A forma como a descida do rating de Portugal pela Standard & Poor’s (S&P’s) está a ser acolhida é sintomática da incoerência de muitos analistas nacionais.
A incoerência chegou a Manuela Ferreira Leite. Diz-nos a guru dos 6,7% de défice que "ainda esta semana, uma das mais prestigiadas agências de notação financeira declarou que é agora mais arriscado conceder crédito ao Estado português, justificando o facto, não pela crise internacional mas pela crise interna".
Tenho curiosidade em saber qual é a opinião dos analistas e de Manuela Ferreira Leite acerca de três factos: (1) a "prestigiada agência de notação financeira" não soube prever a falência do Estado Islandês; (2) não soube descortinar os riscos existentes nos títulos relacionados com o mercado subprime americano; (3) não soube antecipar a falência do Lehman Brothers ou o esquema de Bernard Madoff.
O irónico no meio disto tudo é que foi a própria S&P’s a provocar parte desta crise internacional, mantendo múltiplos produtos que hoje são considerados "lixo tóxico" com o rating máximo até ao último minuto. Isso levou os investidores a comprarem com confiança, levando ao aprofundar da fossa.
Qualquer dos ditos analistas arrasaria a S&P’s há quatro meses atrás, mas de repente tornou-se numa "prestigiada agência de notação".
A S&P’s fundamenta a sua decisão desta forma: "o governo não fez e é provável que não faça nos próximos tempos os esforços necessários no âmbito de reformas estruturais". Há algo mais subjectivo que isto? Somos uma agência de notação ou um entreposto de cartomantes?
É nesta linha que surge a insistência de Manuela Ferreira Leite de não ser tempo para investimentos em obras públicas, mesmo vendo que não há voz no mundo que a acompanhe nessa brilhante teoria. Não tem sido a Doutora a principal antagonista a toda e qualquer reforma que o Governo promova? Não foi a Doutora que chegou ao ponto de ter a genial tirada sobre a suspensão da democracia para se fazerem reformas?
Desta vez, deixem-me adivinhar: "Orgulhosamente só"?

Acho que a precisão do senhor governador do BdP chegou aos seis vírgula oitenta e três, salvo erro.
Obrigado. Imprecisão minha.
Confesso que sou um leigo na matéria, mas faz-me confusão estas agências. Vivem do quê? e que crédito têm para que um simples parecer destes Senhores lixe a vida de milhares de pessoas.Não há ninguém que acabe com esta gente?
São agências privadas e com fins lucrativos, daí analisarem o mercado de forma parcial e errarem tanto. Têm sempre os Estados Unidos e seus produtos com rating máximo e proporcionam um mau serviço a quem as segue.
Li algures que estas agências deviam ser substituídas por uma grande agência pública internacional. Claro está que esta nunca seria 100% isenta, mas certamente que prestaria melhor serviço que as actuais.
Os bancos estão em dificuldades
mesmo com os milhões do Estado,
pior ficarão as disponibilidades
com o escasso crédito no mercado.
Além do encarecimento
do custo dinheiro,
parco ficará o fornecimento
para repor o mealheiro.
Com a dívida externa a aumentar,
fruto de políticas erradas,
não haverá dinheiro para financiar
as obras faraónicas anunciadas.
Para obras faraónicas
dinheiro não haverá,
destas doenças crónicas
o país não se curará!
Eh Poeta!
Eh Boca Linda!
Concordo contigo. Com reservas.
1. A verdade preocupante é que Portugal perde crédito e a dívida externa começa a ficar fora de controlo.
2. Parece-me bem a aposta em várias obras públicas pequenas e necessárias, com retorno no benefício dos cidadãos; parece-me mal o investimento nas obras de grande vulto, sem retorno objectivo e para as quais é tudo importado, além de requererem substancial endividamento externo.
Reservas de um portuense, André. O isolamento tradicional do Porto ensina-nos a ser pragmáticos…
João, no caso específico do TGV, concordarás que o efeito dessa obra é exactamente o de promover a aproximação de Lisboa e do Porto entre si e ao resto da Europa. Tendo sido a nossa localização periférica, um dos motivos geradores de maior atrasado em relação à Europa, com esta obra tudo isso se poderá atenuar.
André, o TGV é exactamente o melhor exemplo do que me parece dispensável. Até por sermos um país periférico, porque se estivéssemos numa situação central eu entenderia a utilidade de ligar duas fronteiras opostas para não interromper a corrente exterior de ambos os lados.
Além disso, o Porto e Lisboa não precisam do TGV para estar mais perto. Basta uma linha adequada ao Alfa actual (cuja velocidade cruzeiro de fábrica é de 220km/hora). O mesmo para ir até à fronteira Norte e ligar à Galiza. O próprio Jorge Coelho já um dia reconheceu publicamente que o elevado investimento na renovação da linha férrea Porto-Lisboa foi um autêntico desastre.
Resta acrescentar que Portugal não é apenas periférico, mas também um território estreito. Se o Alfa tivesse uma (ou mais) linhas adequadas a cruzar o País entre o litoral e a fronteira Leste, para ligação a Madrid, ninguém se queixaria da diferença entre um TGV espanhol e a mudança para o nosso Alfa, com uma distância tão curta para percorrer (a 220km/hora).
Para mim, André, se eu tiver conseguido explicar-me, o TGV é mesmo dispensável, portanto. Curiosamente, tenho reparado que, de um modo geral, toda a gente concorda com as razões que descrevi. E concluem, invariavelmente: mas o TGV faz falta. Não há pachorra! Prefiro os que discordam e me saibam explicar porquê.
Ainda por cima, o TGV não serve a indústria e o comércio, nem as exportações e as importações. É só para pessoas. Que não podem gastar mais 20 ou 30 minutos entre Lisboa e a Galiza? Entre Faro e o Porto? Entre Madrid e Lisboa?