Depois da vitória esmagadora do AfD, no estado alemão da Saxónia-Anhalt, parece ser possível uma coligação com o BSW.
Vai ser um casamento muito interessante. O AfD é da extrema-direita, o que aliás já não choca ninguém, por estes dias. Pela primeira vez, depois da 2ª Guerra Mundial, um partido deste teor chega ao poder, na Alemanha, e o mundo assiste apático. Como já disse aqui, num comentário: os nazis alemães deixaram de ser nazis para se transformarem num daqueles partidos dos “únicos que dizem a verdade”, “patriotas”, “amigos da liberdade”, “inimigos da censura” e descobridores do motivo de todos os males do mundo: os imigrantes.
Porém, apesar da vitória esmagadora, o AfD ficou a três deputados da maioria absoluta. A solução parece estar no pequeno partido BSW. As iniciais querem dizer Bündnis Sahra Wagenknecht, em português: “Aliança Sahra Wagenknecht”, ou seja, o partido tem o nome da sua presidente! Como é que o nosso André não se lembrou desta, hem? “Aliança André Ventura” – assim é que era!
E quem é Sahra Wagenknecht? Pois, digo-vos: uma esquerdista radical! É verdade. Pertencia ao Linke, que, grosso-modo, corresponde ao nosso Bloco. Mas não lhe chegou, não era suficientemente radical. E fundou o tal partido com o seu próprio nome.
E vai coligar com os amigos do nosso Ventura?! Só pode ser uma piada!
Não é não. O BSW já comunicou que está disponível para formar essa coligação, pois vê boas chances de se entender com o AfD em determinados pontos.
E quais são esses pontos? Bem, há dois muito importantes. O primeiro é que ambos os partidos gostariam de recambiar os imigrantes à sua origem. O segundo é muito romântico: o amor que sentem por Vladimir Putin. Pois é, isto tem mesmo um piadão.
A cereja em cima do bolo é Trump estar igualmente muito feliz com a vitória do AfD. O dinâmico e cada vez mais jovem presidente norte-americano gostaria mesmo de ver esses seus compinchas a governar em Berlim. E podia também ser com os esquerdistas BSW? Claro! Já estou a ver o palhaço laranja a dizer: “Sahra Wagenknecht is a wonderful, a great person. I like her a lot. I think we’re gonna be great partners”.
Assim se tocam os extremos. E assim vai o mundo.

Quando a Política se reduz a Poder, toda a aliança se torna possível – princípio geral da multipolaridade.
O mundo não assite apático. Ao que o mundo assistiu apatisamente, e com arrogância, foi deixarem entrar imigrantes aos milhões despoletando de forma inevitável a transformação dos pequenos partidos de extrema-direita em partidos de poder.
Essa patranha de que a Europa (e Portugal) precisa de imigrantes e a falta de honestidade intelectual inviabilizaram qualquer consenso. E sim, agora Putin esfrega as mãos de contente. Provavelmente até foi ele que planeou isto tudo, com a sua espia e velha amiga Merkel, que até mandou acabar com as centrais nucleares para a Alemanha ficar completamente dependente da Rússia. Porque como toda a gente com dois dedos de testa percebe logo, painéis solares e ventoínhas não geram energia suficiente para a capacidade industrial alemã.
A Merkel espiã de Putin? Pelo contrário. Ela sabia que ele não era confiável e tentou mantê-lo sob controlo com o negócio do gás. Foi ingénua ao pensar que ele se deixaria controlar com dinheiro. Putin é imperialista. Muito mais do que de dinheiro, ele gosta de poder.
Para ingénua tem a língua muito solta, é pior do que o Neves, nunca se responsabiliza nem arrepende de nada.
Note que não acredito, de maneira nenhuma, que tenha sido espia, para mim isso está completamente fora de questão.
Porque nem seria nem é preciso: basta-lhe a típica arrogância dos adiantados mentais, essa sim, concedo, muitas vezes de uma ingenuidade estúpida e suicida. Basta ouvi-la falar no presente para se perceber porque errou no passado: não aprendeu nada.
Porque a sobredotada Merkel, tal como o básico Trump, também caiu no erro de se convencer de que “compreendia” o Putin…
Quanto à Merkel, é possível. Mas não me parece que Trump ache que “compreende” Putin. Nem sequer está interessado nisso. “Compreender” uma pessoa não faz parte dos esquemas mentais do Trump. Apenas lhe agrada a capacidade do Putin de causar instabilidade na Europa.
