O que eles disseram de olhos nos olhos (6)


Pedro Correia,

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ANTÓNIO JOSÉ SEGURO:

«Precisamos de um Presidente da República com experiência política, que não venha ao improviso, que não venha aprender no cargo.»

«Sinto-me bem acompanhado. Tenho recebido apoio por todo o País. Na semana passada, 127 presidentes de câmara. Sou um candidato feliz.»

«Temos um sistema político desequilibrado. Precisamos que o campo político que eu represento tenha presença nos órgãos de soberania.»

«A grande diferença entre nós é que eu não utilizo o poder para humilhar os meus subordinados, como o senhor fez na Madeira. Quando rejeitamos a dignidade humana, não fazemos coisas como essas.»

«É indigno o que o senhor fez. Mostra como exerce o poder em público. Isso não o qualifica para Presidente da República.»

«Sou professor universitário: vivo do meu trabalho. Sou um pequeno empresário: vivo do risco de empreender. Não sou dependente da política.»

«O senhor não vai para Belém dar ordens aos partidos. O senhor tem de dialogar. Que experiência tem de diálogo com os partidos e com os governos?»

«Votar em si é uma aventura. É um tiro no desconhecido.»

«Liderar, em democracia, não é dar ordens. Liderar em democracia é fazer compromissos e alianças, é promover consensos.»

«Quando estava a ouvi-lo, parecia-me a Catarina Martins. Ela disse precisamente aqui os mesmos argumentos.»

«O senhor diz que é um candidato independente. Quem é que foi reunir com o líder do CDS, à noite, num bar de Lisboa? Foi o senhor. Quem é que foi almoçar, num almoço secreto, com o líder do Chega? O senhor. Quem é que escolheu como mandatário um ex-líder do PSD? O senhor. CDS, Chega, PSD – todos juntos. É isso que o senhor representa.»

 

HENRIQUE GOUVEIA E MELO:

«Portugal está à procura de um líder porque a Presidência é liderança.»

«António José Seguro não é um líder para os tempos modernos. O doutor Mário Soares disse isso de forma clara há 11 anos. Disse que o senhor é inseguro.»

«O senhor esteve onze anos fora da política e vem agora tentar reciclar a sua carreira política.»

«Nestes onze anos, eu estive presente. Estive em Pedrógão, estive no processo de vacinação, que foi difícil.»

«O senhor é um candidato nem-nem. Não é líder.»

«A minha alocução [na Madeira], naquele momento, parou um rastilho perigoso para as forças armadas. Se não percebe isso, não tem qualidades para ser comandante supremo das forças armadas.»

«A Presidência da República, para mim, é uma missão. E já provei essa capacidade na pandemia. Tive de lidar com uma grande desorganizazção. Estive presente, fui líder, apresentei resultados. Sou um profissional dos resultados.»

«Não me retirei perante um desafio.»

«O senhor é um líder  estagnação.»

«Eu represento o PS. O senhor representa uma facção do PS, nem consegue fazer o pleno do PS.»

«Eu não sou europeísta. Tenho um pé na Europa, tenho outro no Atlântico.»

 

Excertos do debate ocorrido ontem à noite na SIC, com eficiente moderação de Clara de Sousa.

9 comentários em “O que eles disseram de olhos nos olhos (6)”

  1. 👞 Almirante na Sapataria

    O Almirante Gouveia e Melo, fardado e com a pose de quem acabou de engolir um garfo, entra na “Sapataria Elite” em Belém.

    “Preciso de uns sapatos fortes e que resistam à liderança.”

    A vendedora, uma senhora habituada a lidar com diplomatas, abana a cabeça. “Temos uns italianos muito bons, Almirante. Para a Presidência, por exemplo.”

    “Não. É mais complexo. O meu pé direito… ele é europeu. Gosta de veludo, de solo firme, de regulamentos. Mas o esquerdo… o esquerdo está no Atlântico.”

    A vendedora congela. “No… Atlântico, Almirante? Quer dizer que ele está… molhado?”

    “Ora, claro que está molhado! É o Atlântico! Mas como é o pé esquerdo tem de estar submerso e a sentir a corrente.
    Por isso, preciso de um sapato com solidez para o continente, talvez até com biqueira de aço, mas no esquerdo que tenha, sei lá, drenagem. Ou que seja umas barbatanas de couro. Algo que transmita a mensagem de que eu estou presente nos dois lados. Em terra e no mar.”

