O Presidente Medina e a procissão dos pobrezinhos


jpt,

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No próximo dia 17 de Outubro é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Nesse âmbito a Câmara Municipal de Lisboa – e, claro, o seu presidente Fernando Medina – vai organizar uma passeata de “pobres” (agora ditos “desfavorecidos”) pelas ruas da capital, dizendo que tal iniciativa quer dar “visibilidade” àquele universo social, presumindo eu que tal “visibilização” seja entendida como dotada de propriedades curativas. Ou, pelo menos, paliativas…

 

A iniciativa é uma co-organização da CML com uma Associação Impossible – Passionate Happenings, que há cerca de 15 anos vem colaborando com a câmara em vários actividades (eu, ainda que não purista, torço sempre o nariz a estas organizações com nomes trendy, em língua estrangeira, mas isto deve ser defeito meu).

 

Outra questão isto me levanta: a Câmara de Medina articula-se nesta iniciativa através dos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA), o que me deixa intuir que os “pobrezinhos” (aliás, “desfavorecidos”) que serão “visibilizados” naquela passeata, deverão ser “mobilizados”, arregimentados, através dessas instituições nas quais recebem apoio, o que deixará entender alguma redução do seu livre-arbítrio. Ou seja, serão induzidos, sentir-se-ão compelidos, à tal exposição pública.

 

Mas o que mais me choca nesta “procissão de pobrezinhos” é o silêncio, de facto conivente, da esquerda social-democrata, do socialismo democrático que é o núcleo histórico do PS. A actual presidência de Medina, e a anterior de Costa, fez este partido dominar a maioria da Juntas da Freguesia da capital. E onde estão agora essas estruturas partidárias, os presidentes de Junta e suas bases, refutando esta abordagem cosmética à problemática da pobreza? E – apesar de perceber o difícil equilíbrio da “coligação” geringonça que suporta o governo, e de entender os cuidados a ter com Medina, mais do que provável sucessor de Costa -, muito me surpreende o silêncio do BE e, principalmente, do PCP diante deste tipo de iniciativa, tão evidentemente poluída por uma mundividência conservadora, caritativa mesmo.

 

Enfim, espero que as próximas autárquicas tragam uma mudança em Lisboa – e entre outras coisas que promovam o afastamento a este tipo de entendimento das situações sociológicas na capital. Será muito difícil, apear um incumbente autárquico é sempre raro e ainda por cima Lisboa, capital de serviços, é sociologicamente “de esquerda”, tende ao voto no partido de Medina.

 

Para que tal aconteça, e apesar de não ter qualquer militância política, desejo que centro e direita se congreguem numa candidatura sustentável, sob uma figura indiscutível e prometedora. Para isso atrevo-me a propor um nome que será surpreendente para muitos: o do actual comissário europeu Carlos Moedas. Homem muito competente, cosmopolita, e decerto que capaz de conjugar uma equipa autárquica que enfrente as questões da capital e da zona metropolitana que encabeça. E culto o suficiente para fazer a câmara afastar-se desta tralha agit-prop caritativa, acoitada pela demagogia impensante do PS.

34 comentários em “O Presidente Medina e a procissão dos pobrezinhos”

  1. Portanto, JPT, este seu post passou-me despercebido. Fez muito bem em recuperá-lo aqui. Assim fica claro que nesta como em tantas outras questões, pode mudar o paleio consoante os partidos que estão no executivo, mas na essência os procedimentos são os mesmos.

      1. e escrevi-o pois interrompi o que estava a fazer, numa urgência crítica tão incomodado fiquei com esta iniciativa da CML e do seu predisente Medina.

          1. Percebi. Mas não, fui buscar as notícias de então. No fundo para comprovar aquilo que bem diz no seu comentário acima: os presidentes da Junta do PS, a imprensa exaltada, os comunicados do PCP e daquele PAN, etc. tudo isto é uma verdadeira hipocrisia. Certo, nós, cidadãos incomodados ou desagradados com este tipo de iniciativa, reagimos. Mas os políticos e a imprensa reagem por mera demagogia politiqueira e por agenda, respectivamente. É uma vergonha…

            (E, já agora, é evidente que a actual CML se deveria ter abstido de se associar a esta pantomina)

            1. Teresa Ribeiro, apesar de ser eu um munícipe lisboeta tenho estado bastante tempo fora da capital – e quando lá bastante enclausurado… Como tal não tenho grandes dados para avaliar a actual vereação. Não sei (e espero estar certo nesta dúvida) se será assim tão pior do que a anterior, como depreendo pelo seu comentário.

            2. Também eu. E tenho por ela muita consideração. Mesmo que por vezes as suas boas intenções se traduzam em acções ingénuas e desconcertantes.

  2. O jpt parece mais perto da senilidade do que da marcha dos pobrezinhos.
    Não goze com a pobreza, porque ela infelizmente existe.

