
Tal como, desde há muito, existe em bastantes países europeus foi há pouco tempo instalado este Sistema de Depósito e Reembolso, bem chamado (e “designado”) “VOLTA”, destinado a que devolvamos para reciclar as garrafas de plástico e latas que nos inundam a vida.
O sistema é simples e quase todos o conhecerão: paga-se 10 cêntimos a mais por garrafa ou lata e recebe-se de volta na devolução. Já li muitos protestarem por isto, um “esbulho” afiançam. Uma verdadeira manobra da “mão visível” do “capitalismo” (já não se diz o tremendo disparate “multinacionais americanas” mas é como se dissessem)!
Um tipo pode afirmar, como evidente dogma: “é necessário (virtuoso) reciclar este material”. E depois perguntar-se “se não fosse assim, as pessoas devolveriam?”. Claro que a maioria não o faria, por descuido ou desinteresse.
E também pode argumentar: em alguns países escandinavos, com este mesmo sistema, a percentagem de recolha ronda os 90% – e lá as pessoas têm bem mais dinheiro, Devem ser efeitos dessa coisa “cultura” (ou da velha “ética protestante”, dirá alguém que tenha lido Max Weber). Ou então, dirão os tais contestatários de sofá, da fracção “indignista”, esses nortenhos estão mais alienados do que nós, seguem algemados aos intentos dos capitalistas.
As máquinas estão aí espalhadas – muitas nas “grandes superfícies”, como se chamam agora aos supermercados. E há tanta coisa para criticar a este macro-retalho: o quanto pressionam os produtores nacionais; o quanto estipulam a inflação, de forma que é impossível não suspeitar do exercício de cartel; já para não falar de terem dinamizado aquelas energúmenas patadas urbanísticas, desde o tempo de Cavaco Silva – naquela parolice do “maior centro comercial do país”, “da península”, da “Europa”, etc. Uma desregulamentação (ao invés do existente em tantas outras cidades europeias) que devastou os comércios de rua, os centros “históricos” – esses que agora se dizem “estragados” pelos “hotéis” e pelo “turismo”…. O desmemoriar individual é uma lamentável degenerescência, a senescência. Mas o desmemoriar colectivo é uma forma extrema de boçalismo.
Enfim, se há tanta coisa a criticar a estes grandes grupos, os nacionais e os estrangeiros, com toda a certeza que não é este VOLTA.
Entretanto, na semana passada, pela segunda vez fui devolver. E reparei num pormaior do sistema. Fiquei atrás de um devolvedor. Um tipo no início dos seus 30. Aspecto de vagabundo (abriguem-me de usar o patético “sem-abrigo”) cuidado, desaparentando a condição “junkie”. Era óbvio que “anda ao lixo” e ali estava com o fruto da sua labuta, dois grandes sacos de lixo atafulhados, com imensas garrafas de água (as de litro e meio na maioria).
As pessoas não as devolvem, está visto. Mais ainda, amarfanham-nas, até as espalmam. Ora as máquinas recusam as garrafas (e latas) nesse estado. O que fazia o vizinho para colher os 10 cêntimos de cada uma, e assim os ir somando até à (parca) quantia que arrecadou? Soprava-as, até recuperarem o formato aceitável – e eu a pensar nos hipotéticos riscos que isso lhe acarreta. Julguei não ser curial fotografá-lo – perdeu assim este postal uma ilustração mais pessoalizada.
E fica apenas este meu resmungo: podem as pessoas continuar a clamar contra os “capitalistas” e/ou a ser sobranceiros face à reciclagem das ligas metálicas e dos plásticos. Ou até mesmo apenas na altivez do “preciso lá eu desse dinheiro!”.
Mas pelo menos não amolguem os recipientes. Não amarfanhem quem deles tanto precisa.

Muito bem.
Durante décadas de sensibilização para a reciclagem ensinou-se que era uma boa coisa amarfanhar, amassar, achatar, amolgar, espalmar as embalagens de uso único. Economia de espaço, eficiência de processos, optimização de recursos.
E implementa-se agora um sistema que torna esse gesto proibido. O absurdo da situação é simplesmente exasperante.
