O público, o privado e a notícia


J.M. Coutinho Ribeiro,

Interessante a divergência que aqui se nota sobre a importância pública dos comportamentos privados de quem nos governa e a possibilidade desses comportamentos privados serem ou não escrutinados pela comunicação social.

Há quem entenda que a esfera da vida privada dos governantes não tem qualquer interesse para o cidadão. Pelo menos, um interesse legítimo. Que não importa, designadamente, se um governante é viciado em casinos, desde que jogue com dinheiro seu; que não importa saber se um governante compra roupa na loja mais cara do mundo, desde que o faça com dinheiro seu. E, obviamente, há quem entenda ser sagrada, por exemplo, a não violação da privacidade de um governante quanto, por exemplo, à sua orientação sexual.

A questão não pode ser vista de forma tão linear. Mesmo que o governante gaste apenas o que é seu, nos seus vícios ou hábitos privados, ficamos a saber duas coisas: em primeiro lugar, que o governante é honesto porque não gasta os dinheiros públicos. Mas ficamos, também, a saber que o governante tem uma compulsão para o jogo ou para um ostensivo modo de vida. Ou que, enquanto pede contenção aos seus governados, ele vive na ostentação. Não é relevante? É. Não o será quando se fala do rico empresário (que será escrutinado pelos seus trabalhadores ou pelos seus credores, mas isso é outra história), mas é-o quando se fala de quem elegemos para determinado cargo. Porque quando votamos em alguém, votamos não apenas na sua competência, mas também no que conhecemos do seu carácter, na sua capacidade para se adaptar aos sinais dos tempos que correm e na sua capacidade para dar exemplos de cidadania. Daí que os limites da liberdade de expressão se alarguem quando escrevemos sobre as designadas as figuras «da história do tempo».

Mais complexa é a questão da orientação sexual do governante. Se um governante é homossexual, ninguém tem nada a ver com isso. Se o é e o assume, não dever ser fustigado ou vangloriado por isso. É-o. E, sobre isso, cada qual tirará as suas conclusões na hora do voto, se achar que é uma questão relevante.

Mas já será escrutinável pela comunicação social – porque tem interesse público – saber se, por exemplo, um deputado faz hoje uma violenta intervenção no Parlamento contra a homossexualidade e, dias depois, se descobre que ele próprio é homossexual. Como é evidente, ele poder ser o que queira. Mas os eleitores têm o direito de saber se um dos seus eleitos é pessoa de carácter e se as suas intervenções públicas são concordantes com os seus comportamentos privados.

E, neste caso, ouso ir um pouco mais longe: se as acrobacias sexuais de uma figura pública – mas sem responsabiilidades públicas, mesmo que seja, por exemplo, um arquitecto do regime – não são escrutináveis, o mesmo não se aplica, por exemplo, ao padre de uma qualquer paróquia, que nas missas defende a moralidade e os bons costumes e acaba descoberto numa orgia. Neste caso, os paroquianos que o ouvem, também terão direito a saber que o homem faz o contrário do que prega.

65 comentários em “O público, o privado e a notícia”

  1. Caro Joaquim:
    Gostei muito da lucidez com que aqui conseguiu varrer muitas das teias de aranha que, pelos vistos, abundam na cabeça de outras tantas pessoas. Parece-(nos) evidente que o escrutínio que se faz sobre os factos da vida pública de um governante, não têm absolutamente nada a ver com a intromissão em factos da vida privada de um qualquer vulgar cidadão.
    São situações absolutamente distintas, que nada têm de comparável, sendo, como tal, coisas nada confundíveis também. Ainda para mais, o caso noticiado, atenta a qualidade da pessoa visada e justamente por ocorrer no momento em que ocorre, lança as maiores dúvidas acerca da proveniência do dinheiro necessário para se ter um trem de vida com aquele tipo de mordomias. Já era rico antes de ser 1º Ministro? Admito que sim, embora exactamente pela sua qualidade de governante de topo de um país com inúmeras carências de toda a ordem, devesse ser um exemplo de discrição e de sobriedade. Diz o povo, e bem, “que quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele». Pelos vistos, no caso presente, este não só quer ser lobo, como também quer exibir – e muito – a sua pele.
    Abraço.