A ânsia do Trump por pertencer ao “Clube dos Rapazes” que mandam no pátio é tanta que não só não esconde, como até exibe, a intensa admiração que por eles tem, tratando-os publicamente por “amigos com quem se dá muito bem” e que “conhece muito bem” e com quem tem “óptimas conversas” – assim é com Putin e Kim, e já foi com Órban.
No prontuário trumpista, isso equivale a “compreender”, ou até mesmo a empatizar.
O Trump não tem esquemas mentais. Nele, as coisas processam-se ao nível do bit, só acomoda 0 e 1, eheheh.
Putin fez serviço na DDR. Eles conhecem-se desde os anos 80.
E repare como todas as decisões que ela tomou beneficiaram a oligarquia Russa. Ou, pensando ao contrário, houve alguma decisão de Merkel que não se tenha revelado pior para a Alemanha do que para Putin mais tarde?
A desnazificação da Alemanha do pós-guerra foi efectiva, mas apenas a ocidente. A leste a coisa não foi assim. Para além disso, as duas Alemanhas tem diferenças profundas e há mais de mil anos. Já aqui escrevi sobre este livro que fala sobre isso e explica a diferença do sucesso da AfD a leste e oeste.
https://delitodeopiniao.pt/as-duas-alemanhas-11164543
“A desnazificação a ocidente foi efectiva.” Claro que foi. Foi tão efectiva que, nos anos 50 e 60, o aparelho de Estado da República Federal da Alemanha estava mais atafulhado de ex-nazis do que o Oktoberfest de turistas bêbados. Eram juízes, chefes de polícia, conselheiros de ministros… tudo malta que por acaso tropeçou no partido nazi e que, de repente, passou a adorar a democracia europeia depois de um banho de lixívia americana. Efectivíssima, de facto. Um sucesso. Desnazificaram tudo com Dodot.
“As duas Alemanhas têm diferenças profundas há mais de mil anos”. Realmente. No ano 1026 já o pessoal em Dresden dizia: “Eh pá, a malta da Alemanha Ocidental está muito progressista para o meu gosto, vou mas é fundar a AfD do Sacro Império Romano-Germânico”. Mil anos. Não havia Alemanha, não havia Muro, a malta andava a curar pneumonias com sanguessugas, mas o trauma leste-oeste já lá estava todo.
Esqueçam a economia. Esqueçam que a reunificação tratou o Leste como um parente pobre, a desindustrialização, o desemprego ou os salários de miséria que duram até hoje. Nada disso interessa para nada. O verdadeiro motivo da malta votar na AfD é porque há mil anos um germânico de leste não gramava o sotaque de um germânico de oeste. Faz todo o sentido.
Nas escolas do pós-guerra foi instituído total rep´´udio pelo nazismo. As novas gerações da RFA cresceram com vergonha do que a Alemanha foi no passado.
Já vi que não sabe, mas a fronteira onde foram construídas as mais longínquas fortalezas romanas naquela região coincide com os limites do império carolíngio, e com as fronteiras do protestantismo, e tamém com influência do militarísmo prussiano, e ainda com as regiões onde em 1933 o partido nazi teve mais votos e com a divisão entre a RFA/RDA. Agora coincídem com as do leitorado que mais simpatiza com a AfD. Não sabe, mas insiste em exibir a sua ignorância.
Então, quer dizer, a RFA era governada por antigos oficiais do partido, a justiça estava infestada de nazis que despachavam sentenças, a polícia estava cheia de malta com saudades de vestir de castanho, mas… atenção… as criancinhas levavam grandes raspanetes na escola e sentiam muita vergonha do avô Hans! Genial. O Estado era nazi, mas o recreio era bué antifascista.
Mas o melhor é o momento Canal História. As fortalezas romanas, o Império Carolíngio, o militarismo prussiano… lindo. Só Faltou dizer que a fronteira da AfD também coincide exatamente com a rota de migração da cegonha-branca, com a falha de Santo André e com as correntes de ar da Pangeia.
Ignorante sou eu, claro. Eu, na minha burrice, a achar que fechar fábricas aos milhares nos anos 90, deixar o Leste na miséria, pôr a malta a ganhar tuta-e-meia e tratá-los como alemães de segunda tinha alguma influência no voto de protesto atual. Que estupidez a minha. E como é que o Karl Marx nunca viu isto?
Mas vá, fique lá com a última palavra, não quero que fique privado de ostentar a sua esperteza.