    1. comentador anónimo, você só acerta parcialmente. Eu, jpt, caminho a passos largos para senilidade, isso posso comprovar, até dolorosamente. Mas eu, jpt, não gozo, gozei ou gozarei com a pobreza. O que noto é a corja imunda de socialistas, acolitados por jornalistas a soldo, e secundada por cidadãos patetas, que acorrem aos gritos agora, atrás dos presidentes de junta socialistas (e decerto que seguirão até aquele que foi eleito no centro de lisboa, in extremis, com “remontada” -. como se diz agora – originada numa urna radicalmente excêntrica e escrutinada mesmo no final da contagem), a invectivarem uma patetice camarária que defenderam em tempos, exactamente nos mesmos moldes. E a essa corja imunda junto o camarada Ferreira, a pateta do PAN, também agora meneando as respectivas ancas mas antes sobria e coligadamente calados. E não haja dúvidas, para defender esta tralha imunda é mesmo preciso um tipo não assinar, rastejando anónimo.

      1. Mas a corja dos laranjinhas é tudo igual! Tanto que vão continuar com o desfile! Parece que a ideia não é má.

        1. Gosto muito dessa dos “laranjinhas”.
          Aqui há uns 10 anos era como um miúdo meu conhecido, com 11 anos na altura, tratava os políticos cá da terra: os “laranjinhas” e as “rosinhas”.
          Você vai ver que quando fizer 13 anos, deixar de ser criança e se tornar um adolescente (um “teen”), vai achar essa sua conversa bem pateta.

  3. Não poucas vezes os posts de jpt convocam, como ele gosta de dizer, e bem, o meu descordo para com o respectivo conteúdo.
    Não o manifesto, mas isso não interessa para o caso.

    No presente, não podia estar mais ‘sintonizado’, no conteúdo … e na forma.
    Não me interessa para nada a figura do Moedas, mas o homem parece um peixe fora de água.
    Cada vez mais análogo o inquilino de Belém.

    Em suma, um post pertinentíssimo.

    1. João Brandão, eu farto-me de aqui protestar com o actual presidente. E faço-o em blog desde o início deste rame-rame presidencial. Como tal muito discordo disso que diz: independentemente do que se possa considerar deste mandato de Moedas (e das condições políticas em que o exerce – convém lembrar isso), é uma injustiça reduzi-lo a um Rebelo de Sousa.

  4. O Miguel Pinheiro, do Observador, já diversas vezes tem chamado a atenção para a hipocrisia do PS nestes assuntos de caridade: parece que só a sua caridade é que é boazinha, todas as outras são pérfidas e paternalistas, quiçá até com um cheirinho salazarista (porque é sempre barato para a nossa esquerda recorrer ao reductio ad salazarum). As piruetas semânticas que o governo fez a propósito dos recentes cabazes alimentares seriam ridículas se não fossem grotescas.

    1. Nem mais. (Eu não leio o Observador, não sou assinante, mas ainda bem que vão desmontando isso – ainda que seja, sabe-se, pregar aos convertidos). E está muito boa essa do reductio ad salazarum – que é um tique continuado da esquerda nacional. Ainda mais absurdo 50 e tal anos depois da queda da cadeira…

  5. jpt enganou-se no título do post
    Afinal mantem-se a festividade habitual da CML, mas agora com “O Presidente Moedas e a Procissão dos Pobrezinhos” que com “O Presidente Moedas e o Rock in Rio dos Pobrezinhos” faz parte dos grandes eventos deste ano da CML.

  6. Assim não consigo continuar zangado consigo.

    Cumprimentos internéticos e peço desculpa se passei dos limites há uns posts atrás.

  7. Foi informada por alguém que participou num destes eventos organizados no tempo do Medina, que o que se fez na altura não tem nada a ver com o que se está agora a discutir. Não houve marcha de pobrezinhos nenhuma, nem pic-nic. O que se fez foi uma conferência sobre a Erradicação da Pobreza e a seguir uma marcha onde participaram activistas e conferencistas. De facto, lendo com atenção as notícias que o JPT linkou, em nenhuma se vê mencionado o apelo à concentração e marcha de pobrezinhos, nem ao lanche oferecido e a toda essa fantochada que a Laurinda Alves anunciou.

    1. Teresa Ribeiro, é possível (melhor dizendo, muito crível) que a patacoada prevista para agora seja ainda maior do que a anterior, que para estas coisas nem o céu é o limite. Sim, a ideia de fazer um “piquenicão dos pobrezinhos” é tétrica – e nem se conseguiria perceber o que passa na cabeça de alguém com responsabilidades políticas para avançar com isto, não só pelo pútrido da coisa como pelos argumentos críticos que oferece a outrem, não se conseguiria se não se tiver a consicência de que entre o pessoal do dirigismo estatal e dos eleitos políticos abundam (em particular na capital) os incapacitados devido à maleita do egocentrismo inculto, e isso é transversal aos partidos (e completamente igual na “esquerda” a la PS e no “centro” a la PSD – que competem na bioprodução de imbecis interesseiros).
      Com isto vou avançando que fazer uma marcha de “activistas” filantropos que ajudam os “pobrezinhos” – com ou sem pobrezinhos adjacentes – é a mesma tralha ideológica. Claro que quem a informou e naquilo participou julga que não, ciosos que estarão de estarem “bem”. De facto, a diferença está nos morfes… Em mais nada. Mas isso será difícil de perceber para os “activistas”, os que lhes são simpáticos. E, claro, a malta do vereador Salgado.

  8. “Pois é preciso que gritemos tão alto a verdade, que demos tal relevo à verdade que os surdos a ouçam e os próprios cegos a vejam.“

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