O tradutor de números


João Carvalho,

Cresce dramaticamente o número de desempregados. Inclusive o número oficial, que ninguém tem dúvidas de que é esmagado à custa dos mais diversos "truques". Toda a gente sabe que o Verão costuma atenuar estes dados, à custa do trabalho sazonal em torno do turismo, mas o mês de Julho alterou a tradição e registou um desemprego assustador.

Porém, o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) encarrega-se de traduzir à sua maneira a situação. Francisco Madelino acha que é mais importante sublinhar que há um abrandamento e até uma "estabilização do crescimento do desemprego". Por outras palavras: crescer, cresce, mas parece que agora está a crescer de modo mais regular! Junte-se a isto que o IEFP teria colocado este ano no mercado de trabalho 35 mil desempregados, além dos 307 mil desempregados que fez desaparecer dos seus centros de emprego.

Madelino também explica estas sucessivas limpezas das listas do IEFP: o desempregado encontra sozinho emprego, falta à convocatória dos centros de emprego, está em formação profissional, é alvo de medidas de emprego ou reforma-se. Todos nós podemos encontrar mais motivos: o desempregado emigra, morre, desiste, não recebe a convocatória do centro de emprego ou recebe e está doente sem poder deslocar-se, entre outros.

Motivos possíveis é o que não falta. O que falta são os motivos reais, que os parceiros sociais com assento no conselho de administração do IEFP exigem, mas que o conselho directivo do IEFP se recusa a divulgar, por achar suficiente o que já divulga.

Como é isto de termos um instituto com conselho directivo e conselho de administração? Contornos empresariais num instituto em que, afinal, o patrão é que manda sozinho? Será que o INE está a precisar de um tradutor de números? Eram dois ganhos: o INE ficava com a imaginação musculada de Madelino e nós livrávamo-nos da ginástica mental do presidente do IEFP.

 

Obs. — Há duas expressões nesta história que se enquadram no novo e infeliz linguajar dos nossos políticos e para-políticos: a estabilização do crescimento do desemprego e o empregado foi alvo de medidas de emprego. Até à geração anterior, toda a gente sabia dizer coisas destas com menos palavras, de modo escorreito e sem margem para dúvidas. É como ‘estamos a vivenciar um período de crescimento negativo das exportações‘, ‘estamos a proceder a averiguações para eventual abertura de um inquérito‘ e outras que tais.

A razão da mudança a que temos assistido é simples, neste como em todos os casos: eles não fazem e não querem dizer que não fazem, pelo que lhes resta dizer que fazem, mas sem que se perceba se fazem ou não fazem aquilo que deviam fazer e não fazem.

Concordam? Ou estarei a dizer alguma não-verdade?

11 comentários em “O tradutor de números”

  1. Verdade ou não verdade??;))
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    Desemprego
    Emprego 2009 “já garante” trabalho a 24 mil desempregados
    Quase 24 mil desempregados já começaram ou vão começar a trabalhar este ano graças a contratos emprego-inserção assinados entre o Governo e várias entidades, no âmbito da iniciativa Emprego 2009, revelou hoje o ministro do Trabalho
    visao.pt
    15:49 Quarta-feira, 6 de Mai de 2009
    Os “compromissos assumidos”, através dos contratos emprego-inserção assinados desde o início deste ano, abrangem “perto de 24 mil pessoas, estando já mais de metade a trabalhar”, disse Vieira da Silva, frisando tratar-se de “um nível de realização muito significativo”.

    Os contratos emprego-inserção destinam-se a integrar, durante um ano, desempregados beneficiários do Rendimento Social de Inserção em entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos, como autarquias, juntas de freguesia, associações de desenvolvimento local e instituições particulares de solidariedade social (IPSS).

    As pessoas contratadas irão realizar “actividades socialmente úteis e que satisfaçam necessidades locais e regionais” e, em troca, recebem, entre outros apoios, uma bolsa de ocupação mensal de 419 euros.

    O governante falava aos jornalistas em Beja, no final de uma sessão da iniciativa Emprego 2009, na qual foram assinados protocolos com 43 entidades do distrito de Beja e uma do de Évora e que vão permitir integrar no mercado de trabalho 944 pessoas.