É um facto que a maneira como foi feita a reunifcação contribuiu para o crescimento da extrema-direita no Leste. Os salários não são de miséria (comparados com os portugueses, são salários de luxo), mas continuam a ser inferiores aos do Oeste, o que é inadmissível. A desertificação do Leste também continua, ou seja, os antigos cidadãos da RDA ainda “fogem” para o Oeste. Na RDA, toda a indústria era estatal e foi à falência, criando desemprego, etc, etc.
Mas, a meu ver, há ainda outro aspecto. Grande parte da população de um país que vive sob uma ditadura adapta-se. Nem toda a gente aspira a uma mudança. Muitos cidadãos da RDA gostavam de ter emprego certo, férias pagas, dormir em hotéis a preços simbólicos, ter creches, escolas e universidades grátis para os filhos, produtos alimentares e outros ao preço da chuva, etc. Para gente assim, viver em democracia é complicado demais. A reunificação já se deu há trinta e cinco anos, mas quem era jovem ainda se lembra. E os que eram ainda crianças assimilaram essa mentalidade através dos pais e transmitiram-na aos filhos, nascidos já depois de 1991. É toda uma mentalidade que não sabia o que era desemprego e não gosta de andar sempre em eleições, nem de aturar discussões entre parceiros de coligações governamentais.
Nem mais.
“Para gente assim, viver em democracia é complicado demais” – é aí, precisamente, e sem qualquer sentido pejorativo, que me parece estar o cerne da questão – porque, não esqueçamos, é cada um, cada indivíduo, que no recato da cabine de voto faz a sua escolha, tantas vezes motivado pelo cansaço de ter de decidir entre promessas em que deixou de acreditar, ou pela esperança numa autoridade que traga ordem a um mundo que deixou de compreender.
Porque a liberdade, com as suas contradições, responsabilidades morais e estado de escolha permanente, é de facto um fardo, e bem exigente.
A desnazificação da Alemanha do pós-guerra foi efectiva […] apenas a ocidente.
Grande disparate. A Alemanha Ocidental ficou cheia de antigos nazis por todo o lado, muitos em posições de poder.
Somente a partir das décadas de 1970 e 1980 é que se começou a perscrutar o passado de muitas figuras.
Um exemplo austríaco, não alemão, foi Kurt Waldheim, que ascendeu a secretário-geral da ONU e só depois disso é que se foi olhar com cuidado para o passado dele e se descobriu nele umas coias feias.
Disparates são o seu forte e eu estou fora desse compeonato. Mas pelo menos faz-me rir. Kurt Waldheim era da RDA ou da RFA?
Sim, a Alemanha é um país recente e a sua História complicada. Pela sua situação geográfica, o actual território alemão sempre esteve entre o oeste e o leste europeu. Na Idade Média, os eslavos estavam logo a seguir ao rio Elba. Uma vez convertidos ao cristianismo, os saxões foram lutar contra os pagãos (eslavos) a Norte e a Leste do Elba. Os francos, também um povo germânico, deslocaram-se para oeste, com Carlos Magno, e aquilo que se chamava “reino dos francos”, passou a ser a França.
Já depois de todo o império germânico estar cristianizado, Lutero criou uma língua comum, ao traduzir a Bíblia. E, mais tarde, Bismarck “uniu” a Alemanha.
Talvez seja um país um pouco artificial, sim. O rio Elba corre, actualmente, pelo meio do país. Uma grande parte serviu de fronteira entre a RFA e a RDA. Além disso, é precisamente o rio que passa em Magdeburgo, a capital da Saxónia-Anhalt.
A França é um catavento (latina? alemã? pacífica? guerreira? cristã? ateia?..). A Alemanha é prussiana e sempre respeitou a Rússia, a história deles confunde-se.
Há muitos pontos de contacto entre a Alemanha e a Rússia, sim. Mas a maior parte dos alemães, pelo menos, no Oeste, não está do lado de Putin.
No Leste, sim, há muito quem simpatize com o czar psicopata.
Isto faz-me lembrar Oswald Spengler (talvez demasiadamente esquecido ou talvez não). Segundo Spengler a grande divisão não é essa, mas sim entre a desordem e a ordem. Ele afirma que os povos continentais têm uma mentalidade dedicada a manter a ordem e respeitam a autoridade de um Estado forte, ao qual aderem instintivamente por acreditarem num sentido colectivo.