    1. Obrigado, Luís.
      Esta é uma questão de princípio que vale para quem está no poder ou na oposição. Sejam elas de que partido forem.
      Aos titulares de altos cargos públicos, de cargos políticos e mesmo até de algumas profissões, exige-se mais do que ao cidadão comum. É o outro lado das vantagens de ocupar tais lugares.
      Abraço

    1. Caro M. Coelho:
      É claro que tem destino – o mesmo destino que tiveram palavras semelhantes, escritas em 2001, em anotações à Lei de Imprensa (não sei se, também, na versão de 1995) e, pelo meio, em algumas palestras sobre estas questões em redacções e escolas de comunicação social. Não se trata, pois, de uma posição nova ditada por quaisquer ventos, por quaisquer circunstâncias concretas. É, apenas, o que há muito penso sobre o assunto. O que pode estar completamente errado. Mas estou sempre aberto a opiniões diferentes.

          1. A questão não pode ser vista de forma tão linear.

            Porque quando votamos em alguém, votamos não apenas na sua competência, mas também no que conhecemos do seu carácter, na sua capacidade para se adaptar aos sinais dos tempos que correm e na sua capacidade para dar exemplos de cidadania.

            Como é evidente, ele poder ser o que queira. Mas os eleitores têm o direito de saber se um dos seus eleitos é pessoa de carácter e se as suas intervenções públicas são concordantes com os seus comportamentos privados.

            Isto é o dever ser.
            E o ser?

            1. O dever ser está certo.
              O ser pode ou não ser como diz.
              E se for???? Que se faz com o ser?

              Por exemplo.
              A é homossexual.
              A. é candidato a cargo público de destaque.
              Todos temos de votar.
              Votaremos em A?
              E se não votarmos porque não votamos?
              E se votarmos ???

              Votaria??

            2. Para mim os elementos fornecidos na hipotese não chegam para eu decidir se voto nele.

              OK eu estou a fazer bluf.
              Na verdade o que vai acontecer é que chegamos ao fim a dizer que votariamos nun homossexual honesto e com carácter como fariamos com qualquer heterossexual.

              E isso só nos vai mostrar que o factor, orientação sexual de A B ou C é ZERO e deve ser ZERO na hora de votar.

              O que nós queremos é um A B Ou C HONESTO e com carácter e que saiba ser politico e assumir o cargo para o qual se propôs.

              Ou seja:-
              O que se deve discutir é a lealdade intectual e politica, social e económica de um candidato.
              O resto são sobras.

            3. Vamos ser frios e concretos.
              Sem medos e sem rede.
              É fácil. Ou não??

              2ª pergunta.

              B é homossexual.
              B encobre esse facto com medo de opiniõe smenos favoráveis.
              Os restantes descobrem e sabem. Votam nele?

              3ª Hipotese
              C é homossexual
              Encobre e ainda diz mal de quem é.
              Votamos nele??’

              Eu sei as respostas ou a resposta.

              Mas queria ouvir as suas.

            4. A resposta é fácil: não teria problemas em votar num homossexual assumido e não teria problemas em votar num homossexual não assumido. Mas não votaria num homossexual que, publicamente, ostracizasse os homossexuais e, em privado, fosse um deles. Porque, no último caso, denotaria falha de carácter grave. Mas, insisto, não é isto que está em discussão: o que se discute é saber se uma pessoa tem condições para ocupar determinados cargos e qual o limite admissível do escrutínio.

            5. Não temos nada com isso. Ou seja, se é hetero ou homossexual não é pormenor ou elemento que inetresse o que quer que seja para ter ou não condições para ocupar seja que cargo for.

              Os requisitos são os de competencia, honestidade, conhecimento das responsabilidades e especificidades do cargo que vai assumir.

              O mais é nada.