    Ele aponta para o pé esquerdo, que pinga discretamente no mármore.

    “Este sapato tem de ser líder. Tem de provar a sua capacidade na pandemia do oceano! Se o doutor Seguro fosse comprar sapatos, comprava uns para a estagnação. Eu preciso de uns para a Missão!”

    A vendedora, sem pestanejar, traz uma galocha esquerda cor de rosa.

    “Almirante, é o que temos à prova de água. É um “tiro no desconhecido”, eu sei, mas pelo menos não afunda.”

    Gouveia e Melo revira os olhos, com a dignidade humana ferida.

    “Isto é indigno. Acha que o Sócrates me vai continuar a apoiar com uma galocha dessa cor?”

    Sai da loja, deixando um rasto salgado e o sapato direito bem seco. O esquerdo nem por isso.
    Deixa apenas o testemunho da dificuldade de governar um país com os pés.

    1. Ao excelente texto “Almirante na Sapataria” dou cinco estrelas ⭐️
      O meu voto 🗳️ vai para o socialista, odiado pela ala esquerda do PS.
      Eu gosto de uma esquerda moderada e moderna.

  2. Vai caindo a máscara ao Almirante, que é de facto um autoritário com um verniz de charme que estala facilmente; e que da política já aprendeu a dar os golpes baixos, ainda que não tenha tido tempo para aprender que o Orçamento de Estado é uma Lei e não “leis”. O diabo está nos detalhes, e há falhas que desnudam a profundidade da ignorância…

    Sem mais intervenção pública para apresentar, puxa pelos galões e mete a cassete da “organização da pandemia”, ao que me parece com cada vez menos convicção; talvez comece a perceber que, sendo currículo importante e até honroso, é currículo desfasado da função a que concorre, acabando tão magna coisa por soar a poucochinho…

    E o Seguro aproveitou bem essa fraqueza curricular, que deixa mais à vista os “pés de barro” do garboso militar, que afinal foi de palanque às costas e com a comunicação social em séquito dar reprimenda pública e de dedo em riste a homens e mulheres feitos, numa situação em que não tinham hipóteses de defesa; ou do mítico “candidato independente” que afinal foi a todas as que lhe abriram a porta, como se costuma dizer, ou que (em mais do que um assunto, é recorrente) diz ter “um pé aqui e outro ali”… Detalhes, mas que ficam no ouvido e que definem quem os diz.

    O último parágrafo “Seguro dixit” que o Pedro reproduz foi, a meu ver, assassino. O sonsinho voltou a eriçar a crista, até porque aquela entrada do nosso charmoso Almirante sobre o que Soares terá dito sobre o “inseguro Seguro” foi rasteira, mas não paralisante como seria suposto. Pelo contrário.

    “É indigno o que o senhor fez. Mostra como exerce o poder em público. Isso não o qualifica para Presidente da República.” ou “O senhor não vai para Belém dar ordens aos partidos.”, pelo conteúdo e pelo tom, agradariam decerto a Mário Soares.

    1. O que é isso de “um autoritário”. O António costa é autoritário, o Galamba é autoritário, a Ana Gomes é autoritária. Ocorrem-me dezenas de exemplos de gente desagradável.

      No caso da “humilhação em público”, lembremos que a situação ocorreu no contexto militar — e que se tratou de uma revolta de elementos comunistas que se recusaram a acatar ordens superiores (porque se tratava de patrulhar um barco russo) e sempre no velho estilo esquerdista resolveram desobedecer às ordens que receberam calculando de antemão que o efeito jornalístico acabaria por os defender da insurreição e traição que cometeram. O seu comentário é a prova disso, desse cálculo antecipado. Provavelmente ainda lá estão, a receber um salário que não merecem. E daqui a dez aninhos reformam-se ao 50 anos por “motivos de saúde”. Há coisas que não mudam.

      1. Não podia concordar mais com o V.: o mundo está cheio de gente desagradável.
        Tanta que o melhor é dedicarmo-nos a um autoritário de cada vez, apenas se necessário e por ordem de chegada.

