Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida…
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto.
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se “Sangue do meu sangue”.
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte.
Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da imaginação que irriga constantemente, incansável e diligente.
Há quem tenha sangue azul; o meu pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.
Não faz mal, fica meu e só meu e de vez em quando mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados nesta velha carcaça, sem poder sair.
(Republicação)

🩸 O Diálogo
M. Dulce: Pronto, lá vamos nós outra vez. Mais uma volta neste dédalo.
Sangue (ORh+)(Suspiro celular, quase inaudível): Porra. Já estou farto de andar às voltas nesta porcaria de labirinto salgado e morno.
M. Dulce: Não sejas assim. És o meu sangue. O meu sustento. O meu “imparável corredor de fundo”.
Sangue (ORh+): “Sustento”? “Corredor”? Sou um pacote de sumo de tomate com um salgado extra, a levar oxigénio a células que, sejamos honestos, vão morrer na mesma. O que eu sou é o entregador de pizzas que nunca vê a luz do dia, e a gorjeta é mais uma dose de colesterol ou uma noite mal dormida.
M. Dulce: Mas eu mimo-te com chocolates!
Sangue (ORh+): Ah, sim. Os chocolates. O meu momento de glória. Mais glicose para congestionar o trânsito nos meus canais. É tipo um buraco na estrada, mas doce. Adoro.
M. Dulce: Eu disse que eras meu e só meu. “Fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável”.
Sangue (ORh+): Oh, fala-me da inviolabilidade. Sabes porque é que sou só teu? Porque ninguém me quis. Lembras-te? Fui chumbado. Fui o gajo que chegou à porta e disseram: “Obrigado, mas não. Você não é especial o suficiente para salvar ninguém. Volte para a sua prisão”. O meu destino é apodrecer aqui dentro e depois ser comido pelos vermes contigo. Que honra.
M. Dulce: Pelo menos não sou “sangue azul”. O meu pai falava do Tejo…
Sangue (ORh+): E então? Eu sou sangue vermelho da cor dos tomates.
Se fosses uma pessoa decente, terias tido o fator Rhesus negativo, para me dar um bocadinho de drama. Mas não. ORh+.
M. Dulce: Às vezes gela, outras ferve, corre que nem doido… Isso sou eu a sentir!
Sangue (ORh+): Isso é a tua química a dar em doida. Não sou eu. Sou o canalizador que se limita a obedecer às bombas. Se gela, é porque estás a passar frio. Se ferve, é a ansiedade a queimar os teus neurónios.
M. Dulce: Não podes ser mais optimista?
Sangue (ORh+): Olha quem fala. Como é que eu posso ser optimista se sou um ORh+ que não serve para nada além de estar preso nesta velha carcaça.
Muito engraçado e espirituoso. Como será que o seu sangue se comporta consigo? Também usam uma espécie de diálogo Popeye -Olívia Palito, onde o quem é quem se confunde na intersecção dos impulsos nervosos? Mas gostei. Tem veia…
Para essas confusões não há nada melhor do que uma lata de espinafres.
E então se for umas pataniscas de bacalhau com um arrozinho de espinafres, nem lhe digo.
Espinafres sempre, mas não com pataniscas. Arroz de feijão, malandrinho e cremoso é que é. Faz bem ao sangue e é uma excelente fonte de ferro.
Folhados de salmão com espinafres e ricota. Isso sim.
Pronto, tinha de ser. Uma pessoa sugere um prato tipicamente português e leva logo com uma ricota emocional.
Que falta de sensibilidade a minha! Ou que sensível que se anda por essas bandas ultimamente. Pick your poison…
Bom dia
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Vou pedir ajuda aos meus netos, que são peritos no ” Divertidamente2″
Mas há melhoras. Vai devagar mas vai. Obrigada Marina.
Tem meio caminho andado para se tornar Testemunha de Jeová…
Pode parecer anedota, mas os meus pais convidaram uns amigos recentes para almoçar e a minha mãe resolveu deslumbrar as visitas com um espectacular arroz de cabidela. Ou a educação foi mais forte do que a religião, ou estava mesmo bom, porque comeram e repetiram. Só muito tempo depois ficámos a saber que eram “Estudantes da Bíblia Sagrada”… A família toda e há bastantes anos. Mas nunca calhou falarem nisso
Minha Senhora, não se preocupe mais com o seu sangue…, não é um sangue oculto -é um sangue culto, muito culto e divertido, cativante…
Obrigada, muito obrigada. Fico-lhe hematologicamente grata!
Percebi finalmente, cara Maria Dulce, quão complexo é o fluído que percorre as estradas e as veredas das minhas miudezas. A análise bem humorada do hipotético Doutor Carlos Sousa veio ainda acrescentar à sua descrição a importância que devemos atribuir a tal fluído, enquanto que em simultâneo nos deleitamos com aquilo que não devíamos para o fazer tropeçar no caminho e se vingar com um AVC. Foi um prazer ler este seu postal, obrigado.
Sou eu quem agradece, sobretudo por ter entendido os meus devaneios literários, complementados pela veia ( artística, claro) do Carlos Sousa que, quando quer, é formidável.
A troca de comentários entre a MDF e
o Carlos Sousa diverte-me imenso.
Aguardo por mais.
Comme l’eau pour le chocolat, mas tem tido os seus momentos, sim.
E não é recente. O Carlos Sousa agora tem
recurso à IA o que não é o caso da MDF porque
está muito longe de lhe ser necessária .
Ě que torna essas trocas interessantes e divertidas.
Marota… E eu a pensar que não tinha topado a “prótese”…
Pois eu sou AB-. É muito agradável, muito exclusivo, podemos receber de todos mas só podemos dar aos nossos; ou seja, também é um elitismo de sangue, como o azul, mas menos enfeudado, também pode ser republicano.
E isso do sangue oculto, a prezada Maria Dulce já sabe: se aparecer no sítio errado, o melhor é ir rapidamente ao médico… (nem acredito que fui a primeira a lembrar-me da piadinha de m…, eheheh).
No caso do Sperti H não funcionar, não se deve desvalorizar
Ainda a propósito das suas insónias , MDF.
Eu também sofro desse problema desde o fim
da minha adolescência. Hoje devido ao meu
cansaço crónico é um terrível problema.
Comprei um monte de almofadas e nenhuma me convenceu,
até que me indicaram as almofadas com sementes.
Aqui as sementes são de “ sarrazin” . Procurei em português e deu-me
vários tipos. Se estiver interessada, tenho a certeza que vai encontrar.
São para mim as melhores. A nuca e o pescoço ficam perfeitamente
adaptados o que é essencial. Fica a dica.
Bom fim-de-semana cara MDF.
Ok. Obrigada Kika . Vou-me informar. Bom fim de semana para si também. Por cá são 3 dias .