              A vida privada do outro, ou melhor, a vida intima do outro, não é área que nos deva interessar

            6. Permita-me discordar de si, Cleopatra. A vida privada das figuras públicas pode e deve ter interesse jornalístico – e deve ser alvo de escrutínio jornalístico sempre que houver contradição entre o que se pratica e o que se apregoa. Veja o que está a suceder agora mesmo com o PM britânico Gordon Brown. Diferente é a vida íntima – mas mesmo aqui há excepções que podem justificar a quebra da regra. Lembro-lhe, só a título de exemplo, o caso Profumo que conduziu à demissão do ministro da Defesa conservador em 1963 no Reino Unido.

            7. Diferente é a vida íntima .

              É sempre diferente.

              Não temos nada de nada a ver com vida intima. Nada mesmo.

            8. Pois a vida íntima do ministro, nessa altura, teve toda a relevância jornalística, Cleopatra. De tal maneira que conduziu à queda do ministro, à posterior queda do Governo e a um dos maiores escândalos de espionagem da Guerra Fria. Os jornais não ficaram à margem. Não podiam ficar. O mesmo sucederia, já nos anos 90, com François Mitterrand, ao saber-se que sustentava duas casas – e duas famílias separadas – com verbas públicas. Aí a vida íntima do Presidente francês teve relevância jornalística. Nem poderia ser de outra forma.

            9. Mas eu não estou de acordo, lamento 🙂
              Insisto que no exemplo que cito no post, é admissível uma invasão da vida íntima de uma figura pública com responsabilidades políticas.
              Imagine-se, por exemplo: uma deputada que faz cruzada contra o aborto hoje e descobre-se que na próxima semana faz um aborto voluntário. Não é admisível noticiar que fez um aborto? Não só acho admissível, como acho que é uma exigência em termos de direito do público a ser informado.

            10. Há muitas anti aborto que já o fizeram. E revoltam se com quem os faz. “faz o que te digo e não o que faço”

            11. A vida íntima do Profumo só teve relevância, porque a Cristina Keller também dormia com o “inimigo”.
              Quanto ao Mitterand, Pedro Correia, e às “duas casas”, a imprensa francesa só começou a tratar do assunto, quando o próprio quis para legitimar a sua herdeira intelectual, a Mazarine.

            12. Certo, Maloud. Fossem quais foram os motivos, o facto é que os temas tiveram total relevância jornalística embora invadissem a esfera íntima dos políticos em causa. Hoje são casos de estudo, até em cursos de comunicação social. Tal como as contas bancárias dos políticos, sendo matéria do foro íntimo de cada um, podem também merecer escrutínio público.
              Pensar de outra maneira, recusando liminarmente esse escrutíbnio à partida, é pôr sérios entraves numa das traves-mestras do sistema democrático.

      1. E quem sou eu para contrariar jurisprudência …
        Contudo, considero que o escrutínio da vida privada de alguém só porque é político ou figura pública tem aspectos de um doentio voyeurismo , que , pelo menos a mim, não interessa, porque não é determinante nas sua acções e/ou atitudes públicas ou políticas.
        Recoprda-se do Bill Clinton ?
        Tinha-se perdido, por ingerência na sua vida privada, um presidente dos EUA que foi um dos melhores se não o melhor estadista daquele país nas últimas décadas E porquê ?
        Porque fez sexo oral na sala oval. Preocupei-me muito mais com o que conseguiu em termos de desanuviamento no médio oriente, etc.
        Este é o meu ponto.
        Saudações.

        1. E é um bom ponto. E, curiosamente, Clinton nem sequer foi apeado, talvez porque se tenha decidido que o incidente da vida privada do homem não anulava os seus méritos como estadista.
          Isso é um ponto. O outro é que o que aconteceu tem relevância noticiosa. Como, aliás, teve.
          Saudações

    1. Pedro:
      A jurisprudência alemã, muito citada no livro de Costa Andrade sobre estas questões, trata muito bem o tema e explica como a doutrina evoluiu desde o tempo em que era absolutamente vedado criticar os poderes públicos – com o argumento de que os fragilizava – até aos tempos de hoje. Um livro a ler. Para mim, a reler, até porque não o abro há muito.

