O tirano que passeou por Lisboa


Patrícia Reis,

Há pouco mais de um ano, por ocasião da inútil cimeira UE-África, Lisboa recebeu com pompa e circunstância este senhor, que nunca devia ter sido nosso hóspede, como na altura afirmei aqui. É uma figura nada recomendável – o Tribunal Penal Internacional acaba de lançar um mandado contra ele, acusando-o de crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O general Omar al-Bashir – ditador do Sudão, o maior país de África – é o responsável (i)moral pela morte de cerca de 300 mil pessoas no Darfur desde 2003, uma das mais brutais acções de extermínio registadas nos nossos dias.

"Bashir é suspeito (…) de ataques intencionais contra uma parte importante da população do Darfur (…), assassinando, exterminando, violando, torturando e forçando a fuga de um grande número de pessoas, cujas propriedades foram saqueadas", declara o TPI. Outra consequência dramática do morticínio no Darfur: mais de dois milhões de desalojados, a maioria no vizinho Chade.

O tirano sudanês apressou-se a desafiar a ordem do tribunal, que implica a sua detenção em qualquer dos 108 países que reconhecem a jurisdição do TPI. "Haia [onde se situa a sede do tribunal] pode comer o mandado", proclamou o general, apoiado pela União Africana e pela Liga Árabe. E também pela Rússia e pela China, países que não reconhecem a jurisdição do TPI. Inversamente, as organizações internacionais de direitos humanos aplaudem. "As acusações são um sinal forte de que a impunidade deixou de existir", sublinhou Reed Brody, da Human Rights Watch. Ele sabe do que fala. A regra, no mundo "civilizado" em que vivemos é esta: "Quem mata uma pessoa, vai para a cadeia. Quem mata 40, é internado num hospital psiquiátrico. Quem mata 40 mil, ruma a um exílio dourado com uma conta bancária num país estrangeiro."

Bashir é o primeiro chefe de Estado em funções a ser formalmente acusado de crimes contra a humanidade. Nunca o deveríamos ter recebido em Lisboa. Em nome da vítimas do Darfur, contra a cultura da impunidade.

 

Ler também:

Apanhem o Bashir! De Ana Gomes, na Causa Nossa

Darfur. Do Daniel Oliveira, no Arrastão

Eu hoje acordei assim… Da Carla Quevedo, na Bomba Inteligente

A propósito da acusação do TPI contra Omar al-Bashir… De Alexandre Guerra, n’ O Diplomata

Um comentário em “O tirano que passeou por Lisboa”

  1. Como já hoje comentei não sei qual vai ser o desfecho .. se o vão ou não conseguir apanhar, se quem o deve entregar vai cumprir esse dever.
    Mas penso que para o povo do Darfur, e para tantos outros com idênticas figuras à laia de lider, é uma luz de esperança o saber que afinal o “senhor” não é inimputável.

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