Os críticos


Jorge Assunção,

No seguimento deste post do Pedro Correia, aproveito para deixar um apontamento sobre o tema. Em primeiro lugar para manifestar as minhas mais sérias dúvidas sobre a capacidade da maioria dos críticos de cinema afugentarem o público das salas de cinema e isto, tão só, porque a maior parte do público de cinema tem pouca consideração pela maioria dos críticos cá do burgo. Nesse aspecto os críticos são ineficazes. Mas não tenho dúvidas que o caso da Ípsilon do Público é o caso mais flagrante de má relação entre os críticos e os seus leitores.

Os críticos em sua defesa dizem que não faz sentido criticá-los só porque têm posição contrária à que é maioritária e nisso dou-lhes inteira razão, mas a questão está longe de ser só essa. Em primeiro lugar, em relação à opinião da maioria, e digo isto porque muitas vezes os assuntos misturam-se, importa distinguir o gosto maioritário do público por um filme do sucesso deste na bilheteira. O facto de Friday the 13th ter sido o mais visto no fim de semana passado nos Estados Unidos diz muito pouco sobre a opinião que os que o viram formaram dele. E não é menos verdade que alguns críticos misturam os assuntos porque sentem-se incomodados com o facto dos filmes que eles adoram, obras-primas na sua opinião, ficarem relegados a salas de cinema relativamente desertas. Nesse aspecto é notório em alguns a desilusão da sua opinião não ser maioritária. O que se compreende, se fosse maioritária, as obras-primas disponíveis seriam em maior número e em muitos casos poderiam passar a existir sem o recurso ao dinheiro dos contribuintes.

Mas, e este é um grande mas, ao contrário de outro tipo de opiniões individuais, a opinião sobre um filme é acima de tudo de gosto pessoal (há factores objectivos que podem entrar na análise, mas o subjectivo predomina). Nesse sentido, o que espero de um bom crítico é que transmita no seu texto o que o levou a apreciar, ou não, um filme. A maioria dos críticos portugueses, para além de serem maus a transmitir essa mensagem, fazem por parecer pertencer a uma escola de pensamento colectivo (o que só lhes diminui o valor individual da opinião).

Só por terrível coincidência é que a opinião individual dos críticos em Portugal entra tantas vezes em contradição com a opinião individual da maioria dos frequentadores de cinema. É como se a ascensão ao posto de crítico cá no burgo fosse feita à custa da separação de águas entre o gosto popular e o gosto do crítico. Motivada, talvez, por uma imperiosa necessidade destes se assumirem como parte integrante da elite. Mas, para mal dos seus pecados, poucos são os que lhes reconhecem enquanto tal. A opinião dos críticos de cinema tugas sobre um filme em poucos casos serve como argumento de autoridade.

Embora, e num aparte sobre argumentos de autoridade, nesse aspecto também me incomoda a valorização que muitos fazem de prémios como os óscares. Os óscares, na melhor das hipóteses, não são mais do que um apanhado de opiniões individuais. Na pior das hipóteses, não passam de um mero reconhecimento aos que melhor souberam trabalhar nos bastidores da indústria. A realidade estará algures entre estas duas possibilidades e portanto algum relativismo na sua valorização seria bem vindo.

 

Mas voltando ao tema principal do post, nomeadamente aos críticos do Público, o que mais foge à minha compreensão não é tanto que na maioria dos casos estes estejam em desacordo comigo ou, mais relevante para o caso, em desacordo com a opinião da maioria (que muitas vezes não coincide com a minha). A quem eu atribuiria uma bola preta seria aos responsáveis pela escolha dos críticos do Público. Porque se este tem leitores que o sustentem não é certamente graças aos seus críticos de cinema.

Ficando pelo meu caso pessoal, de que me serve a existência de quatro críticos no Público se raramente estou em acordo com qualquer um deles? Numa das suas principais funções, que é a de recomendação de filmes, são inúteis. E, digo-o absolutamente convicto de ter razão, são tão inúteis para mim como o são para a maior parte dos leitores do jornal que frequentam o cinema. Dito isto, longe de mim querer mudar a opinião dos actuais críticos, mas gostava muito de influenciar a escolha do jornal na próxima vez que decidir contratar um.

É que, como é facilmente verificável por uma visita à crítica que se faz do outro lado do Atlântico, combinar o gosto dos leitores com o gosto dos críticos de serviço não só é possível como é desejo de ambas as partes (jornal e leitores). Os jornais não deviam teimar em adaptar os leitores aos seus críticos, mas sim adaptar os críticos aos seus leitores. A incompreensão desta coisa simples é em boa parte explicativa do problema português nos mais variados campos de actividade. O cliente tem sempre razão, em Portugal há quem teime que não.

6 comentários em “Os críticos”

  1. É ler os estrangeiros (via IMDB, por exemplo). Um dos melhores é o norte-americano Roger Ebert. Não tem peneiras, gosta de cinema e não tenta mostrar que sabe aquilo que não sabe. Os críticos portugueses são provincianos – e TODA a gente que escreve nos jornais acha que pode ser crítico de cinema. Uma tristeza!

  2. por acaso ainda estou a aguardar pelo dia em que a apreciação de um critico, esteja onde estiver, coincida com a minha.

    Se calhar é por eu ver os filmes de baixo para cima e eles de cima para baixo, lá do alto da sua imensa sabedoria.

  3. Sublinhas um aspecto muito importante, Jorge. Quando referes o seguinte: “A maioria dos críticos portugueses, para além de serem maus a transmitir essa mensagem, fazem por parecer pertencer a uma escola de pensamento colectivo (o que só lhes diminui o valor individual da opinião).” Nada mais certo. A falta de uma perspectiva verdadeiramente individual dos actuais ‘críticos’ portugueses (com as excepções da ordem, designadamente o João Lopes) é um dos defeitos mais notórios desta ‘troupe’ que tomou conta das colunas de crítica cinematográfica e debita opiniões com a sincronia (embora sem a sabedoria) de um coro grego. Eu aprendi muito de cinema com gente que sabia pensar sobre filmes – gente como o João Bénard da Costa, o Augusto Seabra, o Prado Coelho, o Vicente Jorge Silva: podia discordar deles, mas admirava os argumentos que nos forneciam e aforma assertiva como ‘liam’ um filme. Um pouco à maneira da Pauline Kael, provavelmente a melhor crítica de cinema de todos os tempos (raríssima mulher numa actividade quase só restrita a homens por motivos que nunca entendi).
    Lamento muito que não haja hoje praticamente ninguém a pegar nesta excelente herança nas colunas dos nossos jornais. Curiosamente, é na blogosfera que leio actualmente alguns dos textos mais interessantes (e por vezes apaixonantes) sobre cinema. O que diz tudo sobre a qualidade da nossa imprensa.

    Verifico agora que acabei de escrever um post. Em breve transferirei este comentário para a parte central do blogue. Abraço

    1. “podia discordar deles, mas admirava os argumentos que nos forneciam e aforma assertiva como ‘liam’ um filme.”

      Não podia concordar mais. Uma pessoa que tem esse efeito em mim no quadro português é o Pedro Mexia.

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