
Apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas. Espirituais, em regime de abundância. E materiais…
Ontem encontrei-me no Restelo com um casal de amigos, daqueles desde há quarenta anos. Nas despedidas levaram-me até ao carro e disparou ele “toma lá” um pacote precioso. No qual, entre outras pepitas, estava a tradução policopiada do “Defeating Communist Insurgency: Experiences from Malaya and Vietnam”, de Sir Robert Grainger Ker Thompson, um célebre especialista em contra-insurgência na Ásia, distribuída na Escola de Estudos Superiores da Força Aérea em 1969! E – com as páginas ainda por abrir!!! – os dois volumes de “África e o Comunismo”, de Alejandro Botzàris, publicados em 1959/1961 pela Junta de Investigações do Ultramar…
Ajoujado pelo júbilo recuei aos Olivais, na senda de companhia mimosa. Ao invés deparei-me com máscula camaradagem, a qual me presenteou com sacos bibliófilos. Nos quais constavam meia dúzia de obras de Jorge Amado que não estavam nas minhas estantes – cá em casa a “dissidência” do autor havia minorado o fervor leitor do Senhor meu pai, naquilo do consabido (e não tão errado…) “o Jorge Amado não é um grande escritor”, e a Senhora minha mãe era demasiado francófona para tais tropicalices; 25 volumes das Obras Escolhidas “do Camilo” – é assim que os propagandeados leitores de Camilo Castelo Branco se lhe referem -, para mim preciosos, pois aqui a prateleira do autor é composta por livros legados pelos bisavô e avô paternos, edições de Lello e Irmão, Lopes e Companhia, Civilização e assim, tudo lá do Porto, de finais de XIX e inícios de XX, alguns encadernados mas a maioria puídos, quase se desfazendo ao toque, efeitos dos ancestrais fervores leitores e da incúria do tempo… E uma outra preciosidade – se cá tenho a “Anna Karénina” traduzido do russo para a Relógio d’Água por António Pescada ( e nisto dá sempre para lembrar a atoarda de Mega Ferreira, que preferia as traduções de Tolstoi via francês) juntou-se-lhe agora o “Ana Karenine”, luxuosa edição da Estúdios Cor (75 escudos em 1959!!!!) traduzida por… José Saramago!
E várias outras curiosidades, entre as quais este quase célebre “Férias com Salazar”, pelo qual começarei a excursão – não que queira eu ter “Férias com Ventura”, afianço.
Em suma, e repito-me, apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas…

Férias com o Salazar ?? Antes com a Cicciolina, pois um gajo sempre aprendia algumas coisinhas.
Muito pertinente a questão das traduções.
Não conhecia essa atoarda de Mega Ferreira, será que ele conhecia a língua russa, suficientemente bem, para poder avaliar o mérito das traduções?
Quanto à tradução de Saramago, também, terá sido feita a partir do francês mas é um livro que não me importaria de ter ma minha biblioteca.
Remato a despropósito com o “Astérix na Lusitânia” que as exmas tradutoras optaram por não traduzir, preferiram escrever um livro novo.
Quando começou o fluxo das primeiras traduções portuguesas directas do russo – do casal Guerra, esse do nosso confrade bloguista Filipe Guerra que morreu recentemente, do Pescada e de alguns outros – ao Mega Ferreira – que encarnava a “lisboa” finissecular – saiu-lhe a patetice, em crónica de jornal, que preferia o Tolstoi literário via traduções francesas do que este que então lhe era apresentado. Uma patetice, o dandy petulante de lisboa em acção.
Quando ao Astérix por cá em breve blogarei.
Preferia e preferia bem.
As traduções antigas, feitas a partir do francês, são incomparavelmente mais agradáveis de ler.
Eu, que não sou amigo de nenhum dos tradutores, nem os conheço pessoalmente, posso dizer francamente o que penso – e as traduções antigas são melhores.
Hoje em dia, sempre que quero ler uma tradução de uma língua que não entendo, compro logo a tradução francesa, que, além disso, é vendida a metade do preço (nas edições “livre de poche”).
As traduções portuguesas contemporâneas são quase todas uma treta, na minha opinião. Não são escritas em português, mas em tradutês.
Ena! Este ano o Pai Natal veio ainda antes do São Martinho.
é, Natal é quando um homem quiser, cantava-se
O jpt recebe oferendas dos amigos, que o cumulam de dádivas…
Arrisco-me eu a adjectivá-lo: o jpt é o totem da sua tribo!