        No caso da “humilhação em público” lembremos também que o assunto das traições e insurreições e humilhações acabou no Tribunal próprio, com o Almirante a receber a devida paga pelo, digamos, excesso de zelo patriótico; e com as provas do péssimo estado do navio a serem inocentemente obliteradas, quem sabe pela empregada da limpeza. Um Tribunal também de comunistas, deve ter sido, infiltram-se em todo o lado.
        Mas talvez o V. achasse melhor que os marujos fossem cumprir abnegadamente a missão de vigiarem o barco russo na traineira esburacada e ainda acabassem a ter que ser pescados da água pelos russos vigiados… Isso é que ia ser uma glória para o anedotário nacional.

        Os marujos também têm direito à vida, que diabo!, isto não é a Coreia do Norte a oferecer carne para canhão ao Putin, nem o dramalhão dos amotinados da “Bounty”…

        Depois, para quem viu a encenação, e eu vi, aquilo foi mesmo humilhação – não só premeditada como gratuita. Porque o V. tem toda a razão quando fala do ‘contexto militar’ do caso, logo decerto concordará que o mesmo exigiria outro decoro, outra postura e outra actuação que não o “reality show” burlesco com que o Almirante pensou brindar-nos.

        Quer dizer, a alguns até brindou, mas não a todos. Como o V. diz, há coisas que resistem à mudança, e apreciar autoritarismos e “homens fortes” é uma delas – ciclicamente volta a moda, como as calças à boca de sino.

        Se provavelmente os marinheiros ainda lá estão? Estão, é uma certeza. E o Almirante provavelmente também não desgostaria de ainda lá estar, em vez de se ter metido em aventuras fora de pé.

  3. Nem sei qual a utilidade destas eleições…
    Visto que há vitórias e empates como na Liga de futebol, faziam a classificação geral, e no fim uns desciam de divisão (ficavam impedidos de se candidatar a qualquer cargo nacional, só de Juntas para baixo) e quem ficasse apurado para as competições europeias podia optar entre ir a uma segunda volta (a eliminar, tipo playoff) ou seguir directamente para o Parlamento Europeu

  4. Uma farda bonita, decorada a preceito com condecorações merecidas ou não, uma postura aprumada e um metro e noventa e picos de altura, dava uma vistosa capa de revista anunciando o novo Presidente dos portugueses. Mas o que aqui se trata é saber se a farda será capaz de ocupar a cadeira a que se propõe, numa posição tão cheia de ambiguidades que requer bem mais que uma voz de comando e exige, isso sim, a elasticidade diplomática do rato, que consegue roubar o queijo sem ser entalado na armadilha, com o gato a assistir na expectativa do que fazer a seguir. A prática política requer experiência, tarimba comprovada e vivida nos corredores do poder, o suporte de uma inteligência pragmática, e o bom senso de falar o que deve só quando deve. Acho que A.J.Seguro se enquadra melhor neste perfil, tendo vindo a crescer no confronto com os outros candidatos, não abusando de ataques panfletários, com uma linguagem contida e argumentação consistente. Será o senhor que se segue?

    1. Concordo: entre todos os candidatos, não me parece que algum apresente melhor perfil para o cargo do que Seguro, tanto a nível dos conhecimentos exigíveis, como da postura, da atitude, da boa educação natural.
      Nada disso falta a Marques Mendes, dir-se-á. Mas Marques Mendes é demasiado “sistema”, demasiado previsível; e tenho a sensação, porventura injusta, de que há ali um “excesso de bagagem” advinda da sua muita experiência – e vivência…- nas elites políticas. Já não é a primeira vez que tem que se pôr na defensiva por via disso mesmo e, na minha opinião, explica-se muito mas defende-se mal.

      Depois, como o Carlos Arnaut bem diz, Seguro tem vindo a crescer no confronto com os outros candidatos, apurando uma faceta combativa que bastante lhe faltava – mas que afinal está lá.

      Seja como seja, a prioridade é deter Ventura. Cheguei a pensar só ir votar na segunda volta, mas o melhor é não arriscar, o caso é demasiado sério.

      1. “Seja como seja, a prioridade é deter Ventura”
        Tem toda a razão. A presença desta figura numa segunda volta pode ser prenúncio de desgraça, quando a oratória é posta ao serviço da mentira e o ideário político por que se rege traz à memória uma certa cruz exibida por alguns dos seus torcionários. Quanto a Marques Mendes partilho também a sua opinião, está há demasiado tempo enredado nas malhas do poder, não acredito que não haja dívidas a pagar, favores a retribuir, amigos a recompensar, rabos de palha que certamente influenciarão o seu magistério. O futuro dirá, já estamos perto.

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