
Domingo à noite, logo após terem sido conhecidos os resultados eleitorais, José Sócrates revelou-se um digno aprendiz de Maquiavel. Em poucas frases colou-se ao vencedor, com o pragmatismo de um jogador de casino ao reconhecer que os dados estão lançados. E deu um abraço de urso a Manuel Alegre, como se nunca tivesse amarrado o PS a estratégias erráticas e derrotistas em dois sucessivos escrutínios presidenciais.
Lesto em sacudir a água do capote, o primeiro-ministro proclamou: “Estas são eleições presidenciais e os portugueses sempre souberam distinguir entre opções políticas nas legislativas – em que os partidos estão directamente envolvidos – e eleições presidenciais, que são baseadas em candidaturas individuais”. E logo a seguir, com aquela ligeireza que o caracteriza, acentuou: “Foi com orgulho que todos os socialistas estiveram ao seu lado [de Manuel Alegre].” Esta frase, além de contradizer a anterior, estava totalmente longe da verdade, pormenor irrelevante no habitual fio discursivo do primeiro-ministro, um hábil manipulador de pessoas e factos.
Marxismo puro, tendência Groucho: “Se estes princípios não servem, arranjam-se outros.” Alegre, tal como Mário Soares antes dele, acaba de ser arrumado na galeria de troféus do pragmatismo socrático. Foi, naturalmente, um chefe do Governo com ar tranquilo que na noite eleitoral garantiu ao País que “os portugueses optaram pela estabilidade política” ao elegerem Cavaco Silva, a quem Sócrates se apressou a prometer “cooperação institucional”. Subentende-se que Alegre traria instabilidade: é quase uma declaração a posteriori de voto contra o malogrado candidato socialista, duplamente derrotado no dia 23 – primeiro nas urnas, a 33 pontos percentuais do vencedor; depois na oratória daquele que é ainda o líder do seu partido, resta ver por quanto tempo.
Este Sócrates de verbo fácil e manha expedita fez-me lembrar o Marco António de Shakespeare dirigindo-se aos romanos logo após o assassínio de César às mãos de Bruto. “Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; / I come to bury Caesar, not to praise him; / The evil that men do lives after them, / The good is oft interred with their bones.”
A pressa é muita: ele veio para enterrar o candidato socialista, não para o louvar. E prestar desde logo tributo ao César de Boliqueime, renascido politicamente para novo mandato, cumprindo à risca o mandamento maquiavélico: há que “manter o ânimo dos súbditos aturdido e em suspenso”, evitando que possam “urdir tranquilamente algo contra ele”.
O purgatório pode esperar.

Um espectáculo deprimente, em directo e de borla. E vai directo para o baú dos “tesourinhos deprimentes”, se ainda lá houver espaço, claro. O ano de 2011 promete!…
Conhecendo-o como o conhece, Alegre não teve verdadeiramente motivos para ficar surpreendido com esta intervenção de Sócrates. E a estas horas certamente já se interrogou mil vezes sobre o erro que cometeu ao envolver-se nesta campanha, com o «apoio» do PS numa altura em que o partido atravessa uma das suas piores fases de sempre por ter traído a confiança do eleitorado que nele votou em 2005 e 2009.
Completamente de acordo e sublinho o rigor na descrição do perfil pragmático e (pouco) errático de Sócrates.
Cavaco terá dois amores? Saberá de qual gosta mais?
Sócrates mantém uma dívida de gratidão em relação a Cavaco. O artigo deste no ‘Expresso’ no final de 2004 sobre a dicotomia «boa moeda/má moeda» foi crucial para abrir o caminho ao actual poder socialista. Cavaco pode orgulhar-se do que fez: nunca tivemos tão «boa moeda» como agora…
Clap, clap,clap,clap (sou eu a bater palmas, Pedro).
Grande post!!
Obrigado, Pedro.
Grande post, de facto. Lúcido e claro. “Marxismo puro, tendência Groucho” seria um bom epitáfio para este Sócrates de pacotilha, quando um dia nos fizer o favor de provar finalmente o seu cálice de cicuta.
(falo da morte política, claro, porque não desejo a outra a ninguém)
Obrigado, Ana. Por mim, podem beber a cicuta (metafórica) a meias, Sócrates e Cavaco. Há muito que os considero duas faces da mesma moeda. Os resultados estão à vista de todos.