica aqui encerrado.

            4. Acho que já percebi: O SAP3i é, então, um defensor acérrimo de uma pretensa “modernidade”, para mim, perfeitamente hedionda.
              Perfeitamente hedionda porque pretende reduzir o ser humano à “maquinidade” e à “cognitividade”, aprisionando-o numa pretensa máquina com cognição automatizada, se bem percebi…

              “Não acredito, que a Paula Dias, queira ser ‘humana’ para sempre.”
              Ai quero, quero, SAP3i. Quero ser humana para sempre, com todos os defeitos e qualidades que isso implica.
              Debater-me-ei SEMPRE contra a ideia de “maquinidade” e de “cognitividade”, defendidas por si e reitero: Se tal se concretizar será o fim da Humanidade.

              “Quantos seres os humanos tiveram que matar para sobreviverem?”

              Ao longo da História da Humanidade, muitos, SAP3i. Mas, e ainda assim, felizmente, isso continua a ser a excepção e não a regra entre seres humanos.
              Parece-me que o SAP3i incorre numa falácia, tomando o todo por uma das suas partes. E, sob esse ponto de vista, a conclusão extraída por si não é válida.

              Eu jamais trocaria a capacidade de imaginação, de criatividade e de empatia que assiste aos seres humanos mentalmente sãos pelas alegadas “máquinas de pensar” defendidas pelo SAP3i.

              Desculpe, mas não resisto: O SAP3i será alguém que não tolera afectos e emoções? Terá medo de Sentir?

            5. Paula Dias,

              A ‘imaginação’, ‘criatividade’ e ‘empatia’ não são propriedades exclusivas do ser-humano; nem sequer aquilo que o especifica. Logo, poderão ocorrer noutros suportes e corpos não-humanos. Os significantes ‘afecto’, ‘emoção’, ‘razão’ são uma banalidade-normalidade, resultado de um funcionamento bioquímico. Foram criados pela Natureza para obrigarem o ‘individual’ a submeter-se ao ‘social’ (enquanto o indivíduo não alcança a «propriedade SAP3i»). Não se lhes pode fugir, tal como respirar, defecar, reproduzir ou alimentar-nos. Servem para nos obrigarem a ‘socializar’, não acrescentam nada ao que se é.

              Não é verdade que defenda a ‘modernidade’ (Renascimento e Iluminismo até 1930-45 para uns; ou até 1980-90, para outros). O Impronuncialismo nem sequer defende a actual dita ‘história contemporânea’ (ou ‘pós-modernidade’). Para o Impronuncialismo ‘Modernidade’ e ‘Pós-modernidade’ são uma lógica, ma nomenclatura, um raciocínio e uma concepção da história erradas.

              O Impronuncialismo tem por objectivo alcançar a «propriedade da perpetuidade» através da física, da matemática, da cognição e da engenharia. Ora esse objectivo prático constitui-se como um projecto diferente dessa dessa actual concepção de história e de evolução.

              O Impronuncialismo não comete o erro da fragmentação disciplinar e da incapacidade de interdisciplinaridade entre os domínios do conhecimento. E esse erro é cometido tanto da ‘modernidade’ como da ‘contemporaneidade’ (pós-modernidade).

              A nova perspectiva de interdisciplinaridade que o Impronuncialismo propõe já conduziu a resultados científicos considerados importantes pela Academia, expressos nos títulos académicos e notas que me foram atribuídas desde a licenciatura até ao nível de ‘pós-doutoramento’. Portanto, foram os Colegas e Pares que avaliaram esses resultados. Por exemplo: “A Estrutura da Relevância” codificada no cérebro humano, que conduz às escolhas humanas dos fenómenos e comportamentos relevantes”; “A Tabela de rotação das partículas” para a escala das partículas menores do que os neutrões e protões; “A demonstração da simetria nos comportamentos humanos, quer nas festividades tradicionais, quer nas interações quotidianas, quer na violência durante os espectáculos desportivos; a alteração ao actual ‘modelo-padrão’ da física; a “teoria unificada das substâncias”; a criação no seio teoria do números em matemática de dois novos ‘números’; etc. São mais de 200 instituições e cientistas que estão ligados em rede ao ‘Impronuncialismo’ através dos aperfeiçoamentos do ‘robot Impronuncia’ e do ‘Museu do ser-humano’.

              O Impronuncialismo, e o trabalho de construção da «propriedade SAP3i», são uma coisa completamente diferente daquilo que a Paula Dias considera neste seu comentário.

            6. “A ‘imaginação’, ‘criatividade’ e ‘empatia’ não são propriedades exclusivas do ser-humano; nem sequer aquilo que o especifica.”

              Não? Então, o que distinguirá o ser humano dos restantes animais? Que outras propriedades exclusivas lhe poderão ser atribuídas?

              “O Impronuncialismo tem por objectivo alcançar a «propriedade da perpetuidade» através da física, da matemática, da cognição e da engenharia.”

              Enquanto ser humano, sem qualquer aspiração a transformar-me numa “máquina de pensar”, não me parece nada desejável, aprazível ou sequer suportável a ideia de poder ser imortal. Nesse sentido, a “perpetuidade” de que fala não me convence minimamente.

              Prefiro, sem qualquer sombra de dúvida, a inevitabilidade:

              “Memento mori”: lembra-te de que és mortal!

              Ou, se se preferir, na canção épica dos Queen: “Who wants to live forever?”

            7. Paula Dias,
              Na perspectiva do Impronuncialismo, o que distingue o «ser-humano» são os níveis de abstração, complexidade e conhecimento (no sentido da resposta que dei à pouco ao Paulo Sousa no Post do Pedro Correia sobre «os cartazes do MRPP»).

