Hoje é um dia importante para a América Latina.
Na Bolívia será referendada a nova Constituição que, ao contrário do que por vezes se lê na nossa imprensa, não avaliza o aumento de poder de Evo Morales. Pelo contrário, prevê a eleição directa para o Tribunal Constitucional e, mais importante, devolve aos povos indígenas a sua dignidade, graças ao reforço dos direitos que lhes tinham sido usurpados.
Evo Morales tem tido grande dificuldade em fazer cumprir as promessas feitas quando foi eleito, por força da oposição da extrema-direita que não quer perder as suas regalias e é despudoradamente apoiada pela Igreja Católica. Espera-se, no entanto, uma vitória relativamente folgada do sim e a restituição, aos povos indígenas, do comando dos seus destinos.
A importância deste referendo para aquela região reflecte-se na presença dos principais países sul-americanos na Bolívia como observadores – através do Mercosur e da Organização dos Estados Americanos (OEA) – mas também da União Europeia, que enviou uma delegação para seguir de perto os acontecimentos.
Depois da vitória da Frente Farabundo Marti, nas eleições do passado domingo em El Salvador, uma vitória de Morales no referendo poderá significar a mudança há muito esperada na região, libertando-se das grilhetas dos Estados Unidos que sempre têm inviabilizado as tentativas democráticas, apoiando sistematicamente a extrema-direita, na organização de golpes que culminaram em ditaduras sangrentas.
Não vi nenhuma referência, na imprensa portuguesa, à mensagem que Cristina Kirchner enviou ao recém-empossado presidente americano, mas espero que não seja ignorada na Casa Branca. Ao pedir a Obama que repense a política dos EUA na região e evite cometer os erros dos seus antecessores, a moderada presidente argentina – que recentemente esteve em Cuba com Fidel – enviou um sinal que Obama deverá interpretar como um pedido ao fim da ingerência dos americanos nos destinos dos povos latino-americanos. Prosseguir a política dos seus antecessores poderá resultar numa radicalização de posições que só fortalecerá Chavez e os movimentos radicais.
Numa zona do globo onde cresce a cada dia que passa um sentimento anti-americano, Obama pode ser tentado a repetir o episódio da Baía dos Porcos se não tiver o bom senso que se lhe exige e Cristina Kirchner fez o favor de lhe relembrar.

que o novo “fazendeiro” utilize bem o seu “borda de água” no seu novo quintal.
É como bem diz e como Kirchner faz questão de relembrar, existe hoje uma nova realidade na América Latina que urge acompanhar. Não com os olhos de de uma extrema-direita passadista mas com os de quem reconhece que ali é possível viver em harmonia com os povos que ali nasceram. O inquilino da Casa Branca deve pôr termo a décadas de práticas golpistas e com a sua própria história lembrar-se que quem ali vive também tem direito a traçar o seu futuro.
Também eu acompanho com particular atenção o que de passa neste domingo na Bolívia e espero que se não repitam as convulsões do último referendo.