      1. A jurisprudência alemã serve para tudo quando os outros não a conhecem bem. Nomedamente servia para enrolar professores mais incautos na FDL. Pois!

  2. Voltando à vaca fria, penso que tomar partido nesta matéria – pró- ou contra -, só pode ser difícil para quem é apanhado de surpresa na reflexão. É que não tem mesmo nada a ver com a pessoa X ou Y. É antes uma avaliação geral e abstracta que todo o eleitor já devia ter sido chamado a fazer há eras, quando escolhe os seus representantes e pondera as suas prioridades, entre razões pragmáticas e razões éticas (sim, todos possuímos as duas, quer se queira quer não).
    Quanto ao resto, já os latinos diziam…
    “ubi comoda, ibi incomoda”

  3. CR, uma pequena correcção. Fui ler a notícia e afinal a loja não é a mais cara do mundo mas a mais cara de Beverly Hills, que sendo uma zona muito cara não significa que seja a mais cara.. É apenas um apontamento que. sei-o bem, não é o que está em causa aqui. Como sabe não concordo consigo sobre esta matéria da roupa do primeiro-ministro. Sei que vou contra a corrente mas, como parto sempre do princípio que a razão não é propriedade de ninguém, tanto mais que a razão não existe, arrisco a minha humilde opinião.
    Acho que mistura várias coisas e ao fazê-lo somos levados a concordar também com a questão da roupa do primeiro ministro. É que não é a mesma coisa comprar numa loja cara e ser viciado no jogo em casinos ou mesmo ser homosexual e apontar baterias a esta orientação sexual em plenário. As duas últimas apontam para pessoas em quem não se pode ter confiança. Quanto à primeira aponta para uma pessoa de bom gosto que tem dinheiro para gastar e tem essa opção. Claro que concordo consigo quando diz que essa opção, numa altura de crise, com tanta gente com problemas financeiras, parece uma afronta e não funciona como um bom exemplo. Certo. Mas daí a fazer disso um caso acho um pouco excessivo.

    1. Eu não fiz caso de coisa nenhuma, minha amiga!
      A partir do postal que deu origen à discussão, tentei enunciar princípios abstractos sobre o que acho que deve ser a relação da CS com as figuras públicas (entendidas como pessoas com responsabilidades públicas) e com o que é direito à informação dos cidadãos (o direito dos cidadãos a saber sobre o que lhes diz respeito).
      E, continuando a olhar abstractamente, é claro que tem tudo a ver, quando se trata de traçar o perfil das figuras públicas.

  4. Num país como Portugal acho relevante que se saiba. Aliás não vejo onde está a invasão de privacidade. Se é legítimo saber-se que a figura pública X foi ao restaurante Y não vejo porque não há-de ser importante para alguns saber que o 1º veste camisas ou lá o que for que provavelmente custarão o ordenado mínimo nacional ou no mínimo metade desse valor. Sei lá!

  5. Depois de ler os dois posts e os comentários (onde muita coisa já foi debatida) atrevo-me, ainda assim a dizer o seguinte:

    1) Pormenores:
    1.1.O anúncio na montra da loja não é suficiente para deduzir que o homem só se veste com roupa de lá.
    1.2. Há sempre a probabilidade da loja ter “aproveitado” e exagerado. Acho até uma certa parolice evidenciar os créditos da loja porque um político, de quem ninguém sabe o nome por aquelas terras, ter lá comprado roupa.
    1.3. Há quem, no dia a dia, ande com roupa barata, mas, para alturas especiais, goste de apostar numa farpela melhor. Mais vez não dá para generalizar. Ora, ser PM , obriga a uma certa compostura formal diária, portanto, não me espanta que goste de usar roupa boa, se a pode usar.
    1.4. Não vejo inconveniente em que uma pessoa se vista com roupa de que gosta, desde que, para isso, use os seus recursos financeiros. Contudo, eu não gosto ou desgosto de uma pessoa pela qualidade da roupa que usa. O problema é de quem usa, não é meu.
    1.6. Conheço gente que compra roupa boa (noutra escala, é claro) e não gasta mais dinheiro do que outras pessoas que andam sempre a comprar trapos. O bom pode significar menos, por exemplo.
    1.5. Lembro-me de mulheres de políticos que se queixaram do dinheiro que gastavam em roupa para, em representação oficial, se apresentarem convenientemente, sem que isso fosse contemplado no “orçamento” dos maridos. Pelos vistos a roupinha não é completamente indiferente nestas andanças.
    2- Pormaior ” (para mim)
    Se fosse uma primeira ministra a questão colocava-se? Creio que, quando muito, se questionava o uso de roupa de estilistas estrangeiros em detrimento dos nacionais.