              Isto é, a questão não é possuir-se essa capacidade de imaginação, empatia ou conhecimento (tal como a emoção e os sentimentos), é o grau e o nível que somos capazes de os usar e aperfeiçoar. O que nos distingue não é possuí-los, é o grau e a escala a que os conseguimos manipular.

              Estou de acordo, quando duvida de que com a «propriedade da perpetuidade» nos sentiríamos mais felizes. Pois a questão, se alcançássemos esse momento, seria como e com o quê iriamos preencher essa ‘eternidade existencial’. Porém, seria nesse momento que obteríamos a verdadeira Liberdade, ao podermos escolher sem retaliações (de regimes, ideologias, deuses), nem por quaisquer outras razões, necessidades ou circunstâncias, se decidíamos ‘morrer’ ou ‘continuar’.

              Esse ‘preenchimento’ da eternidade, também de acordo com a “Matriz do Agir Humano”, que o Impronuncialismo formulou, não possui apenas uma possibilidade. Possui as SEIS: Agon, Ilinx, Mimicry, Alea, Ludus, Paidea.

              De acordo com essa “Matriz do Agir Humano” o «preenchimento da eternidade» implicaria uma decisão (equação) com as seguintes 11 VARIÁVEIS:
              — Decido (gestus) [variável 1] que o meu corpo (motus) [variável 2] faz este gesto/acção (figuratio) [variável 3] com esta quantidade de: competição/desafio (agon) [variável 4], de vertigem/aventura/excitação (ilinx) [variável 5], de simulacro/jogo/imitação (mimicry) [variável 6], de sorte/aleatoriedade/’aposta no desconhecido’ (alea) [variável 7], e com esta quantidade de ordem/regras/encadeado/algoritmo/limite (ludus) [variável 8] e de prazer/liberdade/criatividade (paidea) [variável 9], neste Espaço [variável 10] e neste Tempo [variável 11].

              Por exemplo:
              Josh Herdman (o actor Gregory Goyle), de 28 anos, que atuou em todos os oito filmes da saga “Harry Potter”, tornou-se um lutador de MMA (Artes Marciais Mistas)… “Eu não deixei de amar isso, do simulacro e das personagens da ficção e do cinema, ainda tenho agentes, ainda participo em audições. Mas é um pouco como jogar na lotaria para viver. Mas, eu sou tamb´m um apaixonado por lutar. O MMA é cru, excitante e imprevisível. Acho mais interessante que o boxe, apesar de apreciar a beleza e a arte deste estilo de luta. Artista e atleta de luta são dois modos de preencher a minha vida” (entrevista ao jornal “The Mirror”).

    3. Vejo que precisa de bússola para se orientar.
      Experimente esta: tudo o que provoca sofrimento inútil e evitável, de qualquer natureza que seja (físico, mental, psicológico…) é mal e errado. Depois, use a inteligência para relativizar casuisticamente.
      É um critério extremamente simplificado, mas muito funcional.

  3. Os casamentos arranjados são uma coisa medieval e devem ser combatidos, como deve ser combatida toda a limitação à liberdade das pessoas.
    Mas talvez se consiga mais através da educação e da informação do que através de proibição.
    É preciso ter em atenção que proibir algo em nome da liberdade também não é uma maneira muito eficaz de obter liberdade.
    A lei portuguesa já proibe que se force alguém a casar.

      1. Estou a defender que não existem absolutos nestes assuntos. Escolhemos o que nos parece melhor mas não nos podemos esquecer que não é a vontade divina que se imponha através de uma cruzada.
        A pedofilia é aberrante, mas aí há uma pergunta difícil de responder: com que idade se deixa de ser criança.
        Parece-me que a defesa do voto, do consumo de álcool, e do direito de conduzir aos 16, feito pelas mesmas pessoas que negam o direito a escolher ter sexo antes dos 18, parece estranho. Em que medida não estamos a forçar um costume porque nos parece bem, tal como o casamento arranjado parece bem a outros?
        Claro que não defendo que se ande a seduzir adolescentes, mas andar a infantilizá-los também não é caminho. O equilíbrio é sempre difícil.

          1. Talvez haja por aí muitas parafilias encobertas… É a única explicação que encontro para algumas opiniões, verdadeiramente aberrantes, aqui expressas…

        1. A maioridade é uma construção social. Sim, de biológico tem pouco, por magia não se passa a adulto numa questão de minutos.
          Mas é certo que no Ocidente a maioria considera uma boa construção social. Portanto, 1-0 para o progresso.
          O casamento arranjado implica um contrato, com responsabilidades. Forçar alguém a assinar um contrato é errado, certo?

  4. Do ponto de vista da orole e da família esses casamentos estáveis devem ser mais apetitosos do que terem uma mãe e cinco padrastos ou um pai e quatro madrastas e uns cinco meio irmãos de diferentes progenitores. As famílias ” modernas” , recombinadss? Que pensaria o Camilo delas?

  5. O ser-humano foi sujeito pela Natureza — e pelo acto anti-democrático dos progenitores, ao não o terem consultado — a ser obrigado a nascer para morrer.
    E vêm falar, nesta segunda década do séc. XXI, em casamentos?

  6. Realmente, o lamento final de que estamos a “normalizar algo medieval”, revela apenas a jactância de quem acha que o modelo de namoro do Bairro Alto é universal e superior.

  7. O que nos vale é que há estudos científicos que comprovam a superioridade das soluções modernas para o problema do acasalamento, em todos os parâmetros que se possam conceber e medir.

    (Há aquele pormenor da fertilidade ter caído a pique e estarmos à beira da extinção, mas talvez dando o voto aos cães e gatos …)

    1. ter mais que um filho é medieval , as mulheres não são vacas parideiras moderno e desejável são : procriação assistida e barrigas de aluguer , para não perdermos a forma.

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