Ao contrário, os povos “marítimos” do ocidente europeu, habituados a divisões territoriais muito marcadas, habituados ao comércio e às explorações marítimas, são mais
individualistas e desconfiam instintivamente da autoridade e do Estado Central, e portanto são mais atreitos à desordem e à rebelião.
https://en.wikipedia.org/wiki/Prussianism_and_Socialism
É um autor que poderíamos dizer algo ultrapassado (as teorias dele recorrem um pouco à idea de atavismo e de que um povo está condenado a repetir-se), mas as virtudes de Spengler também são óbvias para explicar muitos traços que nos parecem de “psicologia colectiva” mas que, segundo ele, são condicionalismos geográficos e históricos. (De certa forma libertando os indivíduos dos disparates que vão fazendo.)
Está enganada. O AfD não é de extrema direita, é um movimento nazi e, conforme ouvi há umas horas pela voz de um geopolitólogo no cana Now, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães era uma organização política de esquerda (o homem baseia-se nos conceitos oriundos da Revolução Francesa de 1789, nas suas próprias palavras).
O estranho disto tudo é que o dito AfD é pro-Putin, o mesmo que ordenou a invasão da Ucrânia com o objectivo da sua desnazificação. Ou melhor, nada é estranho se dermos atenção à Trump e a Musk ao que dizem e ao que são politica e socialmente. Já agora, culturalmente.
Talvez fosse melhor discutir princípios e não a volatilidade da propaganda política, amplificada que está pelas redes sociais. Em nome da História. Em nome da memória.
Trump, Musk e Putin são feitos da mesma massa. Todos eles gostariam de ver a extrema-direita a governar a Europa.
Sahra Wagenknecht […] Pertencia ao Linke, […] Mas não lhe chegou, não era suficientemente radical
Isto não é bem assim. A questão, para Wagenknecht, não era o Dia Linke ser pouco radical, mas sim o ser favorável à imigração. Wagenknecht intuiu, corretamente, que boa parte dos esquerdistas radicais alemães viam a imigração com maus olhos, e resolveu crir um partido com estas caraterísticas: claramente esquerdista e contra os imigrantes.
De assinalar também que Wagenknecht é iraniana da parte do pai.
Há muitos iranianos na Alemanha, desde os anos 1960. Muitos vieram jovens, estudar nas universidades alemãs e por cá ficaram.
O pai da Sahra Wagenknecht regressou ao Irão, quando ela tinha três anos, e ela perdeu todo e qualquer contacto com ele.
Não vejo o que isso tenha a ver com as suas inclinações políticas. Ela cresceu na RDA, sempre foi comunista. Andou por vários partidos da extrema-esquerda, depois fundou o seu próprio partido.
A ascenção dos extremos apenas foi, está e continuará a ser possível porque os moderados simplesmente não só não atendem a várias das maiores preocupações do respetivo povo, como ainda o brindam sucessivamente com lições de boa moral e eloquentes atestados de estupidez. Não raras vezes (muito pelo contrário), os povos europeus votaram para ter lebre e depois é-lhes servido gato pelos governos dos moderados e, quando assim é, a confiança vai pelo cano abaixo mais tarde ou mais cedo. E, aqueles nas extremas que não eram vistos por praticamente ninguém como alternativas, passam a sê-lo pois se os moderados falham 1, 2, 3, … n vezes…
Depois esta parvoice de se rotular de “fascista” todo o indivíduo que não concorda com uma dada ideologia defendida pelos tais moderados também não ajuda nada pois, a pouco e pouco, tem-se banalizado esse rótulo e, às duas por três, muitos votantes passam a pensar que aqueles tipos da AfD (ou outros), afinal nem são fascistas nenhuns mas apenas tipos que não concordam com os moderados em dados pontos. Confesso que não entendo a forma absolutamente leviana e irresponsável como hoje se rotulam pessoas de “fascistas” por tudo e por nada… será que quem faz isto não percebe a armadilha que está a criar!? É que a partir do momento em que um gajo é um “fascista” por coisas sem jeito nenhum, ser fascista passa a ser tido como nada de mais na cabeça das pessoas e assim, às duas por três, os verdadeiros fascistas começam a passar pelos pingos da chuva e a instalarem-se na sociedade.
Do meu ponto de vista, ou os moderados (os socialistas, democratas cristãos, liberais,…) percebem os erros que comentem sistematicamente, se aproximam das preocupações reais dos eleitores e mudam o seu modus operandi e, para além disso, se acaba com esta fantochada de dividir a política entre nós os bons e os outros que discordam de nós os, mauzões e “fachos”, ou o radicalismo será inevitável.