Sim, tem razão, isto implica modificações nos hábitos. Mas nos hábitos de … alguns. Eu coloquei este texto no FB e logo me apareceram críticos (do “sistema”, como é evidente). Fui pesquisar para lhes responder. E deixo aqui a minha resposta, não para o contradizer mas sim para sublinhar que se justifica apelar a esta mudança de (bons) hábitos:
“A separação de lixo para sua recolha começou, de forma institucionalizada, em 1996. Os dados mais recentes, de 2024, indicam:
– Em Portugal, a recolha indiferenciada (lixo comum) ainda representa cerca de 77% de todos os resíduos urbanos produzidos, o que significa que a recolha selectiva (lixo discriminado/reciclagem) fixa-se em apenas 16% a 23% do total nacional. A taxa global de preparação para reutilização e reciclagem situa-se nos 37%, encontrando-se abaixo das metas estipuladas pela União Europeia.
– Lixo Indiferenciado: Cerca de 77% do lixo vai para o contentor comum. Portugal ainda envia 57% do total de resíduos urbanos diretamente para aterros.
– Vidro: É o material com melhor desempenho em Portugal, liderando o destino correto na recolha selectiva.
– Plástico: Apresenta uma taxa de reciclagem muito baixa, onde apenas 22% do plástico descartado é efectivamente reciclado.
– Biorresíduos (Lixo Orgânico): Embora representem cerca de 40% do lixo doméstico, a sua recolha selectiva atingiu apenas 12% a nível nacional, apesar de estar em expansão nos municípios.”
Diante desta realidade não é possível reduzir a uma mera “duplicação” ou até mesmo a uma “perversão” esta introdução de um outro sistema de entrega de lixo seleccionado, potenciado através de um acicate económico. Só um finca-pé ideológico pode sustentar essa posição. E acrescento que não se poderá justificar, neste caso, 30 anos depois, brandir o velho “optimismo pedagógico” reclamando bastar “educar o povo” através de “campanhas de sensibilização”. Caramba, não é óbvio?!
Não o acompanho neste seu postal. No meu entender o sistema adoptado não vai funcionar.
Repare-se no caso das garrafas de água: estas só podem servir de matéria prima para a feitura de outras embalagens, ou de outros artefactos de “plástico”, pelo que será sempre útil amachucá-las, para reduzir o espaço que ocupam quando inteiras (com a rolha agarrada), sem qualquer préstimo, que não seja o que resulta da sua destruição, uma vez que nunca podem ser reutilizadas.
Tenho para mim que o fim seria rapidamente alcançado se os nossos governantes enveredassem pela aplicação de coimas ou multas, caminho que não querem percorrer porque, julgam, não dará votos.
Bem, respondi com alguns dados substantivos no comentário anterior, em prol desta medida. Entretanto coloquei este texto no meu mural de FB e alguns amigos (reais ou digitais) que vivem em países europeus, comentaram referindo que nos países onde estão imigrados estes sistemas funcionam há já muito e com muito sucesso na recolha de lixo plástico.
Tanto quanto sei, assim que a máquina “lê” a garrafa/lata devolvida, amachuca-a, pelo que o excesso de “espaço que ocupam” até à instalação que recolhe resíduos não se põe.
A máquina faz o que nos é interdito, o sistema usa da conveniência que não nos permite. Ilógico.
Nada ilógico, muito pelo contrário. Sem um código QR legível, a máquina não consegue classificar os artigos que são devolvidos. Depois de classificados, poderão ser esmagados e remetidos aos respectivos depósitos.
Descomplicar faz bem.
Queria você dizer: sem um código de barras e símbolo legíveis.
Aliás, o sistema “Volta” vem dificultar significativamente a passagem para a utilização dos códigos QR e das garrafas sem rótulo, que constituem já uma importante revolução na reciclagem.
eu não reciclo , sobretudo porque não consumo embalagens , e porque não faço trabalhos não pagos. ou seja , mesmo que fizesse imenso lixo , jamais reciclaria. se querem sacar valor do que consumo , trabalhem.
mas no verão bebo imensa água das pedras , com gengibre e limão e gelo , as garrafas estão num saco do lixo , inteiras , estou a pensar se vou ao volta ou se as dou a um miúdo da esplanada a que vou e que tem como uma das suas tarefas devolver as garrafas dos clientes ao volta…. suponho que lhas darei. porque gosto dele e as minhas garrafas são como gorjeta. o meu gosto por ele sobrepõe-se ao meu desagrado por trabalhos não pagos.
ok
Por essa lógica, deite o lixo no chão, se querem que seja asseada que paguem para isso, não respeite os semáforos, se a querem fazer perder tempo, que paguem para isso, não seja bem educada com estranhos, eles não lhe pagam por isso e por aí fora.
Tratar o lixo é um problema comum que todos temos, contribuir para o resolver é uma questão de civilidade, não de ganhos imediatos.