Abro uma obra de literatura portuguesa contemporânea – um romance muito conceituado, coberto de elogios. Leio as primeiras cinco linhas: deparo com três palavras que me desmobilizam de imediato. Três peças de artilharia pesada: “adejando”, “ajoujado”, “ajaezada”. São indícios claros de indigestão vocabular. Fico por aqui. Fecho o livro, devolvo-o ao sossego da estante.
Pego noutro: uma edição portuguesa antiga de uma obra de William Faulkner, O Homem e o Rio. Com prefácio do tradutor, figura com reputação, recentemente falecida. Há muito que prometi a mim próprio deixar de ler prefácios: arrependo-me sempre que me esqueço desta promessa. Foi o caso: vou a meio quando percebo que o prefaciador, além de resumir o enredo da novela, apressa-se também a desvendar o seu desfecho.
Travo a fundo, salto páginas – adeus prefácio. Agrada-me bem mais este começo: “Era uma vez dois presidiários (passou-se isto no Mississípi, em Maio, no ano da cheia de 1927).”
Olá, leitura. Durante uns dias terei o Faulkner à cabeceira.
Imagem: Faulkner na época em que escreveu O Homem e o Rio


Um prefácio que resume o conteúdo da obra e desvenda o final, devia terminar com a pergunta – “Ainda quer ler o livro? Não tem mais nada que fazer?”
Há prefácios que pecam por serem demasiado “ajoujados”. Ou deverei dizer “ajaezados”?
Há prefácios que podem destruir livros, é verdade, mas também há outros que podem salvar outros livros do anonimato…
É verdade, Ana. Felizmente o Faulkner nunca precisou dos prefaciadores portugueses para consolidar a fama.
Eh eh. Pois não.