    Através dos protocolos, as entidades “assumem o compromisso de promover a inserção profissional de desempregados”, através das várias medidas da iniciativa Emprego 2009, como o apoio ao emprego e à contratação, programas de estágios profissionais e contratos emprego-inserção.

    Entre as entidades que hoje assinaram protocolos com o Governo contam-se nove autarquias e cinco juntas de freguesia, oito associações de desenvolvimento local e 21 IPSS do distrito de Beja e uma autarquia do distrito de Évora.

    As entidades “comprometem-se” com “acções que têm uma influência directa na vida de cerca de mil pessoas do distrito” de Beja, disse Vieira da Silva, frisando que “não é um valor irrelevante”, mas “espera” que “as oportunidades abertas” pela Iniciativa Emprego 2009 possam “ser exploradas de forma mais intensa” e que aquele número “cresça muito mais”.

    “Este esforço de defesa do emprego e esta conjugação de vontades é essencial e decisiva”, porque deles “depende, em grande medida, a forma como vamos conseguir, primeiro, resistir, e, depois, ultrapassar a crise”, defendeu o titular das pastas do Trabalho e da Solidariedade Social.

    1. Quer ver o que eu digo? Pois bem.

      São contratos de trabalho precário, duradouro, a tempo parcial ou inteiro? Não: são «contratos emprego-inserção». Alguém não entendeu?

      Os contratados recebem vencimento, salário, prémio, jorna ou pagamento? Não: recebem, «entre outros apoios, uma bolsa de ocupação mensal». Alguém não entendeu?

      Os contratantes oferecem realmente trabalho, emprego ou inserção? Não: oferecem «o compromisso de promover a inserção profissional» e «acções que têm uma influência directa na vida das pessoas». Alguém não entendeu?

      O governo garantiu 150 mil novos postos de trabalho? Não: garantiu ideias com «um nível de realização muito significativo» e espera encontrar «oportunidades abertas» que possam «ser exploradas de forma mais intensa». Alguém não entendeu?

      1. Também me parecia que não era uma verdade e sim uma não verdade…Obrigada João, se tinha alguma duvida, com os seus esclarecimentos deixei de ter…mas há por aí muita gente que ainda acredita no que eu postei,mas acho que são aqueles que nunca pisaram um centro de emprego e nem tiveram que contar os “tostões” para comprar comida…

        1. Essa é que é a verdade. Mas aqueles que já pisaram um centro de emprego raramente se aguentam: correm sempre o risco de desaparer da lista num passe de mágica. O que também é verdade.

          1. João, eu já estive desempregada e recorri ao centro de emprego, mas a verdade é que eu é que tive que procurar pelos meus próprios meios e felizmente encontrei , porque se estivesse á espera ,suspeito que ainda estaria no desemprego ou na lista fantasma.:)

  2. João:

    li com muita atenção o que escreveu e só posso dizer que as conclusões que tira são 100% reais, só não vê quem não quer ter em conta a realidade actual que infelizmente é bem negra.
    Fazer politica com base no desemprego é demagogia pura e o que este sr Madelino faz com os números cada vez mais dramáticos de Portugueses no desemprego não devia ser admitido por ninguém, mas lá está tem de fazer o que o “chefe” manda caso contrário também vai para o desemprego.
    Mascarar a situação é recusar a verdade e resta saber quantos desempregados temos actualmente pois a taxa divulgada pelo INE à dias julgo não ser a correcta.
    Chegará a hora de sabermos a verdade e talvez aí muitos “iluminados” caiam de cú, tarde de mais digo eu.

  3. Esta lingua de pau com que o Governo socialista e os seus moços de fretes nos tentam deitar areia para os olhos é verdadeiramente espantosa. “Estabilização do crescimento do desemprego” é uma expressão do mais desprezível tenocratês, que trata as pessoas como número e procura dissolver o drama de cada desempregados numa nebulosa de palavras, como se a retórica criasse emprego. Lamentavelmente, não cria. E a propaganda também não.

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