O tamanho da coisa


João Carvalho,

Não estava eu perto para olhar, mas ouvi um comentador na SIC-N a falar sobre o papel das empresas na saída da crise, referindo o exemplo espanhol com os seus «grandes gigantes». Esta classificação chega a ser assustadora: há grupos empresariais aos quais não lhes basta ser grandes, nem sequer gigantes; têm de ser grandes gigantes.

Por cá, ao fim de 800 anos de História, da chusma que temos de pequenos anões, raros são os que atingem o tamanho de médios medianos. É verdade que ninguém admite que cresçam muito: a inveja nacional trata logo de achincalhar e desclassificar tudo o que procura destacar-se.

Os dois únicos casos realmente dimensionados entre nós, portugueses, são ilusórios e, sobretudo, não ultrapassam as conveniências: o Adamastor, que encerra o contrasenso de ser uma ficção da História, e o ‘apêndice’ masculino, essa eterna subjectividade que pode muitas vezes não passar de publicidade enganosa. Também, se o Adamastor engrossou a História e foi apoucado, que jeito poderia dar que a outra coisa fosse um grande gigante, não é?

Para entumescer sem fanfarronice e regredir sem sumir já basta a crise que temos, de tamanho variável e um jeito de vai-vem persistente. A nossa crise não é especificamente financeira, económica, social ou laboral. É crónica.

10 comentários em “O tamanho da coisa”

  1. João, este post lembra-me uma crónica que escrevi em tempos chamada «Vizinhos, mas de ao pé de casa». A certa altura dessa crónica eu conto uma história (verídica) de uma professora de português que apanhei no liceu (décimo e décimo primeiro anos), em Portimão (deve ser a professora mais famosa de lá, ou talvez até de todo o Algarve). Era muito bem preparada nas matérias, mas isso não impediu que fosse a pior professora que tive (era uma autêntica cobra, ou antes, uma psicopata).
    Um dia pediu a um dos alunos (o João Lúcio) que lhe fizesse um retrato físico e psicológico do gigante adamastor. O João Lúcio ficou sem saber bem o que dizer. Ao fim de uns minutos lá arriscou que o gigante «era grande e era monstruoso». A professora interrompeu-o logo, gritando-lhe que se era monstruoso obviamente tinha que ser grande. Foi então que aconteceu uma coisa que nunca mais esqueci. O João Lúcio olhou aquela psicopata bem nos olhos e disse-lhe: «Há pessoas que são pequenas e que mesmo assim são mostruosas.» Foi a única vez que vi a professora sem resposta para um de nós. Não devia medir mais de um metro e meio.

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