Por termos sido um dia alunos, todos nos consideramos de alguma forma experts em matéria de Educação. A experiência que tivemos nesses tempos enquanto avaliadores, admiradores, detractores e nos casos mais rebeldes "torturadores" de professores autoriza-nos, pensamos nós, a formular um juízo acerca do que se passa hoje nas escolas. Acreditamos também que a natureza humana não muda, apesar das circunstâncias mudarem, e que uma selva é uma selva, em qualquer época, em qualquer lugar.
Foi nessa presunção que fui consolidando a minha própria avaliação dos professores que se dizem vítimas da indisciplina que grassa nas escolas. As minhas opiniões baseavam-se fundamentalmente numa convicção: a de que os alunos só respeitam quem sabe exercer autoridade e quem demonstra ter conhecimentos e vocação para ensinar. Partindo dessas premissas, a minha conclusão era óbvia: os professores que mais se queixam são incompetentes e os responsáveis naturais pelo clima de instabilidade que se foi instalando nas salas de aula. Os outros, os que têm qualidade, mantêm tudo sob controlo com relativa facilidade.
Para aferir da aplicação destas minhas linhas de raciocínio à realidade actual fui tendo a preocupação de fazer, sempre que se proporcionou, um rastreio junto dos adolescentes que conhecia. Os resultados eram, a meu ver, sempre compatíveis com os meus pontos de vista.
Mas há dias vi um filme que desmontou tudo o que eu tinha por adquirido. Em A Turma, no original Entre les Murs – a admirável película de Laurent Cantet, premiada o ano passado em Cannes com a Palma de Ouro e candidata ao oscar de melhor filme estrangeiro – a que todos devíamos assistir como se de um T.P.C. se tratasse, apresentou-me como protagonista um professor com todos os predicados que eu julgava suficientes para o bom exercício das suas funções. Revelava empenho, interesse, conhecimentos e capacidade de liderança, em suma, tinha tudo a seu favor, mas nem por isso deixou de ter problemas nas suas aulas.
Rompendo corajosamente com o ritmo que é mais adequado à acção cinematográfica, Cantet entra num registo próximo do documentário em que a dramatização existe unicamente para servir a realidade que pretende transmitir. A narrativa é espartana, despojada de enredos paralelos que nos permitam saber mais acerca das personagens e com elas criar uma empatia que nos distraia do que realmente se passa na sala de aula.
Como uma lição bem dada, a mensagem do filme chega-nos com a força de um manifesto: afinal não basta a um professor ter competências técnicas e humanas para usufruir de uma vida tranquila na escola.
Sem querer escamotear os problemas que decorrem da falta de preparação de muitos (arrisco a dizer demasiados) professores, o que eu aprendi naquela aula é que ao contrário do que se passava no meu tempo de estudante liceal, a noção de hierarquia perdeu-se (mercê das reformas educativas delirantes que foram retirando aos poucos a autoridade aos docentes).
Os rebeldes do meu tempo, quando desafiavam, desafiavam a autoridade, por isso quem sabia exercê-la podia aspirar a uma docência sem incidentes de maior. Hoje o conceito de autoridade quase não existe na escola. Aquela insolência a que assisti em A Turma é diferente da que eu conhecia. Os olhos destes miúdos – a acção passa-se em França, mas facilmente se intui que o quadro é em tudo idêntico ao nosso – têm raios laser, como os dos bonecos dos jogos vídeo. E atiram a matar.


Ainda não vi Teresa mas depois desta introdução e outras que li, torna-se obrigatório. Até porque partilho em muito a sua visão sobre o exercício da autoridade, eu, que em tempos, também fui rebelde.
Penso que o que falta hoje em dia talvez seja o suporte familiar e educacional. Mesmo que os tempos do antigamente tenham sido dificeis os “rebeldes” de hoje estão muito por “sua conta e risco” sabendo até onde ir sem penalizações. E mesmo com elas.
Obrigada por este texto 🙂 e Parabéns pela sua participação também por aqui *
Obrigada, Once. Gosto muito de a ver por aqui também. E é como diz: os rebeldes de hoje estão por sua conta e risco…
Também vi o filme há tempos e postei lá no meu canto sobre o filme.Sugeri que este filme fizesse,obrigatoriamente, parte da disciplina de educação civica nas nossas escolas.