    Acho que isto só é interessante enquanto pretexto para discutir outros assuntos. Em si acho um não assunto!

    :)))

    1. VIRTUDES PÚBLICAS, VÍCIOS PRIVADOS.
      Certo. Mas nem tanto.
      A comparação implícta entre a questão dos fatos do 1º MINISTRO em B. Hills e a questão da homossexualidade dos nossos governantes é forçada.
      Poque há virtudes privadas que ‘têm’ que ser públicas em 2 sentidos (nos PolítiCos em particular, nomeadamente em quem governa):
      1 – Se estes vícios privados contradisserem o que em público transparece;
      2 – Se forem contra o que é defendido para os governados – povo.

      No caso da homossexualidade de políticos/governantes, será um vicío privado, como o será a sua heterossexualidade. Não prejudica ou beneficia ninguém, a não ser os Próprios. A menos que, em público, os mesmos defendam, por discurso ou legislação limites a essas vivências sexuais.

      No caso dos gastos com o seu estilo de vida (como essa compra de fatos em B Hills) é diferente: Vício privado que tem tudo para vir a lume público porque é de um governante de um país em crise, onde o povo vive atolhado de soluções para pagar contas todos os meses. Aqui, é uma questão moral do exemplo: se o povo souber que os governantes também apertam o conti e também TÊM que ser comedidos nas suas despesas privadas, sentirá que há difusão do sacrifício por todos, INCLUINDO quem dá a cara pelas políticas de contenção.
      Por outro lado há a questão ao incentivo da nossa indústria: se tantas empresas alegam dificuldades, que podem dizer os governantes que vão ‘lá fora’ abastecer-se, exorbitantemente, em têxteis e afins?
      Bom, isto está resumidinho porque nem tudo se resume a ‘isto’.

      – Sobre a homossexualidade – não esquecer que este 1º ministro foi a eleições debaixo de uma sombra de boato do género. Ganhou. Com certeza com muitos votos de quem ainda hoje pensa que o namoro com a Fernanda Câncio – aliás, a ‘alegada suspeita’ de namoro (antes que a moça me meta um processo!) será um disfarce de…o que é ridículo – para mim.
      Também não esquecer que este país já teve um 1º ministro que levava para actos oficiais uma ‘amante’ – o povo pode fazer piadas e pode, em convrsas e café, criticar o vizinho do lado e os seus comportamentos de cama. Mas já se viu que somos a atirar pró tolerante na hota de pôr a cruzinha.

      Em suma – até concordo consigo. Mas acho que o paralelismo entre os dois assuntos é forçado.
      E para ser completamente chata (que não fui até aqui) lembro Maquiavel que já dizia que o detentor do poder deve ter a sabedoria de saber utilizar os vícios públicos e privados com o objectivo e manter a segurança e o bem-estar. E o bem-estar moral de um povo; a sua auto-estima, pode ir por coisas tão simples como ver os governantes comprar fatos na Zara de uma cidade portuguesa qualquer, ainda que a Zara não o seja. Mas vá…

    2. mdsol:
      A discussão sobre a roupa dp PM era mais em baixo.
      Aqui o que se debate é mai amplo.
      De qualquer modo, continuo a achar que a notícia da roupa de Sócrates – nos termos em que está ap+resnetada – é notícia em qualque parte do mundo. E os leitores saberão aferir se se trata de matéria que pode ou não influenciar o seu voto. 🙂

      1. Sim. Eu sei que o assunto deste post era mais abrangente. Mas, como li os dois posts , e acho que de um se passou para o outro, entendi que podia “comentar” aqui. Por isso eu termino dizendo que este assunto, para mim, só ganha alguma importância na medida em que pode levar à discussão de outros temas. E levou, como atestam os muitos comentários que suscitou.

