O sangue oculto


Maria Dulce Fernandes,

Diz-se que o sangue fala mais alto.

O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.

Diz-se que tudo é uma questão de sangue.

O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o  factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.

Diz-se que o sangue lava a honra.

Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida…

Diz-se que sonhar com sangue é desgosto.

Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.

Diz-se “Sangue do meu sangue”.

Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.

 

É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte.

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da imaginação que irriga constantemente, incansável e diligente.

 

Há quem tenha sangue azul; o meu pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.

Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  

Não faz mal, fica meu e só meu e de vez em quando mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados nesta velha carcaça, sem poder sair.

 

(Republicação)

24 comentários em “O sangue oculto”

  1. 🩸 O Diálogo

    M. Dulce: Pronto, lá vamos nós outra vez. Mais uma volta neste dédalo.

    Sangue (ORh+)(Suspiro celular, quase inaudível): Porra. Já estou farto de andar às voltas nesta porcaria de labirinto salgado e morno.

    M. Dulce: Não sejas assim. És o meu sangue. O meu sustento. O meu “imparável corredor de fundo”.

    Sangue (ORh+): “Sustento”? “Corredor”? Sou um pacote de sumo de tomate com um salgado extra, a levar oxigénio a células que, sejamos honestos, vão morrer na mesma. O que eu sou é o entregador de pizzas que nunca vê a luz do dia, e a gorjeta é mais uma dose de colesterol ou uma noite mal dormida.

    M. Dulce: Mas eu mimo-te com chocolates!

    Sangue (ORh+): Ah, sim. Os chocolates. O meu momento de glória. Mais glicose para congestionar o trânsito nos meus canais. É tipo um buraco na estrada, mas doce. Adoro.

    M. Dulce: Eu disse que eras meu e só meu. “Fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável”.

    Sangue (ORh+): Oh, fala-me da inviolabilidade. Sabes porque é que sou só teu? Porque ninguém me quis. Lembras-te? Fui chumbado. Fui o gajo que chegou à porta e disseram: “Obrigado, mas não. Você não é especial o suficiente para salvar ninguém. Volte para a sua prisão”. O meu destino é apodrecer aqui dentro e depois ser comido pelos vermes contigo. Que honra.

    M. Dulce: Pelo menos não sou “sangue azul”. O meu pai falava do Tejo…

    Sangue (ORh+): E então? Eu sou sangue vermelho da cor dos tomates.
    Se fosses uma pessoa decente, terias tido o fator Rhesus negativo, para me dar um bocadinho de drama. Mas não. ORh+.

    M. Dulce: Às vezes gela, outras ferve, corre que nem doido… Isso sou eu a sentir!

    Sangue (ORh+): Isso é a tua química a dar em doida. Não sou eu. Sou o canalizador que se limita a obedecer às bombas. Se gela, é porque estás a passar frio. Se ferve, é a ansiedade a queimar os teus neurónios.

    M. Dulce: Não podes ser mais optimista?

    Sangue (ORh+): Olha quem fala. Como é que eu posso ser optimista se sou um ORh+ que não serve para nada além de estar preso nesta velha carcaça.

    1. Muito engraçado e espirituoso. Como será que o seu sangue se comporta consigo? Também usam uma espécie de diálogo Popeye -Olívia Palito, onde o quem é quem se confunde na intersecção dos impulsos nervosos? Mas gostei. Tem veia…

      1. Para essas confusões não há nada melhor do que uma lata de espinafres.
        E então se for umas pataniscas de bacalhau com um arrozinho de espinafres, nem lhe digo.

        1. Espinafres sempre, mas não com pataniscas. Arroz de feijão, malandrinho e cremoso é que é. Faz bem ao sangue e é uma excelente fonte de ferro.
          Folhados de salmão com espinafres e ricota. Isso sim.

          1. Pronto, tinha de ser. Uma pessoa sugere um prato tipicamente português e leva logo com uma ricota emocional.

    1. Pode parecer anedota, mas os meus pais convidaram uns amigos recentes para almoçar e a minha mãe resolveu deslumbrar as visitas com um espectacular arroz de cabidela. Ou a educação foi mais forte do que a religião, ou estava mesmo bom, porque comeram e repetiram. Só muito tempo depois ficámos a saber que eram “Estudantes da Bíblia Sagrada”… A família toda e há bastantes anos. Mas nunca calhou falarem nisso

  2. Minha Senhora, não se preocupe mais com o seu sangue…, não é um sangue oculto -é um sangue culto, muito culto e divertido, cativante…

  3. Percebi finalmente, cara Maria Dulce, quão complexo é o fluído que percorre as estradas e as veredas das minhas miudezas. A análise bem humorada do hipotético Doutor Carlos Sousa veio ainda acrescentar à sua descrição a importância que devemos atribuir a tal fluído, enquanto que em simultâneo nos deleitamos com aquilo que não devíamos para o fazer tropeçar no caminho e se vingar com um AVC. Foi um prazer ler este seu postal, obrigado.

          1. E não é recente. O Carlos Sousa agora tem
            recurso à IA o que não é o caso da MDF porque
            está muito longe de lhe ser necessária .
            Ě que torna essas trocas interessantes e divertidas.

  4. Pois eu sou AB-. É muito agradável, muito exclusivo, podemos receber de todos mas só podemos dar aos nossos; ou seja, também é um elitismo de sangue, como o azul, mas menos enfeudado, também pode ser republicano.

    E isso do sangue oculto, a prezada Maria Dulce já sabe: se aparecer no sítio errado, o melhor é ir rapidamente ao médico… (nem acredito que fui a primeira a lembrar-me da piadinha de m…, eheheh).

  5. Ainda a propósito das suas insónias , MDF.
    Eu também sofro desse problema desde o fim
    da minha adolescência. Hoje devido ao meu
    cansaço crónico é um terrível problema.
    Comprei um monte de almofadas e nenhuma me convenceu,
    até que me indicaram as almofadas com sementes.
    Aqui as sementes são de “ sarrazin” . Procurei em português e deu-me
    vários tipos. Se estiver interessada, tenho a certeza que vai encontrar.
    São para mim as melhores. A nuca e o pescoço ficam perfeitamente
    adaptados o que é essencial. Fica a dica.
    Bom fim-de-semana cara MDF.

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