Mais do que ser discutido nas escolas, este filme deve ser visto por todos os que estando fora desse universo não percebem bem do que se fala quando se fala de problemas no ensino.
Estamos de acordo;sobre discutir o assunto nas escolas e, sobre a sociedade discutir o que quer da escola.
Fabulosa análise, Teresa.
E nunca tão oportuna como agora.
Espero ainda ver o filme, se vier em DVD.
Cumprimentos. Ana
Viva, Ana. Não perca o filme. Acho que ainda está em cartaz nalguns – poucos – cinemas.
Também gostei muito de filme, embora me causasse enfado a tentativa de reabilitar a rebeldezinha estúpida e de nos colocar perante questões de consciência que o filme (e bem) tentou evitar durante os primeiros tempos.
Quem pode acreditar que aquela parva (o que é também da idade) lia a República? 🙂
Sim, o pormenor da República é bem observado, mas no geral pareceu-me uma abordagem muito honesta, preocupada em retratar com a maior fidelidade possível a realidade das escolas, sem tomar partidos.
Pelo que tenho lido, nos blogues imperam as certezas. As opiniões são formatadas como se de verdades absolutas se tratassem. Tendemos a dar mais atenção a quem diz o mesmo que nós do que às opiniões divergentes, que deveriam ser as mais estimulantes, apesar de nos contrariar. E qual a razão desta minha introdução que parece descabida como comentário ao seu postal? Porque fui agradavelmente surpreendida já que nesta sua mensagem isso não aconteceu. Apesar da sua mensagem ser longa li-a com atenção. Isto porque, tal como a Teresa Ribeiro tenho essa convicção do poder dos bons professores para manter um clima adequado dentro da sala e também tenho aferido essa opinião junto de jovens, sempre que posso. Fiquei curiosa em perceber o que no filme a tinha feito mudar de opinião. Gostei particularmente dessa ideia da inexistência de hierarquia e a questão da autoridade antes e depois.
Ando há bastante tempo para ver esse filme. A sua mensagem incentivou-me a fazê-lo rapidamente, antes que desapareça das salas de cinema. Obrigada por nos trazer essa sua reflexão.
Por ter tão fortes convicções quanto à justeza das minhas opiniões sobre o desempenho dos professores é que este filme me tocou tão fundo. Não é todos os dias que vemos os nossos argumentos – de muitos anos – derrotados por duas horas de filme…
Ao começar a ler o post, fiquei com a ideia errada de que tomava por certo que aos professores capazes era fácil manter as coisas na ordem.
Afinal, percebi que não é assim, o que coincide com o que acho se passa realmente (e refiro-me aqui à nossa terra) .
Nas escolas de hoje, a) não só os meninos e as meninas passaram a entender que um professor bom é o que consegue motivar por tornar divertidas as aulas (e se isso é, digamos assim, possível em aulas de inglês, por exemplo, não o é em geral), como b) ir às aulas passou a ser considerado, à partida, uma seca, c) os pais têm outras preocupações e chegam a insultar e a agredir os professores que lhes criticam a prole, d) em muitas escolas, a situação de bagunça e indisciplina é tão generalizada que nada resiste… e por aqui me fico.
É claro que todos esses argumentos, vindos invariavelmente de professores – fonte suspeita – me são familiares. Mas a eles fui sempre sobrepondo as minhas memórias de estudante. No meu tempo havia os professores que sofriam e os que ninguém ousava desafiar. Memórias a preto e branco, reconheço, que privilegiaram os protagonistas mais estereotipados. A realidade é sempre mais complexa e a de hoje enferma desses legados do eduquês que refere. Com a melhor das intenções as modernas correntes da Pedagogia ao pretenderem reformar o “sistema”, não fizeram mais do que instalar o caos nas escolas.