        Já que volto ao assunto, permita-me ainda o seguinte: Não consigo entrar nesta onda relativista que aplaina tudo e torna tudo comparável, normatizando (ou normalizando, não sei) o seu valor. Convenhamos que existe um fosso, diria ontológico, entre ser viciado no jogo, drogas duras, e sei lá que mais e… gostar de usar roupas caras. Mesmo dando de barato que para sustentar as 3 actividades alguém poderia ser tentado a usar dinheiros alheios, estar bem vestido não interfere propriamente na qualidade das decisões. (A menos que os sapatos apertem muito e se acabe intempestivamente a reunião sem ponderar tudo o que havia de ponderar lol ).
        Que fique claro: não me passou pela cabeça que o assunto não seja merecedor dos posts .

        : )))

  6. Interessante esta discussão. No entanto, ela apenas visa referenciar que as nossas escolhas políticas se hão-de basear na vida privada dos eleitos. Discordo em absoluto. A vida privada não é, nem devia ser relevante para a vida pública. Quem se candidata a um cargo político têm direito à reserva da vida privada.

    Infeliamente, como o jornalismo actual é muito de sarjeta, seguindo o nodelo desportivo e cor-de-rosa, as decisões cada vez mais se tomam em função de questões laterais, tirando conclusões precipitadas.

    Não há ninguém perfeito. Todos são pecadores e não é por isso que deizam de ser humanos. Para mim, apenas as questões da vida pública devem relevar.

    Assim como o pewrcurso, as competências, as convicções, a história de cada um, mas deixando de lado as questões da vida privada de cada um. Por causa deste voyeurismo dominante é que se perdem pessoas competentes porque não estão para verem a sua vida exposta e os seus familiares e amigos expostos à devassa pública.

    Ficam os certinhos, os carreiristas e os inúteis que conhecem bem as regras da comunicação política: poucas ideais, alguns slogans e muita propaganda adequada e baseada em especialistas de marketing político e comunicacional.

    1. Só esqueceste de fazer o registo de interesses: não gostas de jornalistas 🙂 E, assim, percebe-se melhor a tua posição.
      Como é claro, não concordo com o que dizes.
      E também não digo que há quem seja perfeito.

  7. Defendo que há uma diferença relevante entre e esfera privada, que é tudo o que não pertence à actividade pública mas que eventualmente pode ter interesse para a avaliação do público (e aqui incluo a loja de roupas), e esfera íntima – do foro exclusivo do próprio. É claro que as fronteiras não são fáceis de definir, mas por princípio a opção sexual é, para mim, do foro íntimo e portanto assunto que diz respeito apenas ao próprio e com o qual ninguém tem nada a ver. A não ser que o próprio “transporte” a sua opção para uma das outras esferas. Acho que é assim que tem funcionado e, quanto a mim, bem.

            1. Pois é, Pedro: a privacidade é quase inviolável. A intimidade é quase sagrada. Quase. E é apenas isto que eu quero salvaguardar.
              Que haja quem não concorde, é bom. Que haja quem veja subentendidos no que escrevi, irrita-me. O que vale é que defendo esta posição há anos e está escrita… Estranho este ambiente de crispação.

            2. É o caldo de cultura existente, meu caro. O Engenheiro lançou a moda: não faz discurso sem estabelecer tensões, sem cavar trincheiras, sem dividir «bons» e «maus» no critério dele. E quem o apoia na blgosfera – refiro-me aos fanáticos – segue o mote e utiliza uma linguagem extremamente agressiva para quem pensa de outra forma. No fundo, é o mesmo caldo de cultura que gera frases do género “Quem se mete connosco leva” ou “Eu gosto é de malhar neles”.

            3. Não tinha essa percepção do espaço público e até consigo falar na blogosfera com pessoas que são muito pró-Sócrates. Mas tenho amigos – amigos, mesmo – que ficam completamente irados quando se discorda de Sócrates. E logo comigo, que não sou fanático de coisa nenhuma…

  8. Só porque vem ao caso e nada mais, vieram-me de repente à cabeça uma série de variações sobre o tema ‘governante’ e ‘farpela’.
    E que convoco apenas porque confirmam a relevância pública que podem chegar a ter as escolhas vestimentárias dos altos representantes de uma qualquer nação.
    Falo de casos como um PM que há muitos anos vestiu Nuno Gama; uma 1ª dama que vestia 2 ou 3 costureiros portugueses; uma outra que decidiu promover simultaneamente um criador nacional e com ele ainda trazer à ribalta o Portugal profundo, no caso e não por mero acaso a “capital” dos têxteis pátrios, agora tão ameaçados.
    E lá por fora uma rainha Sofia que quase só veste made in Spain, ou uma Carla Bruni que promove o gôut français
    etc, etc. etc

    Já sabemos que esta matéria vale o que vale: – é mera ‘bugigangália’ de bazar.
    Mas numa figura pública, governante ou alto representante de um país, o dress code pode bem fazer parte das decisões inspiradas no interesse nacional.

    A isto eu chamo visão e sentido de cargo. A isto eu chamo o contrário de provincianismo, que morre por mostrar que está na última dos “must have” do momento.

    Pois é, ser e parecer; estar e mostrar.
    Às vezes, o hábito pode mesmo fazer o monge.

      1. Nem mais. Não vejo porquê tanto barulho! A memória é curta ou é o dispositivo racional que não tem lente macro e focagem panorâmica?

  9. Escusava de ter escrito um post tão longo. Repescava a insinuaçãozinha dos “colos” e poupava-me trabalho.

    1. Maloud: se ler com atenção o que por aqui tenho escrito, verá que não sou de fazer insinuações. Muito menos de “colinhos”. Daí que lhe agradeça que não faça insinuações sobre as minhas intenções.

  10. Li toda a discussão, ainda que sem a sequência temporal das opiniões escritas, porque só agora liguei o computador. Arrisco a minha:
    Pela Liberdade de expressão: sempre.
    Limite: o que entra na vida privada; – Excepção ao limite: quando o que o facto que é da vida privada interfere na vida pública, sempre que, se fosse conhecido antes, pudesse interferir na eleição/ nomeação. Se se pretende que um PM defenda o seu cargo como se fosse “casado” com o seu povo, existirá o vício sobre a personalidade no momento da celebração do contrato, que pode levar à anulação ( desculpem o exagero da comparação).
    Vida intíma e orientação sexual: sempre privada – excepção- a já referida pela maioria das opiniões- a não ser que haja desonestidade gritante de viver de uma forma e legislar em sentido oposto. Concluindo: loja de BH, não sou fanática ao ponto de achar que o PM não possa comprar lá um fatinho, se de passagem pelo lugar. MAS, se é assim tão exclusiva não terão posto o nome na montra sem o seu consentimento! ou estarei a ser ingénua!! que ganha ele com a publicidade? descontos, preço de saldo, outra qualquer vantagem, ou simplesmente entrar numa certa feira de vaidades???
    Por fim, alguém referiu, que já tivemos um PM que levava a “amante” para cerimónias públicas – não me parece esta comparação possível. Explico: no dicionário de língua portuguesa – Amante: aquela que faz amor com -. Assim, as esposas é suposto sejam amantes e as amantes esposas- quando uma e outra são a mesma, claro. Que eu saiba, há muito esse PM deixara de ser amante da esposa e a amante só não foi esposa porque morreu antes que que aquela desse o divórcio ao PM. Mas, para ambas as familías há muito os afectos haviam sido esclarecidos. Pelo menos é o que rezam os documentários históricos. Concluindo: penso que a maioria dos portugueses gosta que quem nos represente seja, simultaneamente, capaz, competente, honesto e coerente-eu gosto. Não o sendo, haverá liberdade em torná-lo público.

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