As escolas são o espelho da sociedade ou vice-versa. Antes, no meu tempo de liceu, que me parece ter sido também o seu, é verdade que a autoridade ia de braço dado com a exigência e também com a competência. A a bagunça generalizada começou com a pouca ou deficiente preparação dos professores, a que se somou a falta de vocação (pela inexistência de outras saídas profissionais) e também a falta de exigência dos pais. Para colmatar a falta de tempo que passam com os filhos, são demasiado permissivos e exigem que os professores façam até o que cabe aos progenitores, reiterar, ensinar e exigir as regras mínimas e máximas de educação aos descendentes.
E, pelo que observo, entre os colegas dos meus filhos e das conversas que mantenho com professores, concluo que é tudo uma questão de falta de exigência e de responsabilidade. O panorama está à vista! Em todos os sectores da sociedade…
«afinal não basta a um professor ter competências técnicas e humanas para usufruir de uma vida tranquila na escola.»
Mas um professor sem uma dessas características consegue enfrentar melhor uma turma que outro que as tenha?
« noção de hierarquia perdeu-se (mercê das reformas educativas delirantes que foram retirando aos poucos a autoridade aos docentes).»
Ou será que é porque também já não há noção de hierarquia em casa?
Ou será porque os pais exigem ter o monopólio da autoridade sobre os seus filhos não admitindo que outros a exerçam?
Tarzan, claro que a falta de autoridade em casa também se reflecte no comportamento dos alunos na escola, porém é possível criar medidas que minorem essa transferência de um ambiente para o outro.
Não vi o filme, Teresa, mas já me tinha apercebido, pelos testemunhos de amigas professoras, dessa mudança de que fala, que não deve ter acontecido no mesmo grau em todas as escolas, mas que, nalgumas, deve ter sido radical. Para os professores, sobretudo os que leccionam nas tais escolas complicadas dos bairros também ditos complicados, a profissão tornou-se uma profissão de risco e, sobretudo, de desgaste aceleradíssimo.
Vi o filme no cinema, e de facto tocou-me visto o ambiente me ser bastante familiar (fiz o ensino preparatório e secundário em escolas públicas, na Damaia). Já na altura (início dos anos 90) a coisa era muito parecida com o que se vê no filme. De facto, mesmo que o filme não tenha como intenção passar qualquer tipo de mensagem que não a que cada um de nós quiser de lá tirar, provoca invariavelmente uma reflexão sobre muitas questões: Para que serve a escola hoje em dia? Para ensinar, ou também para educar (já que os pais infelizmente se demitiram dessa função)? O que é necessário para se ser um bom professor hoje em dia? Como competir com as novas tecnologias, sobretudo quando o alvo são miúdos que hoje têm um attention span de não mais de 10-15 minutos?
1) Mas esse filme trata de uma história real de um docente real numa turma real, ou não é mais do que a encenação de um argumento inventado? Se fôr esse o caso, o filme nada demonstrará.
2) Acho em qualquer caso peculiar que um só filme, ainda para mais passado num país estrangeiro, sirva para a autora do post desfazer as teorias que, até aí, tinha visto sistematicamente comprovadas.
3) “a noção de hierarquia perdeu-se (mercê das reformas educativas delirantes que foram retirando aos poucos a autoridade aos docentes)”
Eu diria que isto é falso. Se a noção de hierarquias se está a perder, isso não se deve a quaisquer reformas educativas, delirantes ou não, mas a uma evolução de toda a sociedade envolvente. É a própria sociedade que, em grande parte, está a perder a noção de hierarquias. Os miúdos agora já tratam os pais por “tu”, como colegas, ao contrário do que era hábito outrora. E todo o respeito pelos mais velhos tende a perder-se. É imbuídos destes valores que os miúdos entram na escola. Não admira, então, que na escola eles também tratem o professor por “tu”.
Luís Lavoura, é óbvio que a escola reflecte o que se passa na sociedade envolvente, mas se essa evolução não é favorável e for acompanhada pela redução da capacidade de intervenção dos professores ao nível disciplinar (uma tendência consolidada pelas várias reformas), os problemas só se poderão agravar.
Belíssima análise, teresa. Aguçou-me a curiosidade de ver o filme, confesso que não tinha muita.
Há mudanças (irreversíveis?) na relação enntre alunos e professores, disso não há dúvida. A escola é mesmo um risco, hoje em dia.
Beijinho
Beijo, Ana (vale a pena ver o filme